OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Coisas de rio, moldura de floresta

Estirão de vidas, momentos, emoções e histórias. Dourado, arraia, o sol bate na cara, a matrinxã geme na vara, está possuída e não vai dar só um caldo, hoje tem pirão, traz pra dentro da embarcação. Mais tarde, é hora de conferir e recolher. Na vara, rendeu, no espinhel, pelo menos um caparari é esperado. Na margem, uma descida de veado, que também pode ser de anta ou de capivara. Adiante, um jacu solta a voz, pela goela, deve ser um caçador. Ali tem balseiro, aqui, o canal do rio, lá na frente, o salão, não faz barulho, usa o coração. Mandi, pacu, piau, tambaqui, tudo isso tem por aqui. Lá em cima, andiroba, seringueira, castanheira, açaí. Isso embarca na vida, na memória e nos registros da gente, dessa gente simples e resolvida. Os rios e barrancos, bichos e peixes, pessoas e alegorias, seringal, vila, cidade, às vezes, a gente pensa que sabe, às vezes, fantasia.

Agüenta aí, a vara é longa, feito castanheira. Nas águas do São Sebastião, fisguei uma jatuarana que apelidei de Suzana, vem cá, Suzana! Os rios e as cidades, inventando verdades, os seringais, as vilas, as vidas, no embalo do rio em remanso, as redes dançam na boca da noite, noites em que o céu é de verdade, basta olhar, as estrelas chamam pra cima a atenção, montado em um arranha-céu de pau, desce um clarão. E a gente entorna o café preto. O rio-beleza e o rio-salvação, até da lavoura. O rio traz os botos que seduzem as moças, o candiru que elas temem. Leva sonhos e ilusões, afoga algumas. Lava os olhos e as visões, mas não sai dali, fingindo que passa, permanecendo em seu curso, beijando as margens, refletindo imagens, às vezes, uma visagem. Mas não é miragem.

O sol nasceu e se mostrou. É preciso embarcar a produção. A borracha, com jeito, endurece. Mexe bem, esse leite que aqui sangra, escorre para além, pra lá de onde a gente não ouve, nem sabe se tem, a música dos botos cor-de-rosa, o apito dos grilos, o choque do poraquê. Semana que vem, Iara vai ter neném, vai passar piracema de mandi, não vai faltar pra ninguém. Olha o samburá, não descuida, mandi tem esporão, ali tem outro estirão. Se a lua não está em cima, é outra hora de pescar. Mais adiante, a alagação deixou o lago cheio, ali tem até piraíba, de barba e cabelo, nem dá pra embarcar, a canoa vai virar, e neste barco tem gente pescando com dois caniços, não pode pular de facada.

Borracha toda dentro, a quilha rasga no meio, batelão, embarcação, estirão. A castanha vem no porão, junto das mantas de pirarucu, estas confundidas com jacaré, se olhar bem tem mapará. Repara, o sol vem caindo por trás das bandas de lá. Mais pra dentro, lá acolá, no rumo de um seringal de fim-de-mundo, tem o barracão de festas do seu Raimundo. Desliga o motor, aqui é bom de dar uns lances, olha, a tarrafa enganchou, aqui é fundo. Segura na linha, lá vem um jundiá-sabão, depois peixe-lenha, fidalgo, fisgado junto com algum sentimento que estava perdido, lá no fundo.

Os rios abastecem as cidades e até recolhem o que elas rejeitam. Passam alisando as beiradas, roçando portos, praias e moças, penetrando em suas vidas, sem sair do ritmo. Praia do Purus é tudo açu, no Acre tem a da Base, a do Amapá, há muito que lembrar. Em buraco de paca, tatu caminha dentro. Enquanto isso, o cupuaçu abunda. O tempo molda as curvas dos rios e as águas saciam o que está em volta. Uma correnteza de lembranças leva o barco que transporta as lendas e as fantasias, baleeira carregada de pensamentos. Uns bichos descem para beber a água que se oferece, com atenção no jacaré que pode ali estar, é fatal descuidar. Uns peixes aguardam as frutinhas que caem das árvores, pescador bom ali estaciona e enche a canoa, o samburá, a pança. Se não fosse o pium. Melhor ir para o remanso. O rio insinua que tudo arrasta, mas tudo traz. Está sempre ali. Minhoca n’água, deixa beliscar, está começando a trovejar, vem de lá pra cá. Águas carregando tanta coisa, beliscando portos e pessoas, prosseguindo. Sonho é bicho do mato, não tem jeito, bicho emburrado, não dá pra confiar em sonho. Sonho tolda a água, e a gente não vê adiante. Capina, azula, sai pra lá, coisa ruim. O rio vai trazer alguém pra mim.

Escuta aqui, você já ouviu falar do poço da cobra, ali perto da Gameleira? A é cobra comprida, viu? Sucuri é bicho grande, traz a morte num abraço. E o rio vai fazendo água, que se esfrega nas margens, come os barrancos, empurrando o pau dos balseiros. Margens acolhem o rio, não o oprimem, o guardam, agasalham. Senão, o rio se perdia em tantas lembranças, na saudade de portos e barrancos, no vai-e-vem, correnteza, enchente e vazante, na repetição de suas proezas.

Segura o prumo, no rumo da proa, no rumo da venta, o rio, que tudo embala, logo mais, a gente espera, vai trazer bons ventos, vai lavar a alma de quem espera, de quem olha, de quem escuta. O rio traz gente de lá, gente que vem pra cá, e segue pra acolá. Será que não podia ficar? Acima do barranco, a moça quer casar de vestido branco e sapato de salto, com rapaz de boa intenção, a comadre já fez a arrumação. Mais dois meses, o bucho ta no pé da goela, como a vida é bela. Baixaram as águas, praia vira canteiro, horta, plantação, melancia, jerimum e feijão. Nos barrancos, casinhas com janelas cheias de sorrisos, quintais de lua cheia, vidas que deslizam, também fazendo de contas que seguem, a gente olha, sente, dá com a mão, segue adiante, os olhos fotografam.

Escuta o barulho do motor, estamos descendo, é a contramão, e se seguimos as águas, estamos indo para onde este rio se entrega a outro, que vira mar, vira ar e volta com a chuva. O rio é teimoso. Na pororoca, sob a regência da lua, que já não está cheia, o rio vai penetrando o mar, em sua imensidão. As ondas dão a impressão de devolver as águas do rio, que se enfiam por baixo das águas do mar, e seguem, viram mar, incorporam o sal, voltam pelo ar.

O rio continua por aqui, atravessando a gente, fazendo ponte com tantas idas e vindas, na travessia da vida, que passa muito mais que o rio. E não vira apenas ar nem água. A vida, a gente passa, os portos, vilas e cidades, a paisagem, a floresta, os bichos, tudo que emoldura o rio, os sonhos que vazaram lágrimas, muitas de alegria, a gente passa, para as águas. Por isso tanta água. Matas e esperanças, gente corajosa, bichos e cantos, aves e vôos, peixes e porto-solidão, batelão, regatão, banho de rio, festas de lua, a boca da noite sorri com a sanfona e dança sob os olhos de um caboré indiscreto.

As águas pariram o filhote, filho da piraíba, que agora nada com o surubim, enquanto o índio pesca com o curumim. A branquinha contrasta com o bodó. Pirapitinga, piranha e pacu passam abaixo do tronco de samaúma, mas já se despedem, ele desce, elas sobem, o vento briga com a brisa, os dedos teclam, os olhos mergulham numa viagem, lembrando que no mato o céu é diferente, a noite tem mais estrelas, sons diferentes, durante o dia, com sorte, passa a asa delta de jaburus, quem conhece pensa em friagem.

A gente vê e sente, olha e entende, balança a rede, faz que adormece, o pensamento se rende e as teclas fazem toque-toque. É um rio atravessando estas páginas. A alegria é um curió que canta e a saudade espanta. O sol batendo na água barrenta. Não, na água dourada, enfeitada, e um banzeiro mexe com a canoinha que passa, lançando mãos e olhos compridos, o remo bate, as águas embalam os corações, as matas olham e falam qualquer coisa pelas folhas que balançam. O sol cai no rio e ele muda de cor, a água da flor. Alegria é a lua dentro do rio. Se for saudade, as águas refrescam. Se for tristeza, as águas levam. Se for sonho, os olhos pescam.

Tomar banho de cuia, descer de bubuia, sem balseiro pra desviar. “Meu rio corre para o teu mar” é outra lenda, aleluia. Correm meus olhos, os teus, corre o que esperamos e sentimos, e isso tudo não passa do rio. Ele apenas finge que leva, mas traga e devolve. Permanece, espreitando, arrodeando. Parece que vai chover! Bom te ver. Rio acima, abaixo, é tudo água, a gente pega e sente, deixa escorrer pelos dedos que agora escrevem, como os olhos, teimando em fantasiar. E as letras embarcam, pronto, é viagem. A correnteza leva estas páginas como mensagem, dentro de garrafa, desejada e inesperada, quase calada, mas apreciada, bem chegada. Vou ficando por aqui, é um bom porto. O rio, não sei.

Meu rio corre para um amor embalar, ir buscar, levar para passear. E o amor da gente é a própria terra que o rio rega, toda paisagem que o emoldura, a gente que nela floresce, essas histórias, legitimadas pelos olhos e pela invenção, criadas, mais ainda, pelo reflexo que vem das águas dos rios, num ciclo, dentro de um estirão sem fim, batendo nos olhos, na invenção, retornando para as águas, para os olhos, o reflexo volta, os olhos registram e o ciclo prossegue. Um ciclo igual ao rio. Suas águas passam, mas ele permanece, se renova, atrai os olhos, lança reflexos, eles batem nos olhos, voltam para as águas, para os reflexos, para os olhos...

 

 
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Rio Branco-AC, 17 de setembro de 2006
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