OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Arrogância e truculência

Alguns diziam-na arrogante demais, como se alguém o fosse de menos. Outros a tinham como truculenta em excesso, como se alguém o fosse em menor escala. Certo é que as antipatias andavam ao seu redor de mãos dadas com a pouca ou nenhuma humildade no trato com os demais humanos. Eis, então, que, um dia, apareceu-lhe cavaleiro andante por sobre o seu coração rochoso e transformou aquela petulante alma num poço de serenidade.

Dias desses, no Parque da Maternidade, caminhava, logo à minha frente, o Manoel Fragoso, amigo dito do peito por não ter agora como caracterizá-lo melhor. Ele o faz desde a inauguração daquele logradouro público. Digo público. Antes, exercitava-se no campus da Ufac, onde alma alguma jamais sequer o perturbou. É a retidão da índole.

Na última terça, logo à frente do caminhante, apareceu grupo de rapazes e moças vestidos de branco em corrida leve. E mais um outro grupo. Pareciam as centúrias romanas na busca por vítimas dos déspotas. Vinham ao encontro do transeunte formados em três colunas, impávidos e colossos, ocupando todo o espaço da via para pedestres. Eles não gostaram daquele intruso que não quis sair da calçada à sua augusta passagem, mas não disseram nada. Mais um pouco adiante, uma jovem senhora, uma avó e um carrinho com bebê tiveram que sair do caminho da turba elegante. Depois, soube tratar-se de aspirantes a oficiais da nossa garbosa e utilíssima Polícia Militar do Estado do Acre.

O Fragoso veio ao chafariz do parque e voltou na ação diária que, segundo ele, há de aumentar-lhe os dias de vida, a não ser que continue a trombar com aquelas raivosas criaturas de branco. Logicamente, o reencontro foi inevitável, só que, agora, em local perigoso para a saúde. Um dos sobranceiros que vinha à frente, alto e espadaúdo, ao encontro com a vítima, disse em bom som: “Esse Zé Mané teima em andar na nossa contramão!”

Ora, o Fragoso fracote não podia sequer pensar em se desviar da turba. Se pusesse um pé no asfalto, teria arrancada a perna por veículos que saíam de um sinal que acabara de abrir.

Noutro desses bons dias que Deus nos dá, eminente cadete chegou um pouco atrasado ao terminal urbano para apanhar ônibus que o levaria a destino qualquer. O infeliz motorista já houvera partido e não podia parar o carro sob pena de causar acidente. Ainda dentro do terminal, feita a curva para a rua, eis que aparece na frente do ônibus o protuberante quase oficial, postado, incólume, de braços abertos a berrar a plenos pulmões impropérios contra o chofer que apenas não quis atrapalhar o trânsito. Os populares, estupefactos, assistiam a tudo e nada diziam já com medo daquela figura apoplética a desempenhar tão ridiculamente o papel do Calígula piorado... Quanta empáfia!

No primeiro caso, o grupo dos cadetes deveria correr através do asfalto, uma vez que a calçada para os transeuntes é estreita para três colunas em fila. O pessoal do Exército assim o faz. Eles não fazem, talvez, porque sejam mais bonitos ou emoldurados pelas belas figuras de moças que enfeitam a centúria mal-humorada. Ademais, ao Fragoso foi tolhido o direito inalienável de ir e vir só porque é magro e não pretende se tornar militar aos sessenta anos.

No segundo caso, fica constatada a imensa vontade do moço fardado em tornar-se um humano superior aos demais. É claro que ele já é!

A petulância é transmitida por oficiais antigos que se revoltam porque ganham demais. Há na Justiça uma pilha de processos contra os truculentos. E tudo é fruto da precária interpretação dos preceitos democráticos tão bem sugeridos pela Carta Magna.

Ainda há inteligentes que não entendem o real sentido da democracia.

* Doutor em Filosofia e História da Educação/Unicamp. Pesquisador do Depto.de Filosofia e C. Sociais/ Ufac.

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de março de 2006
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