OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Ayahuasca (III)


Continuando a série de artigos sobre a história acreana da Ayahuasca publicaremos esta semana a primeira parte do artigo escrito em 2005 a pedido da Casa de Memória do Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus – Fonte de Luz, fundada por Daniel Pereira de Mattos, um dos pioneiros que junto com o Mestre Irineu recriaram a milenar tradição indígena da Ayahuasca para a nossa própria sociedade.



Eu vi o Acre nascer (I)*

Corria o ano de 1905 e o navio da marinha brasileira em que Daniel estava embarcado veio ao Acre para deixar mais tropas numa região que havia acabado de sair de uma longa e sangrenta Revolução. Daniel Mattos tinha então apenas 19 anos.

Uma guerra vitoriosa sobre bolivianos e capitalistas do Bolivian Syndicate, é verdade, mas cujo resultado era, já neste momento, duvidoso. Afinal de contas, se o Tratado de Petrópolis conseguira anexar oficialmente o Acre ao Brasil e consolidara a vitória dos brasileiros, por outro lado, a criação do Território Federal do Acre contrariava frontalmente os anseios de prosperidade econômica e autonomia política dos acreanos. E por isso havia ainda certo clima de revolta no ar.

Mas depois de semanas de uma viagem extremamente cansativa, em que a monotonia da floresta densa e impenetrável e as sucessivas curvas dos rios dificultavam e encompridavam infinitamente a navegação, Daniel deve ter ficado feliz ao chegar à pequena Villa Rio Branco. Um povoado muito simples com pouco mais de 20 casas, a grande maioria de paxíuba, distribuídas ao longo da margem direita do rio.

Devia ser difícil de imaginar então como um lugar desses, perdido a muitos e muitos dias de viagem, em meio a mais impenetrável das florestas, pudesse ter motivado tão intestinas lutas, como aquelas em que se debateram brasileiros e bolivianos pela posse do rio Acre, enquanto ainda provocava combates entre brasileiros e peruanos no Purus e no Juruá. Isto seria devido só à imensa riqueza das seringueiras abundantes destas matas e que tinham peso de ouro no mercado internacional? Seria a força de um lugar novo, só muito recentemente civilizado e por isso mesmo capaz de proporcionar uma nova vida para a enorme gama de excluídos da republica brasileira e de aventureiros de todo o mundo que por aqui chegavam? Ou, ainda, algo que ultrapassa completamente nossas possibilidades de compreensão a partir dos poucos vestígios conhecidos acerca do Acre no principio do século XX?

Não podemos mais saber exatamente o que Daniel, aquele jovem marinheiro negro, pensou nesta sua breve estada em Rio Branco. Mas parece certo supor que alguma coisa aconteceu dentro dele. O que viu, o que quer que tenha sido, aqui no Acre, deve ter causado uma impressão muito forte em Daniel. A ponto de mudar toda sua vida daí por diante. Menos de dois anos depois, já em 1907 - depois de duas outras vindas ao Acre e uma inesquecível viagem até Jerusalém e alguns dos principais portos da Europa - Daniel deu baixa na marinha brasileira e decidiu que o seu lugar era o Acre.
Veio, então, para Rio Branco, aquela pequenina Villa, meio rio, meio cidade. Um povoado que todo ano era invadido pelas águas barrentas do rio Acre por ocasião das abundantes chuvas amazônicas que, de novembro a abril pelo menos, transformava suas ruas uma extensão do rio. Uma cidade anfíbia, uma cidade-rio, um porto comercial que só existia em razão dos vapores e embarcações que percorriam o rio Acre e se constituíam no único meio de contato com o longínquo mundo exterior. Que lugar poderia ser mais adequado para um jovem marinheiro?

Talvez esse contato íntimo entre o rio Acre e a Villa Rio Branco – essa indefinição do que era rio, cidade ou floresta – não tenha sido de todo determinante da decisão de Daniel. Talvez tenham sido mais decisivas as novas possibilidades que ele vislumbrou para sua vida na infinita aventura acreana.

Nos idos de 1907, muitos eram os que vinham “fazer a Amazônia” pelos mais variados motivos. Aqui no Acre se reuniam ingleses gananciosos por descobrir insuspeitas formas de ganhar dinheiro, espanhóis e portugueses com sua longa tradição comercial, sertanejos sobreviventes do massacre perpetrado pelo governo brasileiro em Canudos, cearenses retirantes do sertão seco e esturricado, gaúchos remanescentes da Revolução Federalista ou de outras desconhecidas causas, sírios e libaneses sem opções de vida nos desertos do Oriente Médio sob o inaceitável domínio turco, manauenses e paraenses sequiosos de expandir seus domínios e fortunas de borracha, bolivianos e peruanos que - apesar da guerra territorial travada contra os brasileiros – aqui encontravam melhores oportunidades de lucro ou de futuro, enfim, uma longa e interminável relação de origens e tipos humanos que tornava estas florestas um pequeno e isolado resumo do mundo.

E Daniel não deve ter sentido nenhuma dificuldade no “Eldorado” amazônico. Até porque, apesar de muito jovem e negro, o que era um complicador e tanto naquela época, tinha habilidades preciosas para o Acre de então. Se não bastasse Daniel saber ler e escrever, o que era um conhecimento muito valorizado em todos os seringais da região, ainda possuía - graças a sua experiência na marinha - um sem numero de ocupações como: marceneiro, sapateiro, cozinheiro, alfaiate, carpinteiro, artesão, padeiro, construtor naval, barbeiro, lutier, musico e poeta.

Não deve, portanto, ter faltado trabalho ao jovem Daniel. O que não necessariamente significava vida fácil. É o próprio Daniel quem nos revela através de um de seus raros escritos que “Eu trabalhei pessoalmente com Cel. Plácido de Castro e com Cel. Daniel Ferreira, com José Ferreira, muito lutei em viagens perigosas com o Cel Alexandrino – e por ultimo trabalhei com José Galdino...”.

Ou seja, em seus primeiros anos de Acre o jovem Daniel trabalhou - ou lutou, como se dizia na época – com os principais seringalistas e líderes políticos da região. Todos reconhecidamente “coronéis” valentes, donos de terras e gentes, que julgavam e puniam de acordo com suas consciências.

Não cabem aqui referencias a violência de José Galdino no Xapury, ou ao perigo constante representado por homens do tipo de Alexandrino José da Silva (um dos acusados do assassinato de Plácido de Castro, em 1908), mas é importante ressaltar que, naqueles idos em que imperava a “Lei 44”, em referencia ao calibre do papo-amarelo, o cotidiano era realmente muito duro para todos os que haviam escolhido o Acre para viver.

Ainda assim Daniel permaneceu no Acre. Apesar de todas as dificuldades inerentes a vida na floresta e ao isolamento. Apesar da “nova” sociedade acreana que ainda estava em formação, mas nem era tão nova assim na medida em separava os ricos que moravam na rua Abunã (atual Eduardo Assmar) e os negros pobres que moravam na rua da África (atual 1º de maio). Apesar da tão anunciada crise da borracha que afinal chegou com tremenda força em 1913, quando a produção das seringueiras de cultivo asiáticas provocou a derrocada dos preços internacionais da borracha.

Por quais ruas andou Daniel nesses primeiros anos da grave e alarmante crise acreana. Quais suas paixões, seus hábitos, sua imagem perante os outros moradores de Rio Branco. Quais seus sonhos, esperanças e desalentos. Talvez não saibamos nunca. Não devemos nem mesmo especular sobre a posição política de Daniel em relação à causa autonomista que separava os poderosos do Acre. Qualquer tentativa de resposta poderia ser perigosa e/ou tendenciosa. (Conclui semana que vem...)

*Artigo publicado originalmente no Álbum “Mestre Daniel – História com a Ayahuasca” do Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus – Fonte de Luz, Rio Branco, Fundação Garibaldi Brasil, 2005.

 

 
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Rio Branco-AC, 18 de maio de 2008
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