OPINIÃO
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Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa  

 

Eu pecador me confesso...

O bispo Gianfranco Girotti, regente do Tribunal da Penitenciaria Apostólica, deu uma entrevista que correu o mundo e gerou alguns mal entendidos. O nome do Ofício que dirige já causa muitas dúvidas. Se o chamarmos pelo seu outro nome, tudo fica mais claro: Tribunal Apostólico de Confissões e Penitências.

Na Igreja Católica Apostólica Romana, são sete os sacramentos definidos pelo Concílio de Trento (1545/1563): batismo, crisma, Eucaristia, confissão, a unção dos doentes, ordenação e matrimônio.

Muitos católicos, hoje em dia, se afastaram da confissão, alegando que não é necessária a presença de um padre para falarem com Deus, ou que não se sentem à vontade para falar de seus problemas com um estranho. Também há um crescente descrédito quanto ao que é pecado ou não; quase sempre a Igreja e seu rebanho, atualmente, pensam de modo diferente...

Para isso muito tem contribuído o crescente número de escândalos envolvendo padres e também a rigidez da Igreja em muitas questões: divórcio, aborto, homossexualismo, celibato, e por aí vai.

Mas o fato é que a diminuição crescente de católicos nos confessionários preocupa a Igreja e o Papa Bento XVI vem pregando por uma volta à obediência aos Sete Sacramentos.

Foi visando essa orientação do Santo Padre que o Bispo Giordano Girotti deu uma longa entrevista ao Osservatore Romano, jornal do Vaticano, domingo 9 de março. Nela, frisa a importância da confissão e lembra que faltar a esse sacramento continua a ser condenado pela Igreja. Não esquece de mencionar os pecados de sempre; enfatiza a necessidade da Eucaristia; e o comparecimento à missa.

Mas o que chamou a atenção da imprensa internacional foi seu discurso sobre os pecados de nossos dias. Vários jornais europeus, e depois do resto do mundo, disseram que o Vaticano “atualizou” a lista de pecados. Claro que uma notícia dessas chamou logo a atenção de católicos e não católicos.

Na verdade, não é uma lista de novos pecados. É uma lista do que poderia ser considerado como “novos pecados”. O Osservatore Romano já corrigiu a impressão errônea: Sua Eminência apenas discorre sobre o que também poderia ser considerado pecado hoje em dia. São eles: o desrespeito à Terra; a manipulação genética; o tráfico e o uso de drogas; a injustiça social; o enriquecimento exagerado.

Para que fossem considerados pecados seria necessário que houvesse um novo Concílio, com longos e complicadíssimos debates, e só depois de muito tempo, uma bula papal chancelaria essa nova lista. Como não sou nem padre, que dirá cardeal, é assim que imagino que uma lista de pecados novos chegaria até nós. Mas de uma coisa estou certa: não nos seriam comunicados pelo jornal, mesmo esse sendo o jornal oficial do Vaticano.

Voltando aos “novos pecados”: se formos pensar bem em cada um deles, o que veremos é que eles se coadunam perfeitamente com o que sempre foi considerado pecado pela Igreja. A Terra nos foi dada por Deus, é a Mãe Natureza, cuidar dela é cuidar da Vida, que é sagrada; a manipulação genética também envolve o dom da Vida; o tráfico e o uso de drogas transformam o homem em animal embrutecido e devemos nos respeitar por sermos filhos de Deus; a injustiça social afronta o mandamento “amar aos outros como a ti mesmo”; o enriquecimento exagerado é idolatria ao bezerro de ouro.

Portanto, nada de novo sob o sol... Novo seria a Igreja Católica acordar para a necessidade de abençoar o progresso científico na área da pesquisa genética, zelando para que a Ética fosse a pedra de toque. Confio em que Deus vá aprovar plenamente a possibilidade da descoberta da cura para males como Alzheimer, Parkinson e tantos outros; que abençoará o cientista que puder dizer aos Lázaros modernos, Levanta e Anda! Não posso sequer imaginar um Deus que não usasse sua infinita bondade para aprovar o árduo trabalho desses cientistas.

 
 
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Rio Branco-AC, 18 de março de 2008
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