| OPINIÃO | ||
| UM OLHAR FILOSÓFICO | ||
Paulo Pinheiro da Silva |
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O que é desenvolvimento? A filosofia é uma ciência muito particular. Primeiro porque ela é uma ciência sem objetos. Mas o que significa isso? Ela é pré-objetiva, ou seja, trabalha num registro em que não se pressupõe nem objetos nem verdades anteriores. Os objetos são consciente ou inconscientemente criados por conceitos e, muitas vezes, objetos que nos são cotidianos e “naturais” foram resultado de um esforço de gerações. Para a filosofia, todo “ver” pressupõe um “compreender” que implica um “reconhecer”. A primeira vez que um filósofo disse que o poder de um governante é resultado da “vontade geral” e não da sua origem ou linhagem e muito menos de uma instância metafísica, esse filósofo foi literalmente apedrejado nas ruas: seu nome era Rousseau. A democracia representativa nasce dessa nova forma de ver o estado, mas esse objeto, no início, era visível apenas para alguns (desafortunados). Da mesma forma, alguns conceitos, criados por uma reflexão filosófica antiga, acabam adquirindo um outro sentido quando retomado em outras épocas e por outros povos. “Civilização”, por exemplo, é uma palavra de origem latina, mas que é uma retomada de uma noção grega que pressupunha a superioridade do citadino e aristocrata grego em relação ao resto. Ela implicou, na sua retomada na Europa do século XVI, uma série de valores para diferenciar o que era “evoluído” daquilo que era “incompleto”. Justificava a escravidão, a expropriação de povos, a supressão de culturas, pois “eles” (que na verdade somos “nós” brasileiros, africanos, indígenas e todos os “outros”) não atingiram o status de civilizados, diziam. Ser civilizado, então, era ter determinada aparência, crença, valores... Educar, nessa ex-colônia, era corrigir tudo que se afastasse daquele modelo, era tornar-se outro em relação à própria cultura, origem, história familiar e pessoal: essa é a origem certamente da resistência em relação à educação formal que grande parte da população sempre exibiu, pois na verdade ela não é falta de capacidade ou de iniciativa e sim uma nobre e silenciosas resistência (“aqui nessa tribo ninguém quer a sua boa educação”, como diz Arnaldo Antunes, numa música). Paulo Freire tenta corrigir esse erro, na medida em que coloca o educar como tarefa dialógica que não visa modelar e “despejar” conteúdo num aluno imóvel, mas sim desenvolver e proporcionar um “tornar-se mais” em qualquer que seja esse sentido de “ser mais”. Desenvolver-se, da mesma forma, era também afastar a floresta, o selvagem, na sua materialidade, enquanto mata a ser destruída, enquanto terreno a ser urbanizado, enquanto negro, índio e mestiços de todos os matizes a serem mascarados, disfarçados, ou seja, “civilizados”. Quando o Brasil se torna independente a primeira preocupação foi proibir as festas de nação (tradição africana sobrevivente no Brasil) que aconteciam no centro e afastá-las para longe das vistas dos estrangeiros, pois, caso contrário, o Brasil corria o risco de ser visto como “atrasado”. Quando é proclamada a república a reforma Pereira Passos retira os cortiços do centro, afasta as populações pobres sem a menor preocupação com a sua alocação, como se fossem invisíveis e indignos da preocupação pública. Mas isso está aos poucos acabando! Hoje a antropologia já nos informou de que não há padrão único de civilidade e nem de cultura, ou seja, não existem povos sem cultura, nem sub-raça... Da mesma forma se percebe lentamente que o urbano não é o sentido “natural” do desenvolvimento e que, da mesma forma, destruir a natureza não é condição de possibilidade do urbano. Mas um passo (que talvez o envelhecimento da Europa torne mais fácil a visão disso para eles) e se perceberá que a diversidade étnica, cultural, da flora e da fauna é que são sinônimo de “desenvolvimento”. Podemos até antever uma época em que uma nova hierarquia multiforme e policêntrica se estabeleça e que os povos mais múltiplos, na música, na cultura, na aparência, nos valores é que serão considerados “modelares”. Da mesma forma ganhará um significado mais forte, do ponto de vista estratégico e econômico, o fato de que a preservação agrega valor no turismo, na biologia, na química, na medicina e em ciências que hoje ainda nem mesmo existem. Aqui do Acre isso é mais visível por ser mais material. A diversidade da sua composição (nordestina, indígena, árabe, gaúcha, etc...), o ecletismo da sua religião nativa (que agrega muitas tradições em harmonia), uma manifestação cultural como a Cavalhada de Sena Madureira que agrega à dicotomia das cores (moura e cristã) outras cores e, por fim, alguns quadros de Hélio Mello, onde o animal, o vegetal, o humano se entrelaçam em harmonia, são dessa visibilidade testemunho. |
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Mestre em Filosofia |
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