| ESPECIAL | |
| ESPECIAL | |
Cinema na floresta... na chuva e na lama |
|
Em pouco mais de cinco horas de viagem descendo o rio Iaco, a partir de Sena Madureira, e continuando a descida depois de entrar no rio Purus, o batelão do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Sena Madureira chegou à tarde do sábado, dia 10, à comunidade de Sardinha, situada bem abaixo, às margens do rio. Com interesses variados, 15 pessoas viajavam no barco. O objetivo da viagem: promover uma sessão de cinema na isolada Sardinha, aonde a energia elétrica ainda não chegou e, por isso, os moradores não têm acesso aos programas de televisão. Cinema, então, só de ouvir falar. Lá pelas 14 horas, o batelão aportou no destino final. O local, um barranco, com cerca de dez metros de altura, todo enlameado e escorregadio. Em cima, apenas uma clareira na imensidão da floresta, com duas casinhas simples: uma é a escola e outra a casa do presidente da associação rural local, Arquimedes. Logo, a equipe do barco mais os moradores ribeirinhos que já estavam por lá iniciaram a construção de uma “latada” - cobertura feita com lona, amarrada em varas enfiadas na terra -, na frente da casa do presidente, para funcionar como sala de cinema. Dessa maneira se pretendia possibilitar a todos assistirem ao filme, já que eram esperadas muitas pessoas para a exibição. Mas, subitamente, ela veio do Noroeste, por cima do rio Purus, aquela imensa nuvem, pesada, transformando-se em chuva torrencial, logo depois de um forte vento que praticamente desmanchou a rústica edificação que serviria de abrigo ao cinema itinerante. Não teve outra saída: a sessão foi mesmo na sala da casa do presidente, onde cerca de 70 pessoas se espremeram para assistir a produção nacional “Lisbela e o Prisioneiro”. Ninguém despregou os olhos da telona e, apesar de tanta dificuldade de locomoção, onde a natureza é soberana, todos ficaram felizes pela novidade presenciada. A chuva torrencial e outros imprevistos fizeram com que a sessão fosse encurtada. Normalmente, na sessão, é mostrado inicialmente o documentário “Borracha para a Vitória”, que conta a saga dos seringueiros e, em seguida, um filme. Com a exibição em Sardinha, foi cumprida a 4ª programação de um total de 12 previstas pelo ‘Cinema na Floresta’, um projeto idealizado pelo gabinete do senador Tião Viana e executado pelo STR de Sena Madureira, com apoio da Fetacre. Com os recursos do projeto, aprovado pela Fundação Elias Mansur (FEM), foram adquiridos o retroprojetor, filmes, DVD, videocassete, outros pequenos equipamentos e são pagas diárias a dois jovens, Edilva Alves da Silva e Leandro Nascimento Souza, que executam a exibição dos filmes, além da alimentação para a equipe do transporte. A Federação dos Trabalhadores em Agricultura (Fetacre) cedeu o motor gerador e a caixa de som. O barco é do STR. Os acreamazonenses Um marco divisório em plena zona urbana mostra uma curiosidade: Sena Madureira está situada em cima da linha Cunha Gomes, que separa os estados do Acre e do Amazonas. Isto já causou uma série de problemas por lá. Descendo o Iaco, logo abaixo de Sena, já começa o município de Boca do Acre, situado no Amazonas, mas, até mais ou menos o Seringal Arapixi, que fica a 08 horas de baixada, a população ribeirinha se identifica totalmente com o Acre. Segundo explicou o presidente do STR, José de Souza, os puruenses dali votam no Acre, estudam no Acre, são dos trabalhadores rurais do Acre, fazem seus papéis no INSS de Sena Madureira, etc. A não ser pelas escolas das comunidades ribeirinhas, que são do governo do Amazonas, o resto tudo é acreano. Talvez a decisão do STF, que dá novos contornos ao mapa do Acre, alargando em 100 mil hectares seu território no avanço sobre o estado vizinho reponha a realidade nos limites da região. Sardinha é uma dessas pequenas localidades às margens do interminável Purus. O rio é piscoso, com abundância de várias espécies de peixes, mas o nome da localidade se deve à fartura do peixe conhecido como sardinha amarela ou sardinhão, um peixe delicioso, “principalmente assado”, como todos recomendam. Quando a equipe do cinema aportou numa casa da localidade, todos puderam apreciar um belo exemplar de sardinha amarela pescado pouco antes, de uns 04 quilos. A generosidade da população ribeirinha não tem limite: imediatamente o dono da casa nos presenteou com o peixe para o jantar. No porto definitivo, o do barranco enlameado, logo que chegamos, a dinâmica Conceição Araújo da Silva, secretária de políticas sociais do STR , limpou o peixe e o preparou para o jantar que só veio a ocorrer depois do temporal, depois da sessão de cinema. Naquela região do Purus também existe muita caça. Até anta e queixada. Natureza exuberante, aventura emocionante Quase todo pintado de vermelho, o batelão do STR é um expressivo contraste ao amarelado das águas barrentas do Purus, ao verde da floresta e ao céu, ora azul, ora branco de nuvens. O Purus, em repiquete, está enchendo e represa o Iaco. A descida é deliciosa. O batelão desliza sobre a correnteza, enquanto a natureza mostra tudo que é de beleza: bando de aves no céu, pequenas aves nas praias já quase engolidas pela água barrenta. Às margens muitas casas. Sim, o Médio Purus é bastante habitado. A população vive de produzir farinha, pesca e caça e um ou outro produto agrícola e pequena criação de gado. As famílias são numerosas, existindo localidades onde todos são parentes. Os piuns (espécie de mosquito) são os donos do pedaço. Muito pequenos, estão por toda parte e picam sem dó nem piedade, deixando sempre o inconfundível ponto vermelho na pele. A noite é das carapanãs, que, além de torturantes, com suas picadas doloridas, ainda podem transmitir a malária. Quando chegamos à casa do presidente, a primeira dificuldade foi subir com o gerador de luz pelo barranco enlameado. Depois veio a latada que acabou sendo desmanchada pela chuva. Finalmente dentro da sala da pequena casa (uns 4X6m) o filme foi projetado, para alegria de todos. Agora, já tudo escuro, só tinha um problema: voltar para nosso barco. Se descer simplesmente já era difícil imagine a dificuldade para descer com o motor gerador, o item mais pesado de todos. Foram precisos seis homens, alguns atolados, acima do joelho, para levar o motor até o barco. A chuva intensa de pouco antes tinha transformado o barro numa geléia, onde quase não se achavam pontos fixos para a descida. Finalmente, tudo e todos enlameados se acomodaram dentro do batelão, onde a equipe passaria a noite. Nesta época, ocorrem muitos desbarrancamentos que podem soterrar quem estiver abaixo. Escutamos um deles caindo, fazendo um barulhão. O porto em que estávamos parecia muito perigoso, com seu barranco a pique, todo infiltrado devido às forte chuvas e, por isso, os comandantes do barco resolveram levar o batelão a um porto melhor, cerca de cinco minutos acima, onde moravam alguns ribeirinhos que tinham participado da sessão de cinema. O batelão se afastou da margem, mas sem farol para navegar à noite, o piloto confundiu~se na escuridão e começou a descer o rio, em vez de subir. Foram só uns 10 minutos. Uma mulher chamou a atenção do piloto que o barco estava descendo o rio. O piloto iniciou o procedimento de inverter o rumo do barco. Na escuridão, deu de cara com um balseiro. Teve que se desviar dele e acabou ficando por alguns minutos completamente perdido dentro do rio imenso. Pior de tudo, o motor gerador que estava iluminando dentro do batelão, resolveu parar também naquela hora. Escuridão total. Pessoas olhando-se preocupadas. Durou um instante, logo o gerador voltou, o piloto achou o rumo e subimos até o porto seguinte. Nada muito perigoso, segundo o experiente motorista do STR, Regimar. Segundo ele, mesmo que ficássemos bloqueados pelo balseiro, o batelão não afundaria, pois estava com carga bem abaixo de sua capacidade, bem acima da flor d’água. O batelão do STR está em fase final de uma ampla reforma, tem um motor novinho e é super importante para as atividades do sindicato. No meio de toda aquela confusão, Conceição conseguiu fazer um cozidão da sardinha amarela, que fez a alegria dos navegantes. Hora de dormir. As redes foram atadas ocupando todo espaço interno do batelão, umas sobre as outras. Só faltavam mesmo as carapanãs. E não é que eles não apareceram?! Talvez, devido ao temporal de pouco antes, elas sumiram, o que nos livrou de uma peia terrível. Deitados nas redes, o sono chegou embalado pela música da correnteza do rio, acompanhado dos sons de milhares de criaturas da floresta. No dia seguinte, antes das 04 horas da madrugada, o batelão já iniciava a morosa subida até Sena Madureira. Foram 10 horas de viagem. Tudo muito tranqüilo debaixo do sol tropical. O rio Purus, poderoso, farto, o Iaco de tantas histórias, a floresta, quase impenetrável e a vida explodindo de exuberância em tantas formas de vida. Lá em baixo, no Purus, crianças e adultos ribeirinhos, certamente estão se lembrando da emoção de terem participado de uma sessão de cinema. |
|
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |