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José Cláudio Mota Porfiro * |
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Considerações gerais Há algum tempo, estes escritos provocariam a ira de anjos, demônios, dirigentes e apaniguados de todos os naipes. A coordenação do curso baniria este escriba circunstancial. Mas a época me parece outra. Paira no ar um cheiro de democracia e já não creio em retaliações, apesar daquele que ainda diz serem alguns professores muito “folgados”, auto-suficientes, como se não devêssemos sê-lo por dever de ofício. Eis que me sopra ao ouvido sinfonia de um pássaro incolor. É a cotovia amazônica dos meus sonhos. O som é estridente. As orelhas estão em pé. Garante-me ela que não é uma questão meramente da aldeia. No terceiro mundo, onde os burocratas e fariseus não têm preparo técnico suficiente para desenvolver o seu trabalho a bom termo, quem leva a culpa nas costelas são aqueles que têm por incumbência transmitir conhecimentos e repassar experiências de vida para as novas gerações. Os professores cumprem planos e programas elaborados pelos que estão longe das escolas. E, se os experimentos e divagações dos burocratas não dão certo, é o mestre-escola o culpado pelos vôos imponderáveis dos que não têm competência para tal. José Goldemberg, ex-Reitor da USP e ex-Ministro da Educação, por exemplo, queria acabar com metade das universidades federais, principalmente, as localizadas nos nichos mais distantes, como é o caso da Ufac. Depois, é claro, a culpa seria do professor. Aliás, esta prática virou tradição, desde Lourenço Filho, nos anos 30 do século passado. Nos dias que correm, todavia, há um recrudescimento do preconceito. Todo tecnocrata se acha deus e diz aos quatro ventos que a escola não evolui por culpa de professores preguiçosos, irresponsáveis e obsoletos. Haveria razão para a defesa de postulado tão esdrúxulo? Não. O que deve vir, urgentemente, é uma avaliação participativa e criteriosa, que inclua alunos, ex-alunos e pais de alunos. Estes dirão, com todas as letras, que o processo educativo brasileiro não se desenvolve como gostaríamos exatamente porque os pacotes vêm de cima para baixo. O professor, o aluno, o coordenador e os pais é que sabem exatamente onde aperta a botina. É deles que os planos e programas deveriam partir. Eu, por exemplo, pela própria formação teórica e prática advinda de vinte e seis anos em contato com os problemas do ensino público, inclusive ao nível do planejamento e da avaliação, com Mestrado e Doutorado em Educação, não admito ser avaliado por um dirigente que sequer me conhece. Este ser todo-poderoso nada teria contra qualquer professor, mas, em compensação, não teria onisciência suficiente para saber quem eu sou ou quem é o outro, sem nunca ter-nos visto. Ora, senhores, nem todo professor é exatamente um irresponsável. Há os compromissados na Academia, com certeza. Vivem sobressaltados. O dirigente está sempre pronto para torcer a orelha do professor acuado. É preciso, certamente, ir aos fleumáticos e pregar uma prática de vida em harmonia dentro da escola. É necessário dizer que todos devem apoiar e compreender o problema daquele que enfrenta dificuldades porque todos nós um dia as enfrentaremos. Ajudemo-nos. Nunca a punição. Nós todos temos errado demais, posto que humanos. Será o apoio na hora necessária que tornará a convivência fraterna. E, quando disserem estar cansados da lida na sala de aula, devo eu pensar que o cansaço é próprio dos que se empenham, muito embora reconheçamos a existência dos que não cansam porque não se esforçam. Karl Marx deixou mensagem segundo a qual um trabalhador cansado produz sempre menos ou nada produz. Então, pensemos, juntos, não apenas naquilo que de negativo tem o companheiro, aquele que, no dizer do burocrata, só enrola. Além, para muito além dos muros da minha inconsciência, tem o outro que sonha e está sempre buscando viver bem consigo próprio para o bem dos demais. * Doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp; pesquisador do DFCS/UFAC. |
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