| OPINIÃO | ||
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| Chagas Batista * |
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Um banho de ribeirania Durante os últimos 30 dias venho viajando os Rios que cortam o município de Tarauacá. Aqui temos certamente a maior concentração de Rios do mundo. Rio Tarauacá, Rio Murú, Rio Humaitá, Rio Acuraua, Rio Gregório, Rio Tauary e Rio Liberdade. Temos ainda incontável quantidade de grandes Igarapés que são verdadeiros Riachos. O primeiro percurso foi subindo o Murú, o segundo maior Rio do município. O Murú tem aproximadamente 4 mil habitantes, é um Rio muito povoado e tem como afluente o Rio Humaitá. Os dois nascem na fronteira com o Peru, região onde se concentra o maior numero de índios arredios do mundo. O destino seguinte foi subindo a correnteza do Rio das ‘tronqueiras’. O Rio Tarauacá que, na parte de cima da cidade, tem como afluente o Rio Jordão. Nessas duas viagens, parando apenas nas comunidades mais habitadas, passamos 18 dias. Na seqüência veio o Rio Liberdade, que cruza a BR 364, região que faz divisa com Cruzeiro sul, Ipixuna, cidade do estado do Amazonas e desemboca no RIO Juruá. O deslocamento seguinte foi descendo o rio Tarauacá até a cidade Amazonense de Envira e retornando pelo Rio Acuraua, que destaco como a zona mais abandonada que visitei. Falta até fogo e sal. Algumas comunidades e colocações têm nomes que despertam curiosidade. SAUDADE, LAGO DAS MOÇAS, CASTELO DOS SONHOS, TAIOCA E INSOSSO. Estou de partida para o próximo destino. Vou embarcar no Rio Tauary, região famosa pela tragédia do massacre dos TOTÓS. Vou descer esse Rio que deságua no Rio Gregório, de lá subir até a aldeia Nova Esperança e celebrar com o povo Yawanawa o coroamento da expedição. Andar pelos barrancos, Rios e florestas de Tarauacá pra mim não é coisa nova. Faço isso há mais de 20 anos como militante político. No inicio reorganizando o sindicato dos trabalhadores rurais, criando associações comunitárias e falando de esperança. Em 1989, quando o poder político local não oferecia condições de alternância democrática, nasceu uma boa nova. A possibilidade de eleger um operário para governar o Brasil. Subimos Rio acima, remando, varejando e puxando sirga, cantando LULA LÁ, sem medo de ser feliz. Perdemos, mas, no ano seguinte voltamos com a proposta de Mudar o Acre. Dessa vez cantando: A GENTE JÁ CANTOU PRA SER FELIZ, AINDA É TEMPO DE MODIFICAR, O VERDADEIRO NOVO TEM RAIZ, JORGE VIANA É QUEM VAI GOVERNAR.... Mais uma vez perdemos a batalha. Seis anos depois surge a condições de mudar Tarauacá. Ganhamos, mas não levamos. Quando começamos a ver o sol nascer, veio a tempestade. A incompreensão política quebrou a saúde da aliança vitoriosa e o barco afundou. Mesmo assim estamos, até hoje, navegando nas águas barrentas do vale do Tarauacá, como sempre, falando de esperança, mas na vida do povo ribeirinho praticamente nada mudou. As mulheres rodeadas de crianças barrigudas, anêmicas, a espera do próximo que não demora nascer. Os homens também, fragilizados, não dispõem de apoio para plantar, colher, transportar e comercializar. A juventude, sem meios de diversão para extravasar suas energias e incentivo para produzir, encontra no alcoolismo, muitas vezes, a oportunidade para desabafar suas mágoas. Hoje, Lula já foi reeleito, Jorge já elegeu seu sucessor, mas a gestão do município que é a base fundamental para articular as políticas públicas de desenvolvimento econômico e social, permanece insensível e sem escrúpulo. Em Tarauacá temos um prefeito que antes de tomar posse declarou que possuía uma motocicleta velha e um casebre em construção. Três anos depois já é dono de três fazendas. Traquina com o dinheiro público sem ‘sobrosso’. Enquanto isso, continuamos sustentando os piores indicadores sociais do Brasil. Pra não ficar falando de tristeza, basta dizer que estamos entre os 20 municípios com maior índice de mortalidade infantil no país. Na realidade devemos reconhecer que, apesar da mídia direitista querer fazer a gente acreditar o contrário, o Brasil vem avançando e as condições de vida do povo melhorando. No nosso estado as conquistas políticas, econômicas e sociais são inegáveis, mas a maioria das gestões locais não avançaram. Para o nosso comandante, Governador Binho Marques, que pretende superar as grandes diferenças sociais do nosso Acre, é urgente dar um banho de Ribeirania para avançar nos seus objetivos. Nossos Rios são as fontes da nossa existência. Foi através deles que nossos pais e avós chegaram para desbravar e construir nossa história. Em Tarauacá, aproximadamente 10 mil pessoas ainda moram e produzem as margens dos Rios. São populações tradicionais e originárias da formação da nossa identidade. Que, lamentavelmente, continuam sem a presença de serviços e equipamentos públicos essenciais ao desenvolvimento econômico, social e cultural da vida humana. Os recursos que deveriam ser distribuídos de forma justa, continuam servindo para engordar prefeitos larápios e a interesses patrimonialistas. Já sonhamos muito, muitos se perderam no caminho, outros se corromperam, mas contamos com a fé dos tarauacaenses, que ainda querem ver brotar nossa voz no que falta sonhar e realizar. Continuamos navegando nos Rios, andando nos varadouros e cantando a esperança. * Presidente do PC do B de Tarauacá |
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