| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
||
Barba e sem cabelo Anos atrás, reinou uma dupla extraordinária de dominó, aqui em Rio Branco. O parceiro principal era o Simi Batista de Menezes, amigo nosso que ora reside nas Minas Gerais. O craque Simi chamava o parceiro dele de Meu Prezado e ele mesmo era conhecido por vários nomes, apelidos e situações. Ora era chamado de Paulão, ora de Careca ou de Velhinho. Como viram, já naqueles tempos o nosso Simi também poderia ser chamado de Pouca Telha. Para compensar, usava um bigode vasto. A risada breve e larga, o olhar comprido, as calças curtas, sem roçar na freqüente sandália, que parecia não comportar os dedos. Antes de ganhar fama de campeã (merecida e incontestável), a dupla apresentava-se aos sábados, na casa do Dandão. Dali percorreu vários bairros e cidades, sempre conquistando vitórias, elogios e invejas. Ali, a cada derrota, as duplas que ousavam enfrentar Velhinho e Meu Prezado eram obrigadas a ingerir diversos coquetéis, chamados sucos de torpedo, num tempo máximo (em geral, três minutos). Caso a obrigação não fosse cumprida no tempo fixado, o Careca conferia, contido, a execução do castigo final, que era aplicado por Meu Prezado, consistindo em um batismo de uns três dedos de cerveja para perfumar os cabelos do perdedor. E foram muitos. O Paulão não dispensava nada. Até uma vizinha que tentou a sorte, teve que engolir o néctar. Certa vez, num aniversário lá no Dandão, à vista dos convidados, dentre eles o jornalista JCL, a dupla Simi e Meu Prezado foi desafiada por várias outras, como inimiga comum, sob o perplexo e arregalado olhar do Velhinho. Na ocasião, Meu Prezado usava uma barba de três ou quatro semanas, à época, ainda preta. O Simi, como sempre, não tinha o que pentear. Os adversários formaram fila e a dupla capitaneada pelo craque Simi tomava posição, quando o JCL verberou, batizando: “aposto, contra qualquer um, nesta dupla do rapaz barbudo e do velhinho careca. Aposto tudo na dupla Barba e Sem Cabelo”. Pronto, ali estabeleceu-se a nova denominação, a nova identidade da festejada dupla, que venceu por onde andou e viu quedar diante de si todos os adversários que contra ela se aventuraram. Quedar, tombar, trocar as pernas, quebrar a asa, apagar, acordar de unhas pintadas etc. O Sem Cabelo era inquieto, apesar de alguns cochilos que dava à mesa. Conta-se que ele, funcionário do Incra, ao realizar medições para implantação de assentamento em local cercado de áreas particulares, foi surpreendido por um matador, dentro do mato. As medições estariam invadindo uma propriedade e o dono encomendou a alma do Velhinho. Ao deparar-se com o matador apontando-lhe uma espingarda enorme, o Careca sentou, sacou do bornal uma lata de goiabada cascão e, enquanto a abria, falou para o matador: “eu estou te vendo, mas não se preocupe, vou dividir esta goiabada com você, comer doce é melhor do que cuspir chumbo”. Entregou uma talhada de goiabada enfiada na ponta de uma faca. Dizem que o matador, diante de tamanha valentia, aliou-se ao Simi e ainda lhe forneceu rapadura. Outra aventura do Paulão, teria sido na avenida Ceará, décadas antes do Parque da Maternidade. Estava ele empreendendo uma de suas inúmeras conquistas, quando surgiu um fusca envenenado, e a distinta logo avisou que era o marido dela. O já careca correu e escondeu-se no matagal, onde hoje está o Parque, mas o marido traído posicionou o fusca na direção do esconderijo, com faróis de milha e de ira, pontudos e incandescentes. Nosso namorador teve que mergulhar num pântano de esgoto, detritos, dejetos, deixando de fora apenas os grandes olhos e o nariz, durante longa meia hora. Passada a angústia, o Velhinho teve que correr, na mesma Ceará, até a altura do “Cara Rachada”, exatos mil e duzentos metros rasos e fundos, em cinco minutos, contando as ladeiras e as quedas. Ele sabia que a goiabada tinha sido deixada no esgoto. Refugiou-se na casa da mãe dele, tirou a roupa de linho branco, agora esverdeada, fez um monte, jogou querosene (que vinha em latas, à época) e tocou fogo, balbuciando pragas e preces. Ficou de molho em creolina durante outra meia hora, partiu a barra de sabão Zebú e danou-se a meter a cuia no camburão d’água e jogar nos poucos cabelos. Calculou o que aquele material tinha dito para o marido. Começou a esfregar a longa testa vermelha. Demorou-se mais no bigode. Essas estórias ele não confirmava, nem negava. Ria para dentro. É fato que ele era diferente, tinha exclusividades. Com o belo nome já referido, batizou um filho como Fábio Júnior. Era excêntrico. Ainda deve ser. Nos dá saudades. Invejamos os mineiros, que agora o acolhem. Em terra de tantas minas, há muito onde agasalhar o Paulão. Para encabular, respondeu a uma pergunta do Dandão sobre a idade das duas filhas dele, dizendo: “aquela tem doze, a do meio treze e a mais velha catorze anos”. Mas, se são duas, apenas, disse o Dandão ... Ele respondeu: “Eu não disse isso. Catorze é a diferença de meses entre elas”! Voltemos ao dominó. Enquanto o Velhinho dizia: “o batido é o senhor”, tachos e mais tachos era preparados para cozinhar os capotes, de todo tamanho e procedência. Cada courão! Dandão comprava latas, garrafas e litros de bebidas para motivar as disputas e chegou a organizar um excursão para Brasiléia e adjacências. Nesta, deu-se a maior seqüência intermunicipal (e internacional) de vitórias de Barba e Sem Cabelo. Os adversários, o Mário Jorge (o menino peralta, o Tio, advogado e craque de futebol) e o Dandão (mestre das palavras e do xadrez), caíram na besteira de encarar Barba (já raspada) e Sem Cabelo (quase completamente). Perderam na Vila Acre, no Quinarí, no Capixaba, em Xapuri, Brasiléia, Epitaciolândia e em Cobija. No Pando, compraram outros conjuntos de dominó, para “mudar o jogo”, mas a competência do Careca era internacional. Na volta, verificando que o Velhinho começava a “pegar traíras”, os adversários tentaram aplicar o golpe, forçando jogo no Quinari e em Rio Branco. Foi preocupante, no começo, pois o Careca dormia na mesa, em períodos certos. Jogava, dormia, os outros jogavam, quando, novamente, chegava a vez dele, acordava, jogava e tornava a dormir, apesar dos apelos de seu parceiro. Com isso, a dupla do Sem Cabelo enfraqueceu. Contudo, as grandes orelhas do Velhinho ficavam atentas. Às vezes, ele surpreendia e, quase dormindo, matava as carroças adversárias. Mais tarde, já no Quinari, correndo a noite, em uma negra geral do período, lá pelas tantas, surgiu uma pequena platéia, alguém famoso na cidade, e isto despertou nosso campeão. Com ele sempre acordado, ficou fácil. O Menino e o Dandão não tiveram chance. Perderam tudo, em todas as cidades. Sem Cabelo não deu mais revanche. Desperto, queria ir à caça. Como ele dizia, era hora de procurar algum “material” no 14 Bis. Depois, no Domingo, o Dandão descontava no xadrez, onde quem não tinha chance era o Simi. Pior, se fosse com relógio, no qual o Sem Cabelo dava caçuletas. Ele perdia logo no tempo, esquecendo de acionar o pino e, quando lembrava de fazê-lo, batia com força, para recuperar o tempo perdido. Atualmente, em poucas vezes que esteve em Rio Branco, o Velhinho teria demonstrado melhor performance no xadrez, segundo o Dandão. Notou-se que ele esquecia menos do placar, as caçuletas eram mais freqüentes e o Sem Cabelo quase não dormia. Deve ser alguma influência do queijo, do tutú, das minas dos gerais. Ou será que ele andou escaldando o bigode? |
||
|
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| ESPORTE |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |