OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 


Acerto de contas

Parece que, por vezes, alguns acontecimentos nos espreitam com paciência, com insistência, mas com a certeza de que as questões que eles suscitam serão impostas de forma imperiosa, exigindo o nosso ajuizamento. Claro que tudo depende de uma experiência pessoal, pois enquanto, para certas pessoas, alguns acontecimentos podem ser percebidos de muitas formas sem serem confundido, para outros, esses mesmos acontecimentos não existem, ou seja, eles são absorvidos em outros complexos que têm como função não nos permitir uma visão própria da coisa. A coroação do rei do congo, por exemplo, deve ser vista como um sinal de submissão do escravo aos valores do senhor ou como uma forma de sobrevivência de valores, relações de solidariedade e dignidades que a escravidão não conseguiu a não ser ressaltar? Toda a resistência do Aphonso Henrique Lima Barreto, vulgo Lima Barreto, aos valores da época em que ele viveu era apenas, como diz o seu biografo, Francisco de Assis Barbosa, “complexo de cor”, ou seja, uma reação patológica e desnecessária a uma “inexistente” e por isso silenciosa perseguição a ele e a todos os que com ele tinham alguma semelhança? Na mesma linha, o fato de que um mulato, como Machado de Assis, pôde chegar às mais altas esferas da cultura nacional, enquanto que Lima Barreto morreu como amanuense (hoje um pouco menos do que um Office Boy), tendo o seu talento reconhecido apenas tardiamente por aquele louco e divino visionário que era Monteiro Lobato, é um simples acaso, fruto de um desequilíbrio do autor do “Triste fim de policarpo quaresma”?

Mas a nós, da filosofia, não intimida alguma explicação necessária para afastar ou pelo menos desqualificar a malícia e a maldade. Como alguém que estudou por alguns anos um autor como Kant pode se interessar pela história do samba? Um reparo se faz necessário, não se trata de perguntar pelo gosto pelo de samba, pois nisso muitos estudantes e professores universitários de filosofia são unânimes em expressar o seu gosto pelo samba. A pergunta pode ser melhor expressa se for subdividida. “Como alguém com uma formação de tão alto nível vai se ater a um objeto tão pouco elaborado como o samba?”. “Como alguém, que, pelo objeto de estudo prestigiado, podia se valer disso para ascender socialmente, joga como um saco de moedas sem valor essa chance de ouro?”. Por fim, “que vasos comunicantes há entre filosofia alemã e a historia do samba que justifiquem esse curto-circuito?”.

A minha resposta deve ser breve e clara para que possa ser entendida e não para dar a impressão de que o autor é mais inteligente do que é, por isso deixemos a linguagem parnasiana de lado, pois ela serve apenas par embasbacar os incautos. A filosofia alemã nasce de uma reação à aristocracia de nascimento; quando da queda da Bastilha, Hegel e seus colegas de seminário cantaram o hino da revolução francesa (a marselhesa), no afã de expressar o seu contentamento pelo fim do primado da força e a prevalência da razão. Fichte, quando da entrada de Napoleão em Berlim, grita, em praça pública, contra o primado da força, arriscando a sua carreira. Pelo gosto que se pode inferir da leitura de muitos filósofos alemães, se estivessem vivo e no Brasil, com certeza não estariam nem em oposição, nem longe dos morros cariocas. Mas fatos não podem responder a argumentos, da mesma forma que jogadas-de-bastidor não são sinal de grandeza.

Existe um consenso no fato de que a razão pratica tem uma posição privilegiada no sistema crítico e, mesmo que se possa nuançar essa afirmação, vamos assumi-la. Na moral kantiana, mais especificamente na obra chamada “Fundamentação da metafísica dos costumes”, Kant nos diz que o agente moral deve agir em relação a si e a qualquer ser racional como um fim em si e não como meio, mas o mais importante é que essa ação brilha com mais força quanto maior for a resistência para a sua execução. O amor à bondade dos que se felicitam com a alegria que suas ações causam, não são morais nesse sentido, pois seu amor pode arrefecer se a gratidão diminui de intensidade... Da mesma forma, aquele que age moralmente com medo das conseqüências ou com o olho nas vantagens não age moralmente de maneira própria, pois em tempos de miséria tudo isso pode mudar. O maior valor, que brilha e ofusca os olhos de quem consegue ver, deve ser atribuído justamente àquelas ações que são morais a despeito de toda a oposição objetiva, ou seja, mesmo que toda a natureza, humana, social, econômica, psicológica ordenem a imoralidade, mesmo que nenhuma vantagem possa ser tirada dessa ação moral, na medida em que ela não é prudente, toda essa pressão não tem poder sobre a razão. Na terceira crítica, o sublime dinâmico nada mais é do que isso: o incrível brilho da fortaleza moral, o reconhecimento da razão, para além da imaginação, de que existem ações e situações em que um valor e um brilho intenso podem ser divisados.

Um marinheiro negro, gaúcho resiste aos oferecimentos do presidente da república e se mantém firme na intenção de protestar contra os castigos corporais (revolta da Chibata), seu nome era João Cândido. Palmares teve a opção de viver em paz e para isso dependia apenas de abdicar de tentar libertar os seus irmãos cativos. Tanto João Candido, quanto os palmarinos agiram em desacordo com o bom senso: o primeiro poderia ter ganho muito com a amizade de um presidente; palmares poderia ter tido uma longevidade maior. Mas ambas as ações brilham apesar de sua pouca utilidade para seus autores. Isso é filosofia alemã? Certamente não! È contra a filosofia alemã? De forma alguma! Mas não era possível conceituar dessa forma clara e precisa o valor e a sedução da grandeza moral da historia dos afro-descendentes, dos amerígeo-descendentes, sem a filosofia alemã.

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 18 de março de 2007
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