| COTIDIANO | |
Abrahim Farhat “Lhé” desabafa contra MPE e alguns amigos da onça Ativista foi acusado de violar direitos da sua mãe |
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A vida prega uma peça ao guerreiro Abrahin Farhat, o Lhé. Há três semanas, ele - que sempre militou pelas causas sociais e pela cidadania para todos, que foi o primeiro homem a brigar pelo direito da Mulher no Acre e costuma brincar dizendo que tem um lado feminino forte, que ajudou a criar o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, entre outras entidades - foi acusado e é inquirido pelo Ministério Público Estadual de violar os direitos de sua própria mãe, dona Elza. Ou seja, o Lhé que tanto se orgulha da luta que empreende há mais de 40 anos com admirável coerência, vê-se humilhado na condição de transgressor dos direitos humanos. E contra a mulher que considera seu grande tesouro, a quem dedica um amor evidente para todos que o conhecem. Baseado no depoimento de uma das filhas de dona Silvia Maluf Farhat, ou dona Elza (como é conhecida), o MPE abriu um procedimento administrativo no qual diz que Abrahin e seu irmão Jorge brigam causando constrangimento à mãe, impedindo-a de transitar dentro de casa. Passou então a inquirir dona Elza, que tem 86 anos e sofre do mal de Parkinson, como principal testemunha do processo que também arrola duas irmãs Farhat, uma delas toma remédio controlado há 20 anos. Na última segunda-feira de fevereiro, dia 25, a família Farhat foi convocada para prestar testemunho a duas assessoras da promotora de Justiça de Defesa da Cidadania e Saúde. Segundo Lhé, foi uma sessão de puro constrangimento: dona Elza foi submetida a uma inquirição para responder se os dois únicos filhos homens dela (tem mais cinco mulheres) brigavam e a constrangiam, causando mal a sua saúde. A mãe dos Farhat ficou indignada, passou mal e agora está com a saúde realmente comprometida. Além de passar pelo rosário de perguntas, ela presenciou a inquiridora mandar seu filho Abrahim calar a boca, quando este pediu que tivesse calma com sua mãe. Além disso, o Lhé que também é idoso foi afrontado com o Estatuto do Idoso, exibido pela assessora que dizia estar apenas cumprindo a Lei. Ferido e decepcionado, porque se viu sozinho, sem apoio dos companheiros de luta e dos movimentos que ajudou a construir no Acre, Lhé faz um desabafo sincero afirmando que ninguém o ouviu. Aos 66 anos, reconhecido pela sua alma bondosa e solidária, ele está mesmo abalado e quer “descarregar”. Por isso concedeu esta entrevista durante um almoço em sua casa, num clima amoroso, de ambiente familiar bem diferente do que sugere o processo: Desrespeito - Eu jamais imaginava que um homem que desde 1968, com o bispo dom Giocondo, procurava formar o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, fosse acusado de violar os direitos humanos. Eu estou sendo acusado de violar os direitos da minha mãe dentro de casa. Naquele ano, quando o Ministério Público - que agora me inquire - estava dormindo, a gente já lutava para dar cidadania e respeito aos velhinhos e às mulheres. Mas esse Ministério não fazia nada, pelo contrário. Era um ministério que servia à ditadura militar (1964-1985) para nos processar. A gente, sabendo da importância da instituição, pressionava para que ela se transformasse num ministério de justiça, de direitos. Nós queríamos naquele tempo formar centros de defesa para defender as mulheres que apanhavam dos ricos e dos pobres, para defender os velhinhos maltratados, os pacientes mentais, os nossos irmãos aleijados que eram acorrentados. A idéia de que eu esteja agindo contra os direitos humanos, sobretudo contra minha mãe, me machuca muito. Não me constrange ir à justiça prestar esclarecimentos. Eu quero esclarecer e responder o que for necessário. O que me preocupa é a forma como trataram e continuam tratando minha mãe. Como sou um homem de direitos humanos, claro que minha mãe é um espelho. Ela foi desrespeitada - e eu também - quando foi inquirida no inquérito que me acusava de brigar com meu irmão Jorge, o que é absurdo, porque nunca briguei com ele. No dia da audiência uma senhora e uma jovem do MPE inquiriram minha mãe perguntando assim: - Dona Elza, é verdade que seus filhos Abrahin e Jorge brigam causando constrangimento à senhora? Eu até ri, considerando aquilo infantilidade: como se briga em família não fosse coisa normal! Não estava esperando perguntas sem fundamento. E fiquei mais surpreso com a reação da minha mãe, que foi logo contestando: - Quem disse isso? Eu não disse isso. Ela começou a bater na mesa, trêmula, e insistiu falando: - Quem disse isso? Eu não disse isso. Minha mãe tem 86 anos e sofre do mal de Parkinson. Eu então pedi à senhora que estava inquirindo - porque a promotora Gilcely Evangelista estava de férias ou licença - para ter cuidado com ela. Pedi quase implorando: - Por favor, a mamãe está nervosa! Ela (a senhora) disse para eu me calar. Quer dizer, a inquiridora deu uma ordem para mim, de 66 anos. Ao invés de pedir “por favor” ela disse: “Se cale”. Eu até pedi desculpa! Não satisfeita com o que a mamãe falou, ela perguntou de novo, e a mamãe repetiu a mesma frase e começou a ficar muito nervosa, batendo sempre na mesa. Minha mãe tem vários problemas. É uma senhora que não anda mais sozinha. Quem quiser ver, venha! Minha mãe não sai mais para rua sozinha; não sobe escada sozinha. Por isso considero uma maldade tão grande do Ministério Público. Eu considero isso um crime hediondo, porque eles estão vendo o estado de minha mãe que não tem mais condição psicológica, física, de andar nesses locais. Quando essa mulher a entrevistou pela segunda vez, ela começou a tremer mais ainda e eu pedi de novo: - Senhora, cuidado, a mamãe não está passando bem! Ai ela se voltou com autoritarismo e falta de respeito comigo: “O senhor cale a boca”! - gritou. Em seguida pegou um Estatuto do Idoso, estatuto este que ajudei mandar para o Ministério Público, e completou arrogante: - Eu tô seguindo o estatuto do idoso. Ou seja: ela constrangeu minha mãe e a mim, que também sou idoso; ela não precisava botar na minha cara o estatuto. Não sei nem por onde ela andava quando a gente estava lutando pelo Estatuto do Idoso. Eu não a estava desrespeitando, mas apenas pedindo para ter carinho com minha mãe que não sei como não teve um derrame. Eles são despreparados, não têm médico. E se ocorresse um problema com minha mãe? Depois essa senhora saiu dizendo que iria chamar o promotor. Pensei logo que seria preso. Foi um constrangimento total. Descrença Eu não acredito mais no Ministério Público. Eu considero isso um crime hediondo, porque eles estão vendo o estado da minha mãe que não tem mais condição, psicológica, física, de andar nesses locais. Minha mãe tem vários problemas. É uma senhora que não anda mais sozinha. Quem quiser ver, venha! Minha mãe não sai mais para a rua sozinha; não sobe escada sozinha. Por isso considero uma maldade tão grande do Ministério Público. O problema maior depois disso foi que minha mãe piorou, ficou muito nervosa, chegando até a se urinar; aumentando o mal de Parkinson. Está tomando remédio pesado, sem necessidade. Ela ficou constrangida, porque aquilo é uma sala de tortura. Eu fiquei assombrado. Eu tenho 66 anos! E aquela senhora colocar na minha cara o livro do Estatuto... Não precisava aquilo. Eu estava apenas implorando para ela respeitar a minha mãe, que estava tremendo, se desmanchando toda. Decepção -Eu levei o caso ao secretário de Direitos Humanos e contei o que estou contando agora. Liguei duas vezes depois para ele, que não retornou. Agora não tenho mais nada para falar com ele. Eu só queria que ele apurasse. Agora vou levar o caso ao Ministério dos Direitos Humanos, levar ao ministro Paulo Vannuchi, para o Presidente Lula. Quando eu vi que o secretário de direitos humanos não deu jeito, eu subi para o Ministério Público para falar com a procuradora Mubarac. Ela me ouviu, mas em vez de lavrar um processo e mandar me chamar... Até hoje não houve uma manifestação sobre minha denúncia. Então vou denunciar ao jornal, agora, porque eles não tomaram ação. Antes disso já tinha dito ao procurador Bira que minha mãe não tinha condições de agüentar uma sessão dessas. Eu fui falar a ele esperando que tivesse um entendimento da parte dele, do que é uma mulher de 86 anos. Vi que eles não entendem nada disso. Não têm preparo! Fui pedir ajuda para uma amiga de luta e ela me mandou procurar um advogado particular. Eu pensei: Ou sou eu que não estou entendendo nada ou o mundo enlouqueceu. Levei ao Comitê Chico Mendes e também não levantaram uma palha. Será que pensam que isso é brincadeira? Rapaz, a nossa luta de direitos humanos se baseia na solidariedade e eu não tive isso. Primeiro eles teriam que mandar apurar. Eu só queria nessa hora apoio, que viessem ver o estado de minha mãe, para reanimá-la. Teve um secretário com o qual me desentendi, porque não aceitei seu desrespeito em dizer para mim que o Ministério Público podia pensar que eu não queria que minha mãe falasse, e até pensar que eu a mantinha em cárcere privado. Ao invés dele me defender, porque sabe quem sou... Isso é inacreditável partindo de quem se diz companheiro meu. Ainda bem que eu tenho uma resistência, mas claro que essas coisas me machucam. Estou decepcionado porque nem a minha mãe eles foram visitar, sendo amigos. E vêm me propor proposta indecente, para eu tirar o processo. Eu não quero tirar o processo. Quero que seja apurado. Quero que o procurador aceite minha denúncia. E vou denunciar o Ministério Público por omissão e violação dos direitos humanos. Não tenho proteção nenhuma neste Estado. Mas minha mãe eu tenho de proteger. Se minha mãe vivesse um ano, depois daquela sessão, acredito que não viveria nem meio, porque o constrangimento foi tão grande! Minha mãe para mim é um tesouro. É a última de uma família de 1890. Eu estou machucado pelo sofrimento que minha mãe está passando, pelo desrespeito. Até porque sou do PT e sou governo. Abuso continuado -Na sexta-feira, 14, eles vieram aqui para fazer fotografia da minha mãe e conversar com ela. Engraçado foi que, nesse exato momento, eu estava com outros membros do Ministério Público dentro da mata, tentando salvar os macacos bigodeiros. A moça que trabalha conosco na loja me telefonou avisando que os agentes se encontravam lá, eu pedi pra falar com eles, mas eles recusaram. O que é isso? Eu sou dono da casa, eu moro na casa. Como vou deixar uma pessoa entrar na minha casa só porque tem um crachá do Ministério Público? Então, orientei nossa auxiliar para só deixá-los entrar com ordem judicial. E eles foram embora. Eles vieram procurar na minha casa o que nunca houve. Aqui sempre abrigou oprimidos: exilados políticos do Chile, da Argentina e Uruguai, Chico Mendes, Lula e Marina, todo esse movimento popular. Aqui sempre foi uma casa acolhedora; e mamãe e papai não eram esquerdistas. Briga tem, mas como tem na sua casa, na casa do procurador. Aqui nós protegemos nossa mãe. Minha irmã, que é uma pessoa fantástica, bondosa, não soube resolver um problema familiar e o transformou num problema policial, acabou sobrando pra mim. Mas foi bom, porque eu vi que o Ministério Público não está preparado para ouvir problemas familiares. Eu não desejo o que minha mãe passou para a mãe de ninguém. Eu considero o que eles fizeram com minha mãe algo muito perigoso. Cadê o Comitê Chico Mendes? Cadê o Centro de Defesa dos Direitos Humanos? Estou saindo dessas entidades das quais sou membro e ajudei criar, porque não tenho condições de ficar em órgãos que quando eu peço socorro eles ignoram. Eles têm obrigação de pesquisar se estou falando a verdade ou não, e me atender. Quero que se apure tudo. Vou provar que eu e meu irmão não brigamos. Eu nunca briguei com meu irmão. Quem mais lutou pelos direitos da mulher aqui, e pelos idosos? Eu falei que o Ministério Público deveria era me dar um prêmio. Agora quero que se apure tudo isso, porque senão vão fazer o mesmo contra outras pessoas. |
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