OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Canção desaparecendo (A Uélido Miranda Gurgel, in memorian)

É como nota aguda, lancinante, plangente, dolorida, do violino grego afinado ou de guitarra baiana que grita. E o som é tão fluído, penetrante, ardente, flamejante, que arrancou do peito do anjo um sangue espesso, tórrido, cortante. E o anjo já é o falcão ferido, que foi por uma lança atingido e agora cai, abatido, vertiginosamente, do alto despenhadeiro, base do seu primeiro e do seu último vôo. Bate com a cabeça angelical pássaro morto, e com o peito, e com as asas, e com o coração, pedra em pedra, surgidas na seqüência do grande salto para o fim. E o penhasco é tão alto, e as escarpas tão íngremes... Pobre anjo! Não mais voltará a sonhar e voar. Lembra-me, então, a figura encarquilhada do pálido monge tibetano a morrer de frio em penitência por um erro mínimo. Ou me vem à mente esquálida, esquelética criança etíope que é vagarosamente morta pela fome que lhe presenteou a humanidade... Por tudo isto, não resistiu.

É, sim, vivemos hoje a ilusão do pássaro que não tem ninho, nem onde pousar. Ou como o urso que hiberna no inverno à espera da primavera e, ao acordar, já está velho demais para viver, pois a hibernação durou cem ou duzentos invernos. E a neve era tanta e o frio tão intenso que o sono o capturou por tanto tempo. E a criatura já não é um ser vivo. É reles espectro semimorto... É uma tênue alma que se arrasta... É o espírito, é a representação de um gigante que um dia foi poderoso e forte... Foi!

Levanta-te, ó passaro da liberdade nossa e de todos! Vai buscar a felicidade em outras plagas, em outros mundos ou em outros mares nunca vistos por ti. Agora, sim, este paraíso é muito mais teu, pois permanecerás até a eternidade a observá-lo do alto onde te permitiu a providência divina. Voa guerreiro e vai pousar com os nossos sonhos na altitude maior onde te será permitido ajudar-nos a preencher as lacunas deixadas por ti nas vidas daqueles que tanto amaste.

Os nossos sonhos são tantos e tão grandiosos que, na maioria dos casos, não cabem no curto espaço de uma vida terrena. Nós, que temos o privilégio divino de sonhar e ousar, poderíamos estar sempre preparados para, no meio do sonho, sermos apanhados de surpresa pela mão do Criador que nos quer fazendo o bem em outros horizontes deste mundo tão azul. Projetamos o futuro e não sabemos quando será chegada a hora e a vez do irremediável ponto final.

Talvez, se nos fosse dado conhecer o futuro, tivéssemos dito muitas outras vezes muitos outros adeuses aos que têm partido todos os santos dias de meu Deus, notadamente, esses nossos do convívio diário, com quem dividimos projetos e sonhos acalentados na busca de uma humanidade mais feliz, que se vão tão prematuramente.

E das ações de quem se vai ficam resultados maravilhosos porque haveremos de nos recordar sempre dos exemplos de dedicação, tenacidade e vontade de fazer bem feito e logo, como se amanhã já não fosse mais um dia entre os vivos... Mas não nos foi dado escolher a data da partida.

Caríssimo irmão! Nós nos lembramos, certamente, do amigo que foste. Honra-nos ter estado ao teu lado, ajudando-te a pensar o futuro destas gerações de sonhadores adolescentes, nossos alunos, a quem amamos justamente porque Deus nos colocou nas mãos a responsabilidade de ensinar alguns meios de melhor gerir a vida na busca de um futuro que se possa fazer brilhante. Temos sido professores até a nossa última hora, como esta que agora foi chegada para ti.

Tu te foste tão de repente e deixaste tanta dor e tanta saudade entre os teus que meras palavras não conseguem externar a emoção que fisga o peito. E Deus, na sua infinita bondade e sabedoria, haverá de nos ensinar as vias através das quais buscaremos o consolo, posto que sofremos perda irreparável.

Esta canção de réquiem desaparecendo é uma homenagem de todos quantos fazem o dia-a-dia do Colégio Estadual Barão do Rio Branco ao Professor Uélido Miranda Gurgel, nosso diretor, desaparecido em pleno fragor da batalha por uma educação de qualidade para o futuro das nossas gerações.

Segura na mão de Deus e vai, meu querido amigo.

* Cronista

 

 
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Rio Branco-AC, 17 de dezembro de 2006
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