| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Filhos da Floresta Outra semana importante essa. O Acre é realmente surpreendente! Anteontem, dia 15, teve início a já tradicional Semana Chico Mendes na data que marca o nascimento de um dos maiores lideres populares e ambientais que o Brasil e o Mundo já tiveram. Pois o mesmo dia marca também o nascimento de Mestre Irineu, um dos mais expressivos líderes espirituais do nosso tempo (me refiro ao século XX e ao final do segundo milênio da era cristã). Dois homens simples que fizeram de sua sabedoria e sacrifícios pessoais uma força maior que a de homens comuns e alteraram o funcionamento das rodas da história. Daí sua força e sua beleza. Tanto Chico Mendes quanto Irineu Serra se tornaram muito maiores que o Acre, que a Amazônia, que o Brasil. Suas vozes alcançaram e ainda estão ecoando e se espalhando por todo o mundo. E isso tudo só aconteceu porque ambos sabiam que suas palavras eram muito maiores que eles próprios, expressavam a voz dessa imensa floresta que carinhosamente lhes deu a vida. Do interior das matas, na região dos altos rios, nas cabeceiras, aqui onde surgem as primeiras fontes desse imenso país de águas e matas que é a Amazônia, surge o novo, que se revela a todo instante como o mais antigo conhecimento da humanidade. Uma floresta terna, rica e generosa que ama os homens com a mesma intensidade com que os homens não conseguem ama-la. Uma história descrita pela trajetória desses dois personagens que abriram mão de suas necessidades e vontades pessoais em prol dos outros, mesmo daqueles que até hoje não tem consciência de suas existências. Um através da política, da ideologia, do pensamento criador que encontra saídas e estratégias novas onde tudo parecia perdido. Outro através do espírito, do desprendimento, do sentimento criador que enxerga luz e redenção quando tudo estava mergulhado no breu. Duas trajetórias históricas distintas, distanciadas no tempo (porque afinal não se conheceram nessa vida), mas com o mesmo sentido. Dois homens igualados na coragem de entregar suas vidas. Dois irmãos, filhos da floresta, mártires de seu tempo, vozes do tempo que há de vir. Muitos certamente vão torcer o nariz (de novo) pra esse jeito de contar a história do Acre. O que eu posso fazer??? É nessa história que “Acre dito”. E isso me basta. Pois eu nunca havia me dado conta destas coincidências e conexões. Até que no Palácio Rio Branco, no ultimo dia da Amazônia (05 de setembro), durante a solenidade de tombamento das casas do Chico Mendes pelo Governo do Estado e do Mestre Irineu pelo Estado e pelo município de Rio Branco, esta percepção emergiu coletivamente. Coincidências que levam a outras coincidências, que levam a outras coincidências e assim por diante, desafiando nossa compreensão causal das coisas e dos acontecimentos. De todo jeito os tombamentos estaduais e municipal da Casa de Chico Mendes em Xapuri e da Casa do Mestre Irineu em Rio Branco, são o início de um processo de reconhecimento oficial que deverá nos levar também ao tombamento pelo governo federal destes mesmos bens culturais do povo brasileiro e depois ao reconhecimento da UNESCO e de outros organismos internacionais da importância desses líderes e de seus legados para toda a humanidade. Viva Mestre Irineu! Viva Chico! Salve a Rainha da Floresta e todos os seus filhos! Palavra escrita Acho que estou ficando velho, antiquado, ultrapassado. Mas faço minhas as palavras de Élson Martins em sua coluna AlmanAcre. Não consigo ter o mesmo gosto pelos blogs e sites que tenho pelos jornais e pelos livros. Sinto falta da palavra escrita no papel. Essa coisa ao mesmo tempo física e sensorial das letras impressas em um suporte palpável, duradouro, às vezes permanente. Não consigo deixar de ver a informação virtual, digital, como semelhante demais à palavra falada, com sua impermanencia, fugaz, solta no vento e que se esvai assim que deixa de soar para ouvidos atentos ou nem tanto. Em muitas madrugadas atravessadas com os livros, como companhia insone e de inconfessada raiz notívaga, guardei um prazer inesgotável por aquelas palavras que me faziam viajar por mundos e tempos distantes e desconhecidos. A memória dos livros pesando entre os dedos no eterno revirar na cama, em busca da perdida posição perfeita, impregnou meu ser de tal forma, que por mais que eu goste do computador, da internet e de suas facilidades (como sou do tempo da maquina de escrever sei perfeitamente das vantagens de escrever nestas máquinas com suas facilidades de “recorte e cole, volte e refaça”) não consigo pensar num mundo sem papel e tinta. Além disso, os blogs são rápidos demais. O que saiu hoje, já não serve pra amanhã. O que saiu ontem então nem se fala. E quantas vezes me perdi e me encontrei nas páginas amareladas dos antigos jornais que contam a história de um Acre que já não existe. O que será da história sem os livros e jornais que teimam em resistir à voragem do tempo mesmo com sua frágil existência de papel. Por isso pensei em transformar essa coluna num blog, mas confesso envergonhado... Acho que ainda não estou pronto para tanto, ou então estou mesmo ficando velho... se achan do E por falar em blogs, essa semana tive uma desagradável surpresa ao ver publicado no Blog do Altino um questionamento maldoso da Dra. Denise Schan acerca da legalidade de minha ações como arqueólogo no Estado do Acre. Diante da citação de meu nome e das suspeitas levantadas fui obrigado a fazer o que não tenho feito, responder de imediato ao questionamento no próprio Blog. E explico minha contrariedade. É muito fácil emitir opiniões e desfeitas encobertas pelo anonimato o que é muito recorrente nas sessões de comentários dos blogs em geral. É um jeito simples e indolor de não assumi Por outro lado sou avesso ao sensacionalismo como mola propulsora do conhecimento. Acredito que toda informação que não leva ao conhecimento, mas apenas à promoção pessoal de seus divulgadores é desprovida da ética essencial àqueles que se propõe a produzir ciencia ou informação. A história mostra claramente que o sensacionalismo se destina mais a escamotear e disfarçar, do que a informar ou esclarecer. O que não significa que não esteja disposto a fazer todos os enfrentamentos necessários pelas causas que defendo. É uma pena porque não tenho a menor vontade de ficar de “picuinha” contra quem quer que seja. Pelo contrário, acho pura perda de tempo ter que escrever sobre esse assunto e assim ocupar um precioso espaço com a defesa de agressões infundadas. Mas como prometi completar a resposta que já dei em parte à Dra. Denise achando no próprio Blog do Altino (e que pode ser vista por quem tiver curiosidade para tanto no endereço eletrônico altino.blogspot.com). Vamos lá. Por mais que a Sra. não goste disso Dra. Denise achando, além de historiador sou arqueólogo sim. Já trabalhei em sítios arqueológicos no litoral e no interior do Rio de Janeiro, nas cavernas e colinas de Minas Gerais e na floresta e áreas abertas do Acre, perfazendo mais de 1.500 horas de trabalho de campo como integrante do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). Trabalhei durante seis anos nos laboratórios do mesmo IAB analisando cerâmica, artefatos de concha, discutindo mais do que fazendo analise de arte rupestre, aprendendo de antropologia física. Mas me apaixonei perdidamente pela análise de artefatos líticos (para os não iniciados: instrumentos, armas e ferramentas feitas de pedra – documentos importantíssimos da famosa idade da pedra) e neste campo me especializei. Por isso me tornei um dos primeiros no país a aprender a análise denominada “traceologia lítica”, graças aos pioneiros cursos promovidos pelo Prof. André Prous da UFMG. E estava concluindo o curso de mestrado no IFCS-UFRJ com concentração em arqueologia brasileira quando larguei tudo pra vir pro Acre seguindo os passos de uma excepcional pesquisadora chamada Mauricélia Souza, conhecida por todos aqui como Célinha. Uma acreana pioneira no campo da arqueologia que infelizmente nos deixou em meio de caminho (falo do nosso caminho, porque o dela, percebo hoje, foi cumprido integral e admiravelmente), por essas reviravoltas com que o destino insiste em abalar nossas certezas. E foi com base em toda essa experiência e formação (que a senhora, que também se quer arqueóloga, mais que ninguém, deveria saber quantos calos na mão e sacrifícios custam nesse país) que me tornei sócio efetivo da Sociedade Brasileira de Arqueologia, recebendo assim todo o necessário e legítimo reconhecimento de meu processo de capacitação. Além disso, fui durante seis anos (1999-2004) Chefe do Departamento de Patrimônio Histórico, ligado à Fundação Elias Mansour, que é o órgão estadual com competência legal para desenvolver ações de conservação, recuperação e proteção do patrimônio histórico e cultural do Acre que inclui, como a Sra. deveria saber, a defesa do nosso patrimônio arqueológico. Uma função que muito me orgulha e que tem resultados visíveis para toda a população. Em especial pela aprovação e efetivação de Lei Estadual de Patrimônio Histórico (Lei nº 1.294/1999) pela qual pautamos nossa atuação no Estado do Acre. Além disso, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) não possuía no Acre nenhuma representação ou estrutura que possibilitasse sua atuação em nosso território, ocasionando perdas significativas para o nosso patrimônio. Ainda assim, agimos sempre em consonância com esse órgão federal, como pode ser facilmente atestado pelas ações conjuntas que desenvolvemos (ver o exemplo da recuperação do importante sítio histórico – que é também de natureza arqueológica - feita em parceira entre a 1ª SR do IPHAN de Manaus e o Governo do Acre). Felizmente essa situação começou a mudar em 2005 com a implantação de uma Sub-regional do IPHAN no Acre como fruto de muito trabalho e gestão política dos acreanos. O que ainda não é o suficiente, uma vez que precisamos que essa sub-regional do IPHAN se transforme logo em uma Superintendência autônoma para dar efetividade e eficácia às suas ações. O que, não tenho duvida, também conseguiremos em curto espaço de tempo, porque afinal, como a Sra. também deveria saber, os acreanos são apaixonados por sua história e tudo fazem para valoriza-la e respeita-la. E para concluir esse, já demasiadamente longo, assunto preciso esclarecer ainda que todo o material recolhido (“salvo”, no jargão dos cientistas) em sítios arqueológicos durante esse período está sob a guarda do Museu da Borracha, o maior e mais antigo espaço de memória de nosso Estado. Evitamos assim que importantes artefatos, documentos e vestígios fossem parar em coleções particulares ou no fundo dos quintais e ficassem para sempre perdidos para a pesquisa científica. É uma questão de princípios Dra Denise achando. O patrimônio cultural de um povo é publico, deve ser tratado com o zelo e a probidade que isso requer e não pode ser utilizado para a mera promoção pessoal de quem quer que seja. Por isso não me arvoro em guardião do Acre, tenho consciência que o Acre não precisa de mim. Assim Dra. Deni se achando como a Sra. se permitiu me agredir publicamente me chamando de miolo mole num trocadilho infeliz com o nome desta coluna me sinto na liberdade de buscar o significado oculto em seu nome e que tão bem revela sua personalidade arrogante e prepotente de neo-colonizadora. Títulos acadêmicos atestam apenas formação científica e não, como a senhora tristemente revelou, o caráter de seus portadores. E se hoje escrevo neste simples jornal local e não para renomadas revistas científicas internacionais é porque fiz essa opção por coerência com a função pública que venho ocupando nos últimos anos. Devo chamar sua atenção, então, para um dos mais belos textos do Antonio Alves, uma das pessoas que melhor e mais claramente revela a alma acreana quando se refere a floresta e aos seus povos, dizendo logo de início: “Descalce as sandálias... você está entrando em território sagrado”. Se quiser ser feliz no Acre, que é verdadeiramente uma terra especial, Dra. Se Achando precisa então aprender que a humildade é um bem precioso por estas bandas. Quanto aos sítios arqueológicos do Acre, esses vão continuar se achando Dra. e vamos continuar a defende-los. Notas do Tempo - Esta semana exibição do novo programa da série “Um Pé de Quê?” no Canal Futura. O tema deste programa é a nossa magnífica Gameleira, marco de fundação de Rio Branco. Quem quiser assistir e se orgulhar do jeito bacana com que o Acre passou a ser visto lá fora, seguem os dias e horários em que o programa vai ao ar: dia 20/12 às 22:00 h, dia 23/12 às 16:00 h, dia 24/12 às 13:30 h e dia 30/12 às 18:30 h (horários de Brasília); - Esta semana também, dia 20, o governo do Estado entrega as obras de recuperação da Casa do Mestre Irineu Serra, no Alto Santo, parte de um trabalho feito a muitas mãos, inclusive da comunidade liderada pela Madrinha Peregrina e que por isso ainda irá render bons frutos. - Isso tudo fora a programação da Semana Chico Mendes que está a todo vapor e o lançamento no Acre da Minissérie Amazônia: de Galvez a Chico Mendes. Portanto, uma boa e movimentada semana pela frente... |
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