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Elson Martins * |
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Gostar e saber morar Perto de completar 62 anos (19 de junho) e com um disco novo em lançamento, o compositor, escritor e poeta Francisco Buarque de Holanda concedeu esta semana à revista TRIP uma entrevista que vale a pena ler. É inteligente a forma como que fala de si mesmo e dos problemas políticos e sociais do País. Desde seu surgimento no cenário musical brasileiro nos anos 60, Chico se mantém extraordinário no que pensa, compõe, escreve, produz e diz. Nessa última entrevista, chamou minha atenção foi a resposta que ele deu à revista, quando esta perguntou de qual cidade ele mais gosta! Embora seja paulista de nascimento e possua apartamento em Paris, Chico escolheu o Rio de Janeiro. E emendou: - Cidade não é só gostar, tem de saber morar. Na seqüência o compositor disse que São Paulo era uma cidade amável nos anos 50, mas hoje é impossível se gostar dela. Ele estava se referindo a arquitetura, urbanismo...em que SP seria uma cidade que não deu certo. Na noite de terça-feira eu caminhava pela avenida Getúlio Vargas, do Teatro Hélio Melo à minha residência nas proximidades do Clube Juventus, quando as palavras do compositor pareciam aplicáveis a Rio Branco. Fiquei imaginando quantas pessoas que dizem gostar desta cidade sabem morar nela, de verdade! A indagação já sugeria uma resposta indignada, pois eu caminhava com dificuldade entre veículos que ocupam as calçadas dos pedestres. Em alguns trechos da principal rua da capital, as pessoas são forçadas a andar no meio da rua se desviando do trânsito que em algumas horas é intenso. Além dos carros tomando a calçada, boa parte dos comerciantes adota a atitude desrespeitosa e ilegal de estender correntes isolando o espaço que julga seu. A situação está se generalizando nas ruas e avenidas mais movimentadas da cidade. Donos de lojas, hotéis, farmácias e restaurantes, entre outros estabelecimentos, invertem a função do passeio público. Para eles, os carros importam mais que os cidadãos, ainda que estes sejam seus clientes. Muitos colocam um aviso desafiando as autoridade do setor: “Privativo”! O que mais me entristece é ver que entre esses expropriadores do espaço público estão conhecidos empresários e profissionais liberais, que até sustentam conversas sobre cidadania e opinam sobre o que as autoridades deveriam fazer para melhorar a vida em Rio Branco. Parece que não se dão conta do quanto contribuem para dificultar essa tarefa, até porque pertencem a uma classe que amedronta os dirigentes quando estes precisam questionar seus interesses mesquinhos. O exemplo das calçadas não é único. A sociedade acreana, cuja amabilidade historicamente é tida como traço cultural, vem perdendo sua delicadeza. Os motoristas não obedecem aos sinais do trânsito, os restaurantes não mantêm a qualidade dos alimentos que vendem, os supermercados, sobretudo, acham que é responsabilidade dos consumidores escolher os frutos sadios numa gôndola cheia de frutos apodrecidos. Ainda sobre os supermercados, mesmo os que anunciam na mídia a vantagem e o orgulho de serem acreanos, se traem nesse detalhe: uns vendem pamonha goiana com queijo dentro (arrghh!); outros ignoram a existência de produtos regionais que interessam aos consumidores e ajudariam a desenvolver uma economia local de qualidade. Até na música ambiente a contradição entre a identidade acreana que os proprietários dizem ter e seu gosto, é visível. Tenho ouvido toda vez que entro num desses estabelecimentos, sempre o mesmo cantor: um desgarrado das duplas sertanejas do interior de São Paulo. O pior é que os CDs possuem vida longa. Portanto, a tecnologia também trama contra a cultura da floresta. Voltando à entrevista do Chico Buarque: não dá para o governo e a prefeitura fazerem um pacto com essa gente para que todos aprendam a morar nesta cidade? Quem sabe a Companhia de Selva, dona absoluta do marketing oficial, poderia descobrir que isso é importante para nós que vivemos aqui! * Jornalista |
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