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![]() MADALENA, irmã de Juvenal |
| Família traduzida em versos apaixonados
A escritora Lúcia Helena Pereira, 61, sobrinha-neta do poeta e “boêmio inolvidável” Juvenal Antunes, manda-me de Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte, mais informações, poemas e fotografias de sua admirável família composta de escritores e poetas sensíveis, cuja dignidade se vislumbra em letras arrumadas em versos e textos delicados. Quisera que uma língua tu falasse E aí estão também (nas fotos) a irmã do poeta, Madalena, e a sobrinha-neta Lucia Helena, esta herdeira da cultura que juntou o vale do Ceará-Mirim ao Vale do Acre. Diz Lúcia, num e-mail que recebi esta semana, respondendo um pedido de mais notícias da família: O fato é que muitos dos documentos deixados por tio Juvenal, com exceção dos que estavam em poder de vovó e outros familiares, eram encontrados com gente assim (ele descreve um jornalista mau-caráter que guardava, por guardar, textos de sua família). Algumas pessoas de Ceará-Mirim me telefonavam com elegância e diziam: ‘Tenho textos de Juvenal, tenho isso e aquilo’. Os manuscritos principais estavam com vovó Madalena. Antes de morrer (vários problemas e uma trombose na perna direita, a qual teve que ser amputada), deixou tudo que tinha de tio Juvenal com meu pai. O resto eu ia buscar nas casas de parentes. Se quiser divulgar alguma coisa, você dará os caracteres necessários: ‘aspas’ e o nome de quem lhe forneceu o material. Sobre as fotos, não poderia enviá-las porque perderiam o ineditismo e eu as quero em meu próximo livro. Creio que me compreende e agradeço seu interesse, inclusive divulgando tio Juvenal na sua página do Almanacre. Que maravilha! Lúcia encerra o e-mail mandando “um beijo e meu amor pelo Acre, essa terra que foi parte da vida do meu tio”. Numa outra correspondência via internet, Lúcia me enviou o seguinte comentário sobre o tio que chamava atenção por ser “uma figurinha baixa, magra, fronte saliente, olhos agateados, nariz recurvo, lábios delgados, queixo fino, rosto sardento e andar ligeiro”. Alheio às hipocrisias sociais, Juvenal levava sua vidinha de boêmio e poeta. Chegou a escrever sonetos sobre amores profanos, provocando preocupação no irmão Ezequiel Antunes, homem recatado, militar e médico bem conceituado. Com os desregramentos de Juvenal e seus escritos em linguagem liberal (pesada àquela época), no mesmo ano (1909), transferido para servir ao Exército em Belém do Pará, levou Juvenal Antunes com ele. De Belém, Juvenal seguiu para Sena Madureira (Acre), exercendo a Promotoria Pública interina. Em 1913 assumiu o cargo de delegado de Polícia de Rio Branco, sem dispensar a boêmia, o celibatário e a poesia!
FREGUESIA DO Ó Leila Jalul * Ontem, antes de deitar, imaginei falar de meus antigos e ilustres vizinhos. Não foi preciso nem pensar muito. Eles me acordaram, numa confusão, às 4 da matina. Como já faz tempo que subiram, ainda não estão acostumados com o andar da carruagem hoje. Fiquei aborrecida e resolvi logo incorporar, não sem antes me precaver com um pouco de oração, não sem antes pedir proteção aos meus mentores. É verdade. Primeiro me chega Seu Vidal, marido da professora Maria Augusta. Eles moravam num sobrado. O velho era cheio de mungangos. Gostava de assustar crianças quando mostrava uma fotomontagem onde aparecia com sua cabeça separada do corpo. Uma cabeça horrorosa, uma boca cheia de dentes, estampando um sorriso aterrador. Quantas vezes, corri para não ver aquele troço que me fazia dormir embaixo da cama, tanto era o medo. Logo em seguida, me aparece o primeiro estilista que já andou nestas plagas. Custei a lembrar o nome do distinto. O cara era um sósia, sem tirar nem por, do Zé Bonitinho, aquele personagem do Chico Anísio. E o nome dele? De repente, lá da cozinha, com voz de deboche, um outro da fila grita: - O nome dela era Flávio! Isso mesmo. Precisava ofender? Flávio era alfaiate e modista. Muito afetado, quase não pisava no chão. Tinha a leveza dos cervos. Com sol, com chuva, sempre com suas revistas Burda debaixo do braço. Um mostruário de rendas e tecidos para fazer as demonstrações, sempre que solicitado. Fazia questão de conhecer os tecidos importados, os nomes das cores das linhas de seda, e dos tecidos: azul natiée, renda racinne, shantung, tafetá chamarlotado, e por aí. Frescura, era com ele mesmo. Mas se deu mal quando aceitou uma encomenda para o vestido de 15 anos de uma mademoiselle. O vestido ficou de tal forma vulgar, tão vulgar, que a menina mais parecia uma vadia. Perdeu o dinheiro e mais da metade da clientela. Saiu do ramo. Mais pra baixo, o quarteirão do Seu Merched onde, a partir das 18 horas, se ouvia as ondas sonoras da Rádio Sedan Sukicista. Músicas árabes lamentosas e, de vez em quando, para contrabalanço, aparecia: No meu Cariri, quando a chuva não vem/ não fica mais ninguém, somente Deus ajuda/ Se não vier do céu, chuva que nos acuda/ macambira morre, xique-xique seca, juriti se muda...” Agora, coisa de doer na alma, era o casal Nestor e Xavier e suas filhas Dadi e Didá. Gêmeas, creio, eram feinhas e muito magras. Alguém pode me dizer, que mal fizeram aquelas duas criaturas para possuírem esses nomes? Não poderia ser Sandy e June? Maria Inês e Inês Maria? Luana e Luena? Wanda Célia e Célia Wanda? Olhei pro lado e vi seu Alli Mussi, já cansado. Resolvi deixá-lo furar a fila. Mais conhecido como Raimundão, tinha uma loja de panelas, tachos e caçarolas, além de uma seção de secos e molhados. Tinha, também, uns vidros tipo apartamento, onde colocava os chichetes e bombons já molhados. Uma melequeira dos diabos. Quando eu ia lá, pedia para que ele me mostrasse as panelas que viviam penduradas no teto, amarradas em pencas num fio de arame. Espaço pequeno e bem aproveitado. Uma vez, pedi para ajudar o velho, só para ter o prazer de deixar cair e ver o estrago e ouvir a barulheira do alumínio. Fui posta pra fora, aos tapas, na carreira, ouvindo o Raimundão esbrevejar: - Haredine, acruta! Haredine, acruta! Pelo som, pela rima... Pedi aos demais invisíveis na fila para que voltassem na proxima sessão. * Poeta, cronista e procuradora aposentada da Universidade Federal do Acre. |
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