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Minhas memorias Menina de nove anos incorpora ex-seringueiro de 68 para conhecer a luta e as dificuldades dos que construíram o Acre |
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Colocar-se no lugar de outra pessoa de outro sexo e seis vezes mais velha que ela foi a maneira encontrada pela estudante Ingrid Silva Santos, 9 anos, moradora do bairro Santa Inês, para conseguir realizar uma verdadeira viagem no tempo conhecendo e acompanhando o desenvolvimento do Acre nos últimos 60 anos. Incorporando a vida do ex-seringueiro Raimundo Soares da Silva, 68 anos, de 10 filhos e que como milhares de outros s de família trocou o seringal pela cidade em busca de melhores condições de vida e depois não pôde mais voltar, Ingrid escreveu “Minhas Lembranças”, redação de 60 linhas com a qual venceu a fase estadual do prêmio Escrevendo o Futuro promovido pela Fundação Itaú Social em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Ela concorreu com todos os alunos das salas de quarta e quinta séries de todas as escolas do Estado do Acre e vai disputar de 26 a 28 de outubro, em Belém, a fase regional com os nove Estados da Amazônia. Caso vença, irá para São Paulo participar da fase nacional, que oferece ao primeiro lugar uma bolsa de ensino no valor de R$ 30 mil para bancar seu curso de nível superior. Aluna da quarta série da escola municipal Clarisse Fecury, no bairro Santa Inês, Ingrid, que tem apenas um irmãozinho menor, é um garota que sempre gostou muito de ler, tem preferência pelas novelas Bicho do Mato e Rebeldes. Dedicada, muitas vezes renuncia aos passeios de fim de semana para se aplicar aos estudos, onde só tira dez em tudo. Mas isso é outra história. “Gostei muito da idéia de ouvir pessoas mais velhas para contar a história de vida deles. Dessa maneira a gente consegue saber como era a realidade daquele tempo tão diferente da de agora. Antigamente tudo era muito, mas muito difícil, as pessoas sofreram muito para poder construir o Acre que temos hoje”, afirma Ingrid. Sem ter vivido, mas vivenciando a vida de Raimundo Soares desde o seringal onde teve uma infância marcada pelo isolamento, trabalho pesado e o imaginário assombrada pelos caboclinhos da mata, matinta pereira e outros ais. A adolescência marcada pelo machado no roçado picado pelas formigas de fogo, as madrugadas cortando seringa à luz da poronga de luz que tremia assustada com medo da onça que esturrava na grota. Ingrid conheceu assim alegrias e emoções pelas quais passou o ex-seringueiro, que depois de tanta luta hoje se acomoda em casa humilde vizinha desta menina que documentou a vida, vitórias e derrotas de um desses milhares de heróis anônimos que, mesmo sem reconhecimento, fizeram sua parte contribuindo para construir o Acre que hoje existe. Uma nova geração agora dá continuidade à tarefa de fazer deste um lugar ainda melhor para os que virão depois. Sofrimento seringueiro “A vida no seringal era muito difícil, não tinha estrada, não tinha escola, não tinha quase nada, mas tinha doença, onça e outros perigos, mas e apesar de tudo, Raimundo gostava de caçar, pescar, ouvir música e, uma vez por ano, conseguia vinha pro carnaval da Tentamen”, explica. A menina então afirma que: “Em toda parte tinha muita dificuldade as pessoas sofriam muito, se eu tivesse vivido naquele tempo, acho que teria lutado para melhorar a vida delas, para que tivessem um Acre melhor e com mais oportunidades”. Ingrid vai relatando os fatos vividos por Raimundo sem esconder saudades do que não conheceu e emoções que não viveu de fato. “Coloquei tudo como se eu mesma tivesse vivido tudo aquilo, não vivi, mas é como se tivesse vivido mesmo. Parece que vejo a catraia que era o único meio de transporte quando Raimundo veio para a cidade onde não havia nenhum carro. Vejo o carnaval na Tentamen e até a onça que ele encontrou na estrada de seringa. Ai, que susto!” Arrepia-se. Uma aventura Ingrid explica que desde o primeiro momento trabalhou com a meta de ganhar o prêmio por isso prestou atenção nas oficinas em que a equipe da escola orientou os alunos sobre como fazer uma entrevista, perceber os pontos mais importantes, fazer o texto e transmitir emoções neles. “Acho importante ganhar o prêmio pra nossa escola, pra nossa sala, mesmo porque nós trabalhamos juntos. Mas, o mais importante foi ter participado desse trabalho porque com ele aprendi muito sobre o sofrimento e a luta das pessoas que trabalharam para construir o Acre. Acredito que com isso a gente está aprendendo a valorizar mais as coisas boas que eles não tinham naquele tempo e entender que estamos aqui para levar esse trabalho pra frente”. A cada momento ela lembra e agradece o apoio recebido da mãe Maria da Glória e do pai Vanilson e, especialmente, da professora Evanilza. “Eu escrevia e depois lia a história para minha mãe, ela ouvia e me dizia para consertar as palavras erradas, mudar onde havia repetição de palavras ou pouca clareza no que estava dizendo. A professora nos orientava muito sobre como fazer as entrevistas, o texto bem organizado e com isso tudo a gente foi aprendendo a expressar melhor as nossas idéias”. Quanto ao futuro, Ingrid afirma: “Quero trabalhar pelo Acre, mas ainda não sei como porque gosto de muitas coisas, escrever, ajudar as pessoas, cuidar de animais, isso é coisa para a gente pensar melhor, vou decidir quando estiver maior”. Família feliz Maria da Glória e Vanilson são separados, mas se uniram na felicidade da vitória conquistada pela filha e decidiram juntos autorizar sua viagem para Belém acompanhada pela professora. “Ela sempre foi muito esforçada, a escola é muito boa, principalmente a professora Evanilza, que é muito competente. Quando chegou em casa e explicou que tinha de fazer uma entrevista com alguém mais velho, me lembrei logo do seu Raimundo porque ele sempre contava histórias do tempo que vivia no seringal, de quando chegou em Rio Branco e do quanto tudo era diferente. Estou feliz que ela tenha conseguido, mas muito preocupada com essa viagem, mãe, sabe como é né!” O pai Vanilson, que não mora com Ingrid, expressa uma alegria ainda maior e não esconde sua emoção ao firmar que: “Minha felicidade é muito grande porque minha filha está tendo uma oportunidade que eu nunca tive, de estudar e conhecer outros lugares. Tenho certeza de que milhares de outras crianças gostariam de estar no lugar dela, mas essa conquista é o prêmio pelas muitas vezes que fui buscá-la para sair comigo e ela disse que não podia porque estava estudando”. Ensinando a pensar A professora Evanilza Ferreira da Silva trabalha há oito anos em sala sempre trabalhando com alunos da primeira à quarta séries. Só na sala de Ingrid ela tem 36 alunos, uma turma numerosa que exige muita atenção e dedicação. Segundo ela, a preparação da redação para o prêmio Escrevendo o Futuro, promovido pela Fundação Itaú Social, aconteceu numa ação conjunta com os próprios alunos escolhendo as memórias entre os três temas que incluíam poesia e artigo de opinião. “Se animaram porque poderiam ouvir as histórias de vida das pessoas mais velhas e assim conhecer mais sobre elas mesmas. Definimos que teriam de ouvir pessoas com mais de 60 anos. Nisso, tiveram muitas dificuldades porque algumas se recusavam a falar com elas, mas o maior problema mesmo foi a linguagem porque os idosos diziam palavras que eles não conheciam e eles coisas que os idosos não sabiam o que era. Criamos um vocabulário de termos explicando o que eram aquelas palavras”. A classe acabou encantada ao descobrir que Rio Branco nem sempre foi o que é hoje e para confirmar aquelas histórias ouvidas dos mais velhos a escola organizou visitas dos alunos ao Palácio Rio Branco e outros pontos históricos onde há fotografias do modo de vida e do porto da catraia que um dia foi o único transporte da Capital. “Realizamos diversas oficinas orientando as entrevistas e a confecção dos textos, daí os alunos foram escrevendo sempre na primeira pessoa, assim como se eles próprios tivessem vivido cada lance daquelas histórias. Foi maravilhoso perceber a evolução literária deles, ao longo deste trabalho de três meses eles melhoraram a leitura, a escrita, o raciocínio concatenando as partes e deixando os conceitos cada vez mais claros no papel. A coerência das idéias é mais atraente e convincente para o leitor. Os trabalhos ficaram muito bons e tivemos dificuldade para escolher o melhor”. Bom para a escola A diretora geral da escola Clarisse Fecury, Iranildes Correia de Sá Saraiva, explica que dos 635 alunos que estudam em dois turnos neste estabelecimento, 172 pertencentes a cinco turmas de quarta-série participaram do concurso no qual Igrid venceu também os demais alunos da quarta e quinta séries dos 22 municípios do Estado. “Mais que o prêmio, que é claro nos interessa pelo bem que fará à imagem da escola e pela auto-estima dos alunos que estão todos comemorando felizes a vitória de Ingid, o mais importante mesmo é a oportunidade que este tipo de competição oferece para que as crianças cresçam no domínio da leitura e da escrita”. Empolgada, a diretora complementa: “O prêmio é o resultado de um esforço de toda a equipe de professores, orientadores educacionais e pedagógicos, mais o apoio que nós recebemos da Secretaria Municipal de Educação, em fim, todos nós fizemos um trabalho concentrado de três meses para vencer com qualidade e valeu a pena”, garante Iran, como é mais conhecida a diretora. O resultado estadual só vem reforçar outro trabalho que já vinha sendo preparado pela escola, desde o mês de maio, que será a realização da primeira Feira Literária que acontecerá no dia 24 de novembro, quando os textos escritos por Ingrid e muitos outros alunos poderão ser conhecidos pelo público, além de outras manifestações culturais desenvolvidas na escola. Raimundo só O menino que passou 54 anos cortando borracha ainda tem saudades da famílias que nunca mais viu Aos oito anos de idade, Raimundo Soares da Silva partia de Manaus acompanhando um tio que vinha para cortar borracha no seringal Catuaba, em Rio Branco, onde chegou no dia cinco de janeiro de 1945 e desde então nunca mais teve notícia de seus pais, irmãos ou qualquer outro parente. “Como era muito pequeno acompanhava o tio carregando as tigelas e o balde vazio, ajudava a fazer coleta e ia juntando o sernambi para ganhar meu dinheirinho. Quando completei nove anos já cortava uma ‘estrada’ e desde então minha vida foi o roçado e a borracha até três anos atrás, quando cortei meus últimos 300 quilos de borracha antes de vender a colônia que tinha no ramal do São João do Balanceio”, afirma Raimundo, fazendo um balanço rápido de sua vida contada para a estudante Ingrid, que escreveu sua história. Quanto ao interesse da menina por sua vida, ele esclareceu: “Conheço ela, por isso aceitei contar alguma coisa, mas se contasse tudo das alegrias e tristezas, com certeza dava uma novela, pena que não tenho cabeça para isso e muita coisa já esqueci”. Aos 68 anos, agora se dá ao luxo de curtir o ócio graças à aposentadoria que garante o sustento na vida simples. “Trabalhei muito para criar dez filhos, agora fico aqui descansando, às vezes me dá no tino, vou passar dois três meses trabalhando em alguma fazenda e depois volto para casa”. Os olhos brilham mergulhando na noite do tempo ao lembrar que quando veio pela primeira vez a Rio Branco, em 1945, a condução principal da cidade era a catraia. Carro havia três - o do Jacaré, do Raimundo Camelo e um que servia ao governador. “A vida era muito diferente, bem mais difícil, mas por outro lado tinha muito mais fartura. O patrão garantia tudo o que a gente precisava, tinha muita caça, muita fruta e roçado produzia bastante, só o dinheiro era difícil, a gente trabalhava dois, três anos para juntar uma mixaria e comprar alguma roupa melhor, no resto comprava sacos de algodão que vinham com a açúcar, fazia roupa e tingia com tintol. Hoje em dia pobre pode ter roupa boa e calçar sapato, naquele tempo não tinha não”. Depois de ter acompanhado toda a evolução que foi acontecendo com Rio Branco, desde então Raimundo faz um triste lamento. “Hoje em dia há mais desenvolvimento e os recursos estão aí, o governo ajuda a pobreza, mas não há empregos, a violência é tanta que a partir das sete horas da noite eu já não saio mais na rua. Na minha juventude a gente passava a noite inteira zoando pela cidade e não acontecia nada de ruim, agora tem bandido demais”. Dos momentos alegres e tristes da via, guarda uma saudade nunca resolvida. “Desde que saí de Manaus nunca mais soube de meu pai e minha mãe, fiquei só, sem família, perdi todo mundo, gastei minha juventude trabalhando sem poder voltar para lá e agora, que estou velho, é que ficou mais difícil ainda. Acabou.” |
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