ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino e Marcelo Piedrafita Iglesias

Entrevista com o sertanista Meirelles (parte III)


Na terceira parte da entrevista, o sertanista narra as suas primeiras viagens ao chegar ao Acre, em 1976, os trabalhos como chefe do Posto Indígena Mamoadate e os resultados da ação indigenista nos dez anos em que viveu entre os Manchineri e Jaminawa no alto rio Iaco.

Meirelles também fala do movimento das cooperativas indígenas, que a Comissão Pró-Índio do Acre ajudou a implantar na maioria das terras indígenas no estado. A contribuição que esse movimento deu à formação de lideranças indígenas e às mobilizações políticas pela conquista efetiva de suas terras. Comenta ainda a respeito dos preconceitos impostos aos índios no tempo do cativeiro dos patrões de seringais.

Por falta de espaço, vou escrever pouco. Aliás, o papo do Meirelles não carece de apresentação. Fala por si próprio. Acho que as reflexões do sertanista na Biblioteca da Floresta Marina Silva, mais do que uma história de vida (e quê vida!), resgatam o histórico do indigenismo acreano, a partir de meados da década de 70.

Vamos dar continuidade às conversas do nosso valoroso sertanista do Bariya, “rio de muito sol”, como o Envira é chamado em hãtxa kuin, a “língua verdadeira” do povo Huni Kuin, ou Kaxinawá. E dizer que o papo de hoje é uma excelente lição do início do novo tempo histórico dos direitos indígenas e, consequentemente, da história acreana contemporânea. Novamente com a palavra o “velho do rio”. Diz aí Meirelles! (Txai Terri Aquino)

Novo tempo dos direitos indígenas

Txai: Por que você deixou a Frente de Atração Awa Guajá, no Maranhão, para vir trabalhar como indigenista no Acre?

Meirelles: Em 1976, recebi um telefonema do José Porfírio Carvalho me convidando para vir trabalhar como indigenista aqui no estado. Naquela época, o Carvalho estava implantando uma Ajudância da Funai no Acre, a AJACRE, e precisava de chefe de posto para trabalhar com os índios daqui. Com aquele seu jeitão convincente, o Carvalho praticamente me intimou a vir pra cá. Cheguei a Rio Branco no final de julho de 1976. Lembro que minha primeira viagem foi para área Kaxarari. Antes de ir para o alto rio Iaco, o Carvalho me pediu que visitasse os Kaxarari ali nas proximidades da atual Extrema, no trecho da BR-364 entre o rio Acre e o rio Abunã. Ele tinha uma rural azul velha, uma fulustreca. Saímos pela estrada e lá perto de onde é a atual Extrema, naquele tempo não tinha ainda a Extrema como ela é hoje, só algumas casinhas. Pois bem, encontramos um cara na beira da estrada. Aí o Carvalho espiou bem pra ele e me disse: “Aquele cara tem jeito de índio. Aquele cara ali é índio”.

Elson: Quando tu chegaste a Rio Branco, a AJACRE funcionava no Aeroporto Velho, ou já era ali nas proximidades da TV Aldeia?

Meirelles: Acho que era atrás da TV Aldeia. O fato foi que a primeira viagem que fiz aqui no Acre foi para a área Kaxarari, que já fica em Rondônia, na fronteira com o Acre. Pois bem, encontramos esse índio e paramos para conversar com ele: “Mestre, você é índio?”, o Carvalho perguntou pra ele. O rapaz timidamente respondeu: “Não, senhor, por aqui sou caboclo”. Aí o Carvalho falou: “Rapaz, você não negue que seja índio não, porque nós somos da Funai e você está aqui entre amigos”. O rapaz ficou abismado.

Acho que era a primeira vez que ele estava vendo a cara da Funai. Depois de muita conversa disse que era Kaxarari. “Cadê o resto dos teus parentes?”
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perguntou novamente o Carvalho. Ele respondeu que seus parentes moravam lá na beira do rio Azul. Então, o Carvalho me deixou na BR-364, nas proximidades da Extrema e aquele índio me levou por um varadouro dentro da mata até a aldeia do Caibú, no rio Azul. Lembro-me bem disso, porque peguei uma friagem do cão. Não sabia que por aqui, no verão, tinha esse fenômeno da friagem. E eu andava só com uma redezinha e um lençolzinho.

Passei baixo nos três dias de friagem daquela de rachar o couro. Senti muito frio ali na beira do Azul. Nem em São Paulo tinha sentido um frio daquele. Quem disse que dormia! Passei as noites na beira de uma fogueira, esquentando o frio.

Txai: O que você foi fazer na área Kaxarari?

Meirelles: Fui lá só para saber quantos índios moravam na beira do Azul. Como eles estavam vivendo por lá. E dizer para eles que o Carvalho estava implantando a AJACRE aqui na capital Rio Branco, com área de jurisdição em todo o estado, no sul do Amazonas e no noroeste de Rondônia, onde justamente viviam os Kaxarari. Naquele tempo quase não havia informações sobre os índios dessa imensa região amazônica. Depois que retornei à Rio Branco, escrevi um pequeno relatório dizendo quantos eram os índios e descrevendo a situação socioeconômica e cultural dos Kaxarari e de suas aldeias. Pois bem, a gente saiu da estrada, entramos num varadouro e adentramos na mata. Passamos primeiro no rio Vermelho, onde algumas famílias Kaxarari viviam cortando seringa numa colocação. Depois passamos na Barrinha, a primeira aldeia Kaxarari. E só depois chegamos à aldeia do Azul, onde morava o Caibú, um velho chefe Kaxarari que lá vivia com toda sua família extensa. Na Barrinha moravam várias famílias Kaxarari e o Antonio Farias, um cariú misturado com Apurinã, que era casado com uma filha do velho Caibú. Lembro bem que dali da Barrinha até o Azul tinha muita caça. No caminho encontramos um bando de queixada. Matamos três. Já chegamos ao Azul com carne (risos). Aquele Azul é um igarapé bonito. A água dele parece com a do mar. Só depois dessa viagem, e de ter escapado da primeira friagem, fui para o seringal Petrópolis. No final do verão de 1976, cheguei finalmente ao alto rio Yaco, onde moravam os Manchineri e os Jaminawa. Lá iria passar dez anos da minha vida.

Elson: Justamente, essa é uma pergunta que está aqui no nosso roteiro. Como foi a tua chegada ao alto rio Iaco?

Meirelles: Peguei um avião em Rio Branco e desci na pista da sede do seringal Petrópolis. Lá tinha uma grande fazenda que era do Canízio Brasil e de seu irmão, o Antônio Brasil. O Canízio viajava mais para fazer compras para o seringal e o Antonio ficava mais permanente na sede do seringal. Logo acima da sede do Petrópolis moravam os missionários da Missão Novas Tribos. Numa das casas morava o Dimas, pastor brasileiro, e na outra vivia o Estevão, pastor norte-americano. Eles viviam ali onde, hoje em dia, é a aldeia Betel. Logo depois da pista de pouso, cerca de mil metros acima da sede do Petrópolis. Ao lado das casas dos missionários havia as casas dos Jaminawa. Pois bem, lá na sede da fazenda-seringal Petrópolis observei homens e jovens Jaminawa e Manchineri trabalhando na base da diária para os irmãos Brasil. Estes tinham quatro mil hectares de campo.

Usavam os índios pra bater campo, derrubar a mata e abrir novas pastagens para o gado deles. Os índios trabalhavam como peões, derrubando as matas para fazer novos campos. Alguns deles trabalhavam também como caçadores e todo tipo de serviços braçais, mas o maior contingente indígena era usado para a manutenção e abertura de novas pastagens.

Txai: Quais as suas primeiras conversas com os índios na fazenda-seringal Petrópolis?

Meirelles: Cheguei lá e fiquei naquela de ouvir muito e falar pouco. Aí conversando com os índios e tal, percebi logo que eram dois povos bem diferentes. Observei que os Manchineri falam uma língua do tronco lingüístico Aruak, semelhante a dos Ashaninka e Apurinã. E os Jaminawa falam um idioma da família Pano, parecido com o dos Kaxinawá, Yawanawá, Katukina, Shanenawa, Poyanawa, Nukini e Kaxarari. Enfim, vendo aquela situação dos índios trabalhando como peões para os patrões da fazenda-seringal Petrópolis, comecei a conversar com eles que aquele negócio não ia dar futuro para eles, não. Que eles iriam morrer batendo campo a terçado, trabalhando a semana todinha para o Canízio e Antônio Brasil a troco de duas garrafas de cachaça, ou para comprar uma bobagem qualquer no barracão deles. Fui convencendo os índios devagarzinho de que era melhor viver longe dali. Conheci o Zé Correia. Ele era bem novinho, mas já era um cabra falador e de grande liderança entre seu povo Jaminawa. Um cabra assim sempre tem futuro no meio de seus parentes, não é mesmo? Conheci o Zé Urias que também tinha grande liderança entre seu povo Manchineri. E aí fui conversando com eles e outros índios, especialmente os velhos Jaminawa e Manchineri do Petrópolis. Sempre perguntando: “E aí como é que é? O que se deve fazer pra sair do cativeiro dos patrões? Como é que se faz pra sair dessa dependência do barracão deles? Quais os limites das terras de vocês aqui nesse alto rio”. E assim por diante.

Txai: Onde você se hospedou, logo após chegar ao Petrópolis?

Meirelles
: Não tinha canto certo, não. Ficava nas casas dos índios. Passava um dia ou dois na casa do Estevão, missionário norte-americano responsável pela base da Missão Novas Tribos. Só não me hospedei nas casas dos patrões do Petrópolis, que certamente não seria bem visto pelos índios. Assim que cheguei, passei uns dias por lá entre os índios e os missionários, levantando informações, mas logo fiz uma viagem com o Antônio Alves, pai do Sabá Manchineri, até às cabeceiras do Iaco. Precisava conhecer toda a área e o lugar onde iria implantar o posto indígena. Convidei o Antonio Alves, porque ele conhecia bem o rio. Ele morava lá em cima, um pouco abaixo da Extrema. E o avô dele já tinha morado nas proximidades da foz do igarapé Extrema. Então, subimos o Iaco até bem acima da boca do igarapé Abismo. Só eu e o Antonio Alves na ubá dele, uma canoa indígena fabricada por ele. O Carvalho tinha me arrumado um motorzinho burro preto de três HP, uma caixinha de fósforo, né? Aí nós botamos na ubá do Antônio Alves e fomos embora. O Antônio Alves era um excelente feitor de canoa.

Fazia umas ubás bonitas. Eu subi o Iaco com ele até a fronteira com o Peru. Fui conhecer a fronteira, porque aquele rio entra muito dentro do Peru, nasce do outro lado da fronteira peruana.

Txai: Quais os resultados da ação indigenista nos 10 anos em que você viveu entre os Jaminawa e Manchineri no alto rio Iaco?

Meirelles:
Então, essa primeira viagem ao alto Iaco foi em agosto de 76, no auge do verão, já no final dos ovos de tracajá. Ainda arranquei uma cova de ovos de tracajá. Fiquei conhecendo as cabeceiras do Iaco. Naquela viagem já surgiu a primeira idéia de conversar com os índios a respeito de uma futura área indígena. Como é que vamos definir uma área para os Manchineri e Jaminawa no alto rio Iaco? Naquela primeira viagem, pensei muito nisso, até sonhava com os futuros limites daquela área indígena. Mais adiante, quando retornei ao Petrópolis, e em comum acordo com os índios, formulamos a primeira proposta de área: na margem direita do Iaco o limite seria do Mamoadate, que é um dos seus maiores afluentes da margem direita, pra cima. E na margem esquerda da aldeia Betel, onde viviam os missionários e os Jaminawa, pra cima. Essa proposta de área acabou acatada pelo órgão indigenista federal um ano depois, em 1977, quando um grupo técnico da Funai, coordenado pelo antropólogo Noraldino Vieira Cruvinel, identificou e delimitou a Área Indígena Mamoadate. A outra idéia que tive, em decorrência dessa primeira viagem, foi convidar os índios para se mudarem lá para a Extrema, já pensando em tirá-los de perto do barracão dos patrões do Petrópolis. O maior problema era justamente a excessiva dependência do barracão dos patrões do Petrópolis. Se os índios ficassem amarrados ali, certamente não poderiam se mobilizar para lutar por suas terras. Quem é que iria aviá-los de mercadoria? Tinha que ter alguma coisa, alguma alternativa econômica ao barracão dos patrões. Naquele tempo, o Carvalho deu muito apoio pra gente construir lá na Extrema uma pista de pouso para pequenos aviões e toda a infra-estrutura do Posto Indígena Mamoadate. Com isso, os índios começaram a ganhar por esses trabalhos. Assim puderam romper com essa dependência dos patrões do Petrópolis. E, mais importante ainda, começaram a considerar dali da boca do igarapé Mamoadate pra cima, como área indígena. E, na outra margem do Iaco, dali do Betel pra cima. Betel era e ainda é uma aldeia Jaminawa, onde moravam os missionários da Missão Novas Tribos. Ficava cerca de mil metros acima da pista de pouso da sede da fazenda-seringal Petrópolis. Então já dali da divisa do campo do Canízio pra cima, onde ficava Betel, passamos a considerar como área indígena. Aí a gente começou a ter uma idéia dos limites da área indígena que acabou vigorando, quase dez anos depois, com a demarcação daquela área. A Terra Indígena Mamoadate foi finalmente demarcada em 1987, com pouco mais 313 mil hectares, no contexto do Plano Provisório do Projeto de Proteção ao Meio Ambiente e às Comunidades Indígenas (PMACI). Este projeto surgiu em decorrência da pavimentação do trecho da BR-364, de Porto Velho a Rio Branco, financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Enfim, foram com esses limites, da boca do igarapé Mamoadate pra cima e da aldeia Betel pra cima, pensados junto com os índios Jaminawa e Manchineri do alto Iaco, em 1976, que aquela terra indígena acabou sendo demarcada dez anos depois daquela minha primeira viagem ao alto Iaco. Portanto, foi a partir de 1976, que os índios começaram a considerar esses limites como área indígena. Eu dizia assim pra eles: “Tomem conta dessas terras. Não deixem ninguém invadir e desmatar suas matas. Se vocês não zelarem por ela, ninguém vai fazer isso. Nem mesmo a Funai vai ter condições de fazer a vigilância e a fiscalização dessa grande área”. E assim foi feito. Hoje em dia, a Terra Indígena Mamoadate já está toda regularizada. Sem dúvida, esse foi o resultado do meu trabalho indigenista nos 10 anos que vivi entre os Jaminawa e Manchineri do alto rio Iaco. E tenho muito orgulho disso.

Txai: Faça uma reflexão sobre o movimento de cooperativas na década de 80 e sua importância para os índios dessa região.

Meirelles:
Essa é uma história muito interessante, Txai Terri. Quando a gente começou a implantar essas cooperativas indígenas, sem pensar muito nas conseqüências, aconteceram coisas fantásticas. Quem tomava conta da cooperativa dos Jaminawa era o Zé Correia. Você sabe como é Jaminawa. Se você casou com uma mulher Jaminawa, você vai trabalhar para os sogros o resto da vida. Eles têm todo o direito de fazer e acontecer na sua vida. E, pior, você não pode dizer nada. Senão eles tomam sua mulher. Então, quando o Zé Correia ficou responsável pela cooperativa Jaminawa, todo mundo comprava mercadoria e pagava com trabalho. Só não o velho Maxico, sogro do Zé. Pois bem, ele chegava de manhã com um saco nas costas. Abria a porta da cooperativa, colocava a mercadoria que quisesse no saco dele e o Zé Correia não podia dizer nada (risos). Depois ele vinha se queixar comigo: “Puxa vida, Meirelles, assim não dá. Todo mundo trabalhando pra comprar na cooperativa e o velho Maxico enchendo o saco dele de mercadoria sem trabalhar. Assim não dá!”. Enfim, isso foi no tempo dessas experiências malucas de cooperativas no meio dos índios.

Esse movimento de cooperativas pelo menos deu um fôlego para os índios saírem das mãos dos patrões de seringais. Esse movimento, de fato, ajudou os índios a se mobilizar pela conquista de suas terras. Os índios começaram a sair dos fundos dos seringais. Vieram a Rio Branco e começaram a ir até Brasília para reivindicar os direitos às suas terras demarcadas. Foi o início do novo tempo dos direitos, Tempo heróico do velho Sueiro Sales Cerqueira e de seu filho, Getúlio Sales, lá entre os Kaxinawá do rio Jordão; do velho Raimundo Luiz Yawanawá e do jovem Biraci Brasil no rio Gregório; do Zé Correia e Zé Urias no alto rio Iaco; do Mário Domingos e do Pancho entre os Kaxinawá do Alto Purus; do Felipe Sereno Kaxinawá e do Lopes Ashaninka no rio Breu; do Mário Cordeiro de Lima entre os Poyanawa do Barão; do Umberto Nukini no Seringal República, no alto rio Moa; do Manoel, Zé Miranda e Francisco Apurinã em Boca do Acre; do Rivaldo Apurinã nos rios Peneri e Tacaquiri, em Pauini; e de tantas outras lideranças indígenas. Todas estas lideranças começaram a mobilizar as suas comunidades em torno desse movimento de cooperativas e passaram a lutar pela demarcação de suas terras. Ainda tinha a Comissão Pró-Índio do Acre que ajudava a financiar essas cooperativas indígenas, com recursos financeiros de projetos encaminhados à Fundação Oxfam da Inglaterra. Tempo em que o CIMI era mais atuante e apoiava a luta dos índios pelo reconhecimento oficial de suas terras. Até o jornal Varadouro deu sua contribuição nessa luta, abrindo espaços para as lideranças indígenas falarem de suas reivindicações. Taí o Elson Martins, Sílvio Martinello, Arquilau Melo e o Txai Terri aqui, que abriram espaços no jornal da selva para os índios colocarem os seus problemas e reivindicações. Então, foi justamente no decorrer desse movimento de cooperativas indígenas que os índios começavam a sair do mato e passaram a reivindicar os seus direitos nas cidades. A gente dava suporte e apoiava todo esse trabalho de mobilização política das lideranças indígenas. O Txai é sabedor disso, porque ele, junto com o Macedo, o Luis Carvalho, o Ronaldo Lima, eu inclusive, o Rivaldo Apurinã, o Biraci Brasil, o Antônio Apurinã e tantos outros indigenistas e jovens lideranças indígenas que viviam aqui em Rio Branco apoiaram essas mobilizações pela demarcação das terras indígenas. Para essas coisas acontecer, a gente teve que inventar essas coisas como as cooperativas, que ajudaram muito nessas mobilizações indígenas. Podem-se fazer muitas críticas às cooperativas indígenas que a Comissão Pró-Índio ajudou a implantar em muitas terras indígenas no Acre e sul do Amazonas. Como por exemplo, dizer que elas não eram viáveis econômica e culturalmente. Mas foi uma maneira original dos índios criarem alternativas aos barracões dos patrões e, consequentemente, a se mobilizarem pela garantia de suas terras. Se os Manchineri e Jaminawa não saíssem da dependência do barracão do Canízio e do Antônio Brasil, não tinham feito nada. Neste sentido, acho que os papéis desempenhados pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI), inicialmente, e depois pela Comissão Pró-Índio do Acre, com apoio financeiro da agência humanitária Pão para o Mundo, da Alemanha, e principalmente da Oxfam/Inglaterra, foram de fundamental importância nesse processo todo que marcou profundamente o indigenismo acreano e do sul amazonense na década de 80 do século passado. E tudo isso não pode cair no esquecimento. Tem que ser resgatado em nome da história acreana. Um pouco mais de 15% das florestas acreanas estão hoje nas mãos dos índios. Isso tem um grande valor histórico. E uma longa história pra se contar.

Elson: Antes de a Funai se estabelecer no Acre, em meados da década de 70, os índios eram muito discriminados por aqui?

Meirelles
: Eram, Elson. Você se lembra que algumas autoridades locais diziam que não existiam índios no Acre, mas somente caboclos? Ora, o índio quando é chamado de caboclo é como se fosse um cidadão de segunda categoria. Caboclo é índio despossuído de direitos, principalmente da garantia de terem suas terras reconhecidas e regularizadas. Diziam até que o Carvalho pintava cearense de urucum e jenipapo para dizer que havia índios no Acre. Que aqui não tinham índios, mas caboclos e tal. Era aquela velha história, Elson, os brancos que trabalhavam como peões para o Canízio e Antônio Brasil, batendo campo, ganhavam uma diária de cinco cruzeiros. E os índios, fazendo os mesmos serviços, ganhavam só três cruzeiros. Havia aqueles preconceitos de que os caboclos eram trambiqueiros, traiçoeiros, falsos, dissimulados, perigosos, feiticeiros, sem-vergonha, preguiçosos e trabalhavam menos do que os cariús, como eram chamados os bran0cos. É aquela velha história, Elson, de usar o preconceito para explorar ainda mais os índios, dar o pior serviço e pagar o menor salário possível. Que havia preconceito no tempo do cativeiro dos patrões de seringais, havia. E não eram poucos!

O papo do Meirelles continua no próximo domingo

 
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Rio Branco-AC, 13 de abril de 2008
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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