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Extensão rural e desenvolvimento

Museu vai mostrar a história, acertos e erros da extensão rural no Brasil, mais particularmente no Acre

Divulgação
Marcos Inácio Fernandes, ladeado por membros da Associação Brasileira de Extensão Rural


Juracy Xangai

Técnico em agropecuária, sociólogo, extensionista há 30 anos e ex-presidente do Secretaria de Assistência Técnica e Extensão Agroecuária (Seater), hoje Seaprof, Marcus Inácio Fernandes foi eleito membro honorário da Academia Brasileira de Extensão Rural para a Associação Brasileira de Extensão Rural (Aber), onde representa o Estado do Acre.

“Um dos prncipais objetivos da Aber é fazer um resgate da história das técnicas desenvolvidas pelos extensionistas para o progresso da agropecuária brasileira em suas diversas fases ao longo de mais de 50 anos”, explica Marcos, lembrando que no Acre o sistema passou por muitos altos e baixos. “Hoje, a Seaprof é o único serviço de extensão rural com status de secretaria, em todo o Brasil, o que demonstra a valorização desse serviço que tanto tem a contribuir para o desenvolvimento econômico do Acre.”

A realização de documentários, livros, coleta de equipamentos e fotos que lembrem a história e trabalho das equipes de todo o Brasil estarão sendo enviados para o Museu que a Seater estará construindo em Brasília para contar a história da extensão rural no país.

“Nós, extensionistas, sempre trabalhamos na zona rural ou municípios mais isolados e isso nos obriga a ser criativos, o que fez surgir soluções inovadoras, como a tevê construída pelo técnico Agostinho que atendia agricultores de Feijó. Através dela passava um pano que ia sendo rodado à manivela para mostrar quadro, informações e técnicas como se faz hoje usando computadores que projetam suas imagens em telas ou paredes. Esse equipamento, além de rádios comunicadores e outras invenções, fará parte do museu brasileiro da extensão rural”, lembrou Marcus.

Altos e baixos - A extensão rural acreana começou nos primeiros dias da década de 70, liderada pelos engenheiros agrônomos Zaqueu Machado e Marcelino Cunha, que fundaram a Acar, para a qual importaram 37 técnicos em agropecuária vdo Nordeste. “De toda aquela turma lembro que quatro ainda fazem parte do sistema, entre eles o Pedrinho, o Zé Maria, um em Mâncio Lima e outro aqui em Rio Banco. Precisamos levantar a história dessas pessoas e também do podutores que alcançaram sucesso graças a idéias e conhecimentos adquiridos da extensão.”

Mas essa história de vitórias significativas também enfrentou derrotas coletivas que prejudicaram os profissionais, principalmente os próprios produtores rurais. A associação Acar seria transformada na empresa Emater ampliando escritórios e serviços, mas entrou em decadência no governo Collor que além de cortar seus recursos ainda extinguiu a Empresa Brasileiro de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater).

Prestes a ser fechada no final do anos 90 quando o governador Edson Cadaxo atednendo a sugestão do então secretário Mâncio Lima permitiu o repasse de recursos que garantiram uma sobrevida à empresa que passaria por alguns anos mais de dificuldades.

Quando Jorge Viana assumiu o governo do Acre, no final dos anos 90, as dívidas trabalhistas e obrigações sociais da empresa eram tão graves que, sem solução financeira de momento, criou a Seater para poder atender os agricultores acreanos, que estavam praticamente abandonados. Assim o sistema ganhou nova vida e agora no governo Binho Marques foi ampliado incorporado também à antiga Secretariada Produção Familiar (Seprof), que somada à Seater resultou na nova Secretaria de Assistência Técnica Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof).

As várias fases - Acertos e erros aconteceram ao longo desses quase 40 aos da extensão rural acreana, que em sua primeira fase, a exemplo do que acontecia em todo o Brasil, seguia a filosofia difusionista, ou seja, buscava difundir entre os produtores acreanos os sistemas e técnicas de produção que estavam conseguindo algum sucesso em outros Estados brasileiros e até do exterior. “Nosso trabalho era divulgar as novas técnicas e sistemas de produção, além de promover a distribuição de crédito subsidiado para desenvolver a Amazônia. Aqueles produtores que se recusavam a aceitar as coisas do jeito que oferecíamos eram tidos como atrasados e avessos à tecnologia”, recorda.

Na época os agropecuaristas brasileiros eram classificados pelo seu volume de produção, que podia ser de baixa, média ou alta renda. “Havia um erro muito grave naquilo tudo. O primeiro deles é que a opinião ou a experiência anterior do produtor rural ou florestal não era levado em consideração. As técnicas e propostas de ação vinham prontas do Centro-Sul e não previam nem permitiam adaptações à realidade Amazônica e isso foi causa de fracasso quando não de verdadeiros desastres ecológicos de efeito social extremamente negativos.”

Revolução verde - Já na virada dos anos 70 e por toda a década de 80 a extensão rural brasileira passou a difundir a filosofia da Revolução Verde que propunha transformar as pequenas e médias propriedades familiares em unidades de alta produção para atender a um mercado consumidor crescente. “A idéia era alavancar sistemas que levaram à criação de associações, que evoluíram para consórcios como para a criação aves e porcos ou soja e milho que dão tamanha importância aos agronegócios nas exportações brasileiras”.

O problema está no fato de que um grande número de produtores não conseguiu acompanhar esse rimo dessas transformações pelas quais passaram os sistemas de produção e o próprio mercado para atender as novas exigências e necessidades dos consumidores.

“A revolução verde criou plantações imensas de soja, milho e outros produtos foram se ampliando sobre as pequenas propriedades expulsando os produtores familiares para a cidade ou para regiões cada vez mais distantes e isoladas. Isto aumentou a pressão sobre a Amazônia tanto na forma de assentamentos humanos, quanto pelas invasões de Sem Terra em situação quase desesperada, quanto dos grileiros e outros que se aproveitam da situação pra ganhar dinheiro fácil”, lembra Marcus.

Os bons resultados econômicos geraram um verdadeiro exército de produtores em busca de terra para garantir sua sobrevivência em novas áreas num momento em que o mundo se volta para a preservação ambiental e fontes naturais de água. Para conciliar o interesse e a necessidade dos produtores em busca de uma vida digna e a das instituições que defendem a preservação ambiental é que surgiu o sistema produtivo agroflorestal que preconiza a produção de alimentos e o aproveitamento da riqueza contida na biodiversidade da floresta.

“Neste novo sistema, além da produção de alimentos também valorizamos a produção agroflorestal praticada por nossos seringueiros, ribeirinhos e comunidades indígenas, o manejo florestal, aproveitamento de ervas, óleos e essenciais, além de estimular a formação de sistemas agrofloresais que contribuem para melhorar a renda familiar e a qualidade de vida das pessoas que vivem no campo e na floresta”.

São fatos como este que estão criando novos mercados antes inimagináveis, como é o caso do Mercado de Carbono, ou seja, agricultores sendo pagos pelo carbono que suas plantações e árvores absorvem a cada ano ajudando a diminuir a poluição mundial. “No mês passado a prefeitura de São Paulo faturou R$ 40 milhões de reais em créditos de carbono por haver construído um depósito de lixo que além de reciclar o que é possível transforma em energia o gás metano liberado no processo de decomposição do lixo. Antes esse gás poluía o meio ambiente e ainda ajudava a destruir a camada de ozônio. Hoje temos consciência de que é possível produzir alimentos, proteger o meio ambiente e ganhar dinheiro com isso.”

 

 

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Rio Branco-AC, 18 de outubro de 2007
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