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Rally Bolpebra 1.200 quilômetros de aventura e adrenalina

Marcos Vicentti
Pilotos se encontram em um dos
ramais do percurso do Rally Bolpebra.
Ao todo, mais de 250 pessoas foram envolvidas em três dias de competição


Juracy Xangai

Três dias de emoção e aventura percorrendo mais 1.200 quilômetros de trilhas, ramais e varadouros da floresta do Brasil, Peru e Bolívia durante o IV Rally Bolpebra 2005, o maior já realizado na Amazônia e que aconteceu de 11 a 14 deste mês.

Quarenta e dois pilotos de motos e quatro quadriciclos enfrentaram os atoleiros, lama, poeira e ladeiras tão íngremes como os do ramal do Jarinal, em Brasiléia, onde muitos pilotos e suas máquinas só conseguiram completar o percurso depois de serem puxados por cordas.

Percorrendo trilhas brutas pela floresta saltando e desviando obstáculos que surgiam a cada momento num caminho desconhecido e que, apesar disso, era percorrido a toda velocidade, os pilotos colocaram à prova suas habilidades e resistência física bem como a potência e a qualidade de suas máquinas. Os que iam ficando pelo caminho eram auxiliados pelos equipes de resgate e limpa-trilhas.

O resgate e atendimento dos acidentados era realizado pela equipe do médico cirurgião ortopedista Rodrigo Minuano. A maioria deles pegou quedas, tombos e arranhões já no quilômetro onze da primeira etapa do especial que aconteceu no ramal da Limeira, em Senador Guiomard. Nesse local a lama, de tabatinga, fazia escorregar e atolar as motos mesmo na descida da ladeira. Poucos escaparam de levar um tombo. Ali o piloto da moto 231 feriu o joelho e foi a primeira baixa, tendo que deixar a prova.

Acidentes acontecem - Pilotar é uma atividade de risco e o acidente mais grave aconteceu por volta das nove e meia da manhã do segundo dia de prova, quando o piloto Luciano Mathias, da equipe do Rally Club de Porto Velho, chocou-se em alta velocidade contra uma árvore. Quebrou a clavícula e vários ossos, além de sofrer muitas escoriações por todo o corpo. Ficou uma hora e meia desacordado e como percorriam uma trilha pela mata bruta não havia como o carro de resgate chegar até ele.

“Ficamos numa situação difícil porque esse local em que aconteceu o acidente estava a 30 quilômetros de Assis Brasil e a 70 de Cobija, de onde eles haviam partido. A solução foi contar com a ajuda de trabalhadores que estavam assistindo à prova, os quais transportaram o ferido até a sede da fazenda do médico e governador do Departamento boliviano de Pando, o médico Carlos Camacho, que deu todo apoio trazendo o piloto até o hospital. Agora ele está internado em Rio Branco”, explica o médico Rodrigo, que percorreu praticamente todos os trechos disputados pelos motoqueiros.

Rodrigo complementou: “Para a gente, que passa a maior tempo dentro das salas de cirurgia, essa foi uma experiência nova, pois, além de vencer os obstáculos, teríamos de improvisar o socorro apenas com os equipamentos que tínhamos à mão. É um desafio, socorremos vários, felizmente, só um deles se feriu com maior gravidade. Contudo, espero que essa equipe que agora sabe como funciona um rally seja mantida no ano que vem para que possamos prestar um serviço melhor ainda”.

Mais de 250 pessoas foram envolvidas no processo de preparação e apoio da prova organizada pela Federação de Motociclismo do Acre (Femac). A corrida só tinha início quando um primeiro piloto que não compete, mas apenas faz o trabalho de verificação de que o trecho esteja livre, informa qualquer alteração como ponte caída ou gado na pista. Vinham então os corredores, depois deles o resgate médico e os limpa trilha ajudando os retardatários, por último o “vassourão”, caminhão ou outro veículo de carroceria, recolhendo pilotos e máquinas que vencidos pelas dificuldades não conseguiam completar o percurso.

Enquanto aguardavam nova largada de deslocamento ou especial para a disputa entre pilotos, a equipe técnica fazia ajustes ou consertava as motos quebradas.

Num rally, vence aquele que cumprir todos os trechos da especial em menor tempo e com mais regularidade. O resultado final é dado pela somatória de pontos e a conseqüente perda de parte deles devido a alguma infração cometida. Por isso, quem perde uma disputa briga para recuperar o tempo perdido na próxima etapa, o que exige perícia e controle do piloto.

Solidariedade

Embora não concorressem a prêmio algum, três participante do Clube do Jipe percorreram as trilhas transportando repórteres e prestando socorro às camionetas que ficavam atoladas em muitos trechos do caminho. Partiram de Rio Branco os pilotos Alcidez, o Cid, com seu engesa “Treme Terra”, Dedé, com seu Troller Amarelão, e Bá Pontes, com o jeep “Garanhão”.

Depois de puxar e rebocar muitos veículos pelas trilhas dos seringais na Bolívia, o Troller Amarelão quebrou e teve de voltar para Rio Branco, mas os outros dois concluíram toda a prova. “Para nós é um prazer participar desse rally ajudando seus organizadores, pilotos e jornalistas. É também um preparativo para o rally de jipes que iremos realizar no ano que vem onde a emoção e muita adrenalina marcarão a prova”.

O Acre no mundo - Dezenas de jornalistas acompanharam a prova, toda a imprensa local e até de revistas especializadas como a Fora de Estrada, Quatro Rodas, Jeca Jóia e a agência internacional de notícias da Alemanha Reuter. Equipes do Peru, Bolívia e estados vizinhos como a Notícias na Hora, de Porto Velho, representada pelo fotógrafo e cinegrafista Cledson Paiva, que além de acompanhar a prova está preparando um documentário sobre o corredor João Targino, que venceu o Rally Bolpebra do ano passado.

“Além de paisagens muito bonitas com os corredores atravessando a floresta, enfrentando a lama, buracos e outros desafios, também nós jornalistas ficamos com a adrenalina à flor da pele porque temos de percorrer muitos trechos, tanto que nosso carro quebrou, pegamos carona e não perdemos nada. Não tenho idéia de quantos quilômetros tive de andar a pé para conseguir uma boa foto nos trechos de corrida especial onde é proibido entrar carro ou moto, exceto os corredores. Valeu mesmo”, afirma Cledson sem esconder a empolgação.

Veteranos - Participando de todos os Rallies Bolpebra já realizados até agora, o piloto Bruno Flangini recorda: “Naquela primeira disputa fomos até Maldanado, eram apenas 14 motos e a equipe tão reduzida que quem dava largada enquanto outro corria pela estrada para ficar mais adiante e dar a bandeirada de chegada. Tinha um repórter boliviano, o único que participou da prova, ele ia na frente, chegava nas cidades, chamava a população toda e quando a gente passava era uma festa”.

De Cuiabá veio Paulo Borguete, que pilota motos há mais de 30 anos e há dez faz isso profissionalmente participando de rallies como Os Sertões e Piocerá, mas pela primeira vez entrou numa disputa em cima de um quadriciclo. “Decidi enfrentar uma nova modalidade e, embora não possa passar por todos os lugares que as motos, pilotar quadricilos é emoção garantida. Gosto de desafios e esta prova do Acre foi muito especial porque percorremos três países em meio a esta floresta maravilhosa que é a Amazônia.”

Olhos do povo

Na cidade boliviana de Bolpebra, em frente a Assis Brasil, há meia dúzia de casas e uns 50 moradores, mas a passagem das motos se transformou em dia de festa e famílias inteiras sentaram-se à beira do caminho para acenar aos corredores que passavam, mas alguns se assustavam. O seringueiro Juan de Barro esclareceu: “É muito bonito, mas perigoso, por isso trouxe todas as crianças aqui para casa e amarrei os cachorros. Gosto de acenar para eles e desejo que tudo seja bom para eles”.

Rally vai a Cuzco

O quinto Rally Bolpebra que acontecerá no ano que vem vai mais que dobrar o circuito de 1.200 quilômetros disputados neste ano. Isso porque tudo está sendo preparado para que a disputa siga até a cidade de Cuzco, passando por alguns dos pontos mais altos da Cordilheira dos Andes.

Salomon Peres Alencart, sócio proprietário do hotel Cabaña Quinta, em Puerto Maldonado, é um entusiasta dos esportes radicais. Ele trabalhou na organização e também correu no primeiro Rally Bolpebra realizado em 2001. “Comparar a corrida de agora com o primeiro que fizemos é covardia. Na época fizemos tudo na cara e na coragem. Na Amazônia temos duas condições de corrida que é a lama do inverno ou a poeira do verão, nós pilotos preferimos a lama, a gente pode até cair mais, mas é muito menos perigoso que com a poeira porque não dá visibilidade”.

A prova de 2006 deverá contar com o apoio da equipe organizadora do Rally Inca que tem passado pelo Acre seguindo para o Rio de Janeiro. Mas o piloto Jesus Lopes proprietário da Alta Ruta Quatro, empresa que organiza a maioria dos eventos fora de estrada disputados no Peru, já garantiu apoio pessoal ao Rally Bolpebra do ano que vem.

“Essa disputa terá de ser muito bem organizada porque além de o traçado ser mais longo, os pilotos precisarão demonstrar sua perícia para vencer as lama e os obstáculos da floresta, as pedras, buracos, rios gelados do altiplano e ainda a altitude já que em ponto como o Okonguete a pista passa a mais de 4.500 metros de altitude. Isso exigirá preparo físico dos pilotos e motos com motores mais potentes”, esclareceu Jesus.

Rally da virada - Depois de três dias e mais de 1.200 quilômetros de trilhas percorridos pelos pilotos que aceitaram o desafio de enfrentar o maior Rally da Amazônia, Cassiano Marques, piloto e presidente da Federação de Motociclismo do Acre, declarou: “O sucesso desta prova é incontestável. Somos o Estado brasileiro em que o esporte mais cresceu nestes quatro anos, prova disso é que em junho do ano que vem estaremos sediando uma das etapas do Campeonato Latino-Americano de Motocross e realizando este Rally até Cuzco”.

Ele fez questão de destacar: “Esta prova é, sem dúvida alguma, o maior rally da Amazônia e vai crescer muito mais, pois no restante do país é cada vez mais difícil organizar disputas desse tipo.Com isso estamos divulgando o nome do Acre positivamente, atraindo turistas para nos visitar e, principalmente, contribuindo de forma efetiva para a integração latino-americana”.

Ele agradeceu o apoio do governo do Estado do Acre e de Pando, na Bolívia, as prefeituras por onde passaram os corredores e também às polícias rodoviárias estadual e federal que ajudaram a garantir segurança na prova. O rally foi promovido pela Federação de Motociclismo do Acre (Femac) e realizado pela Trilhas do Acre Moto Clube sob a Supervisão da Confederação Brasileira de Motociclismo (CBM). Contando com o patrocínio do governo do Estado do Acre, Banco da Amazônia, Infor Graf, Expresso Araçatuba, jornal Página 20, Varig, Serra’s Turismo, Alimentos Fronteira, Barriga Verde, Governo de Pando, Honda Star Motos Acisa, prefeituras de Brasiléia, Epitaciolândia, Pl[ácido de Castro, Atacadão Rio Branco, Imobiliária Ipê, Contil, Malharia Ponto Sem Nó e Autoposto Central.

 
 
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Rio Branco-AC, 17 de novembro de 2005
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