Carta aos militantes
Marilza Foucher *
Ao abrir minha caixa eletrônica para verificar meus e-mails, vários deles tratavam da notícia de demissão de minha companheira e conterrânea Marina Silva. Esta noticia não me surpreendeu, o que me surpreende é a predominância de uma corrente desenvolvimentista que não consegue tirar lição do passado. O que me surpreende é certa passividade dos movimentos sociais, ongs de desenvolvimentos, intelectuais cientistas e outros atores sociais engajados há anos em prol de um outro desenvolvimento para o Brasil. Estes estão conscientes que o controle social se integra ao exercício da cidadania ativa. Por que então o élan que mobilizou esses atores de norte ao sul do país baixou a bandeira de reivindicações, quando o companheiro Lula e os partidos de esquerda e de centro chegam ao poder? Cadê a capacidade de se indignar diante de certos erros cometidos pelo governo Lula?
A critica construtiva é fundamental para avançar o processo democrático e cobrar a coerência da política governamental. Isto não quer dizer fazer oposição frontal ao governo! Isto não quer dizer fazer o jogo da direita como dizem alguns membros do PT. Devemos entender a complexidade do exercício do poder e não é tarefa fácil para o governo enfrentar os setores conservadores que açambarcam o setor do agro-busines e o poder econômico brasileiro. Mais uma razão para a sociedade civil organizada de ser agente de transformação com lucidez e coragem. Quanto mais a sociedade civil se organiza e cobra resultados dos projetos governamentais, mais o poder político progressista representado no congresso nacional será obrigado a votar as verdadeiras reformas.
As reformas não reformam quando os atores do desenvolvimento não estão preparados para o exercício da cidadania. O próprio Presidente Luis Inácio da Silva Lula, ex. liderança sindical, certamente reconhece a importância da vitalidade de uma sociedade civil organizada para o sucesso de seu governo. Por que se calar, então, diante da visão desenvolvimentista que predomina no governo?
Essa concepção dos sucessivos governos contribuiu para um desenvolvimento desigual entre as regiões brasileiras, favoreceu a monocultura, extraiu do solo muitas riquezas dentro de uma visão de curto prazo, sem se preocupar com o equilíbrio dos ecossistemas e de sua biodiversidade. Favoreceu, sem duvida, o crescimento econômico, que não quer dizer desenvolvimento de um país. Milhares de brasileiros não foram beneficiados com o crescimento econômico, foi o fracasso dessa política que levou o Presidente Lula a criar vários programas de luta contra a fome e pela inclusão social.
Torna-se, portanto, difícil entender porque o Governo insiste no economicismo. O verdadeiro desenvolvimento leva em conta o patrimônio ecológico e cultural existente em cada região brasileira que forma o patrimônio nacional. O crescimento econômico não pode ser dissociado da questão social, das questões de ordem política, jurídica, administrativa, nem tão pouco da questão do meio ambiente. Tudo se interage e forma um todo e é essa inter-relação que dá sustentabilidade à concepção sistêmica do desenvolvimento.
O desenvolvimento integra e não desintegra! O centro de interesse de uma ação de desenvolvimento gira em função da dimensão humana. Quando se atua com uma visão sistêmica não se separa o ecológico do político, do cultural, do social e do econômico. A economia está a serviço do gênero humano que protege a biodiversidade e a sociodiversidade. Os ecossistemas fazem parte integrante da nossa existência. Por essa razão não devemos sacrificar as gerações futuras. Entre a retórica do discurso político do PT e do governo Lula e a pratica da ação política deve haver coerência.
Chegou a hora de sair da passividade. O governo Lula altamente legitimado pelo voto dos atores sociais comprometidos com o desenvolvimento integrado e solidário deve dar todas as condições necessárias para a sustentabilidade ecológica, cultural, social, econômica e política, garantindo um desenvolvimento territorial integrado e solidário para o Brasil. Ainda é tempo de sair da visão fragmentada do desenvolvimento.
* Nascida em Boca do Acre (AM), vive em Paris. É doutora em economia pela Sorbonne (Paris) e consultora internacional especializada em desenvolvimento territorial integrado e sustentável
| CORREIO |
Ética do presente e do futuro
Todos sabem que as lutas socioambientais de Marina Silva estão inscritas em sua história e na história. Todos também conhecem o seu brilhantismo intelectual, já evidenciado quando assistia às minhas aulas de Sociologia e Antropologia na Universidade Federal do Acre, cursando História.
Impressionava-me à época, nos anos de 1980, a capacidade de sua elaboração teórica e de colocação de questões relevantes do ponto de vista do conhecimento e do ponto de vista político. Entre nós havia uma troca de iguais, assim como tem sido até hoje quando também aprendo com Marina a partir de seu pensamento sempre fértil e original e de suas ações criativas e destemidas. Mas é necessário ressaltar, ainda, que em uma época em que a política é rebaixada em sua importância histórica para a construção do novo, banalizada no espetáculo mediático da modernidade, Marina ainda demonstra ter uma visão ampla do significado de saber e fazer política, mesmo sem poder fazê-lo nos termos que ainda são postos retrogadamente na política brasileira marcada pelo servilismo, favoritismo, bajulações – pelo neo-populismo, neo-coronelismo, neo-colonialismo.
(parte do texto de Lúcia Helena de Oliveira Cunha, antropóloga e dra. em Meio Ambiente e Desenvolvimento, publicado no blog: www.maryallegretti.blogspot.com)
Na língua Kaxinawá (Hãtxa Kuin)
A socióloga Geovânia Barros, professora da UFAC e aluna do curso de língua Hãtxa Kuin (Kaxinawá) encerrado quinta-feira na Biblioteca da Floresta, falou em nome da turma fazendo agradecimento ao professor indígena Joaquim Maná, na língua dele:
Nuku Yusina Mana- HuniKui
Na Hatibuã Nu Una Hatxakui- Uixiã E Matu Benimaki.
Nuku Yusina Mana Hunikui.
Hawe Beiya Hawe Hãtxa kui Nuku
Tapimaki nuku-Yuiki nuku Tapimaki Hariri Haunabuiya Hiwemisrã.
Ea Matu Yuiki Xinã ki Hatu Beyakiri Hiwemisbu Haunabuiya. Matu Yuiki Matu Akai Nikakawe Nu Benimamiski Ena Buyarã-E Katxanawairã Nixpupimakirã Txiri Miski Nãne Kenei Mashe iki Nuku Beyara Hãduake. NuKu Nawara-Matu Hatxara Haduaki Tapiarã Ikuana.
Hania Yusinã Mana
Petxakamaki Haskabestiki
HausHaus HãHãRã Siri Siri
Tradução:
Caro professor Maná:
Em nome de todos os alunos (22), quero agradecer pela realização deste curso da língua “Hãtxa Kui”, a você e todos os demais que de algum modo o possibilitaram.
Juntamente com a gramática, com a grafia, aprendemos muito sobre a cultura desse povo que, sabiamente, se autodenominam “Huni Kuin”, que em português significa “povo verdadeiro”.
Na minha interpretação, eles se referem a si mesmos como “pessoas reais”, o que se deve ao seu modo de viver. Vivem em comunhão com a natureza, vivem de acordo com seus valores, vivem com uma alegria genuína que provém de suas próprias crenças. E principalmente vivem com simplicidade, demosntrando a riqueza e abundância da sua vida na língua, na religião, na arte, enfim na sua cultura.
O que mais me impressionou na “Hãtxa Kui” foram as diferenças gramaticais com a nossa língua, principalmente, nas questões de tempo e sentimento. São muitas as questões complexas que poderíamos indicar, mas ficará para outro momento.
Muito Obrigada! |
|