OPINIÃO
   PAULO COELHO

Paulo Coelho

 

Autobiografia em cinco parágrafos

Adaptado de um texto de Portia Nelson (em “Stories for the Heart”):

1Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Eu estou distraído, pensando em mim, e caio lá dentro.Sinto-me perdido, infeliz, incapaz de pedir ajuda. Não foi minha culpa, mas de quem cavou aquele buraco ali. Eu me revolto, fico desesperado, sou uma vítima da irresponsabilidade dos outros, e passo muito tempo lá dentro.

2Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Eu finjo que não vejo, aquilo não é meu problema. Eu caio de novo lá dentro. Não posso acreditar que isto aconteceu mais uma vez, devia ter aprendido a lição, e mandado alguém fechar o buraco. Demoro muito tempo para sair dali.

3Eu caminho pela rua. Existe um buraco calçado. Eu o vejo. Eu sei que ele está ali, porque já caí duas vezes. Entretanto, sou uma pessoa acostumada a fazer sempre o mesmo trajeto. Por causa disso, caio uma terceira vez; é o hábito.

4Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Eu dou a volta em torno dele. Logo depois de passar, escuto alguém gritando – deve ter caído naquele buraco. A rua fica interditada, e eu não posso seguir adiante.

5Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Eu coloco tábuas em cima. Posso seguir meu caminho, e ninguém mais tornará a cair ali.

RUMO À FEIRA DE LIVROS DE CHICAGO

Eu estava indo de New York para Chicago, rumo a feira de livros da American Booksellers Association. De repente, um rapaz fica em pé no corredor do avião:

- Preciso de doze voluntários - disse. - Cada um vai carregar uma rosa, quando aterrissarmos.

Várias pessoas levantaram a mão. Eu também levantei, mas não fui escolhido.

Mesmo assim, resolvi acompanhar o grupo. Descemos, o rapaz apontou para uma moça no saguão do aeroporto de O’Hare. Um a um, os passageiros foram entregando suas rosas para ela. No final, o rapaz pediu-a em casamento na frente de todos - e ela aceitou.

Um comissário de bordo comentou comigo:

- Desde que trabalho aqui foi a coisa mais romântica que aconteceu neste aeroporto.

DA ESSENCIA DO PERDÃO

Um dos soldados de Napoleão cometeu um crime – a história não conta qual – e foi condenado à morte.

Na véspera do fuzilamento, a mãe do soldado foi implorar para que a vida de seu filho fosse poupada.

- Minha senhora, o que seu filho fez não merece clemência.

- Eu sei – disse a mãe. – Se merecesse, não seria verdadeiramente um perdão. Perdoar é a capacidade de ir além da vingança ou da justiça.

Ao ouvir estas palavras, Napoleão comutou a pena de morte em exílio.

O DIREITO DE ESCOLHA

O Dr. Victor Frankl, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, escreveu no seu diário:

“Aqueles que viveram nestes lugares de morte conseguem ainda se lembrar que, durante a noite, alguns dos que estavam ali iam de barraca em barraca, confortando os mais desesperados, e muitas vezes oferecendo um pedaço de pão ou de batata que havia sobrado.

“Poucos eram capazes de agir assim, mas estes poucos davam a todos a maior das lições: pode-se tirar quase tudo de um homem, menos sua liberdade de escolher - não importam em que circunstâncias - a maneira como acham que devem agir”.

 

 
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Rio Branco-AC, 18 de março de 2007
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