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A nova história do povo Yawanawá

O choro que lamenta a perda, a fartura da caça e a dieta sagrada das primeiras mulheres pajés revelam o espírito guerreiro dessa tribo

 

Marcos Vicentti
Fatos inéditos vividos pela tribo revela a construção de uma nova história


Andréa Zílio
Fotos: Marcos Vicentti

Distante cerca de dois dias de barco do município de Tarauacá, no Acre, às margens do rio Gregório, quatro aldeias da mesma etnia, que somam cerca de 620 indivíduos, vivem momentos de uma nova história. Um povo sem idade oficial, que no contato com o branco e outras etnias indígenas adquiriu características físicas e outros hábitos incapazes de tirar a essência que preserva sua origem.

São guerreiros Yawanawá, pertencentes à família lingüística pano, que tradicionalmente vivem da caça e pesca, mas que começam a trilhar caminhos rumo a uma economia que sustenta sua cultura, unindo o tradicional e o moderno.

Na década de 1930, eles brigaram pela sobrevivência com os caucheiros peruanos que invadiam suas aldeias em busca da seiva do caucho - árvore de grade porte da qual se extrai o látex que origina uma borracha inferior à da seringa. Além da busca pelo produto, os caucheiros matavam os guerreiros e levavam as suas mulheres.

Na década de 1970, foi a perseguição do trabalho escravo que assolou de maneira intensa a vida desse povo. Recentemente, os índios Yawanawá lutaram pelas suas terras, pedindo uma demarcação mais justa que colocasse áreas consideradas sagradas em seu território, agora duplicado.

Mas é na luta contínua, travada desde o conhecimento de sua existência pelo branco, que a história dos Yawanawá se constrói. O desafio de melhoria da qualidade de vida sem agredir a tradição e sua cultura é um sonho que persiste.

A perspectiva para que ele se concretize se firma em projetos que começam junto ao conhecimento repassado por lideranças tradicionais, que são os mais antigos da aldeia e detentores de grande conhecimento, ensinamentos que eles direcionam às novas gerações, também protagonistas e testemunhas de outros importantes momentos que se apresentam dia após dia pela tribo.

Os Yawanawás, termo que significa “Povo da Queixada” (yawa: queixada; nawa: povo), buscam o equilíbrio entre o tradicional e moderno, atraindo a tecnologia de maneira limitada, mantendo viva a sua cultura, tradição e modo de vida. Nesse paralelo, fatos marcantes se sucedem, escrevendo novas linhas na vida desse povo forte, persistente e de extrema simpatia.

A viagem que leva a esse encontro é repleta de fatos marcantes. Na principal aldeia, a morte de um jovem guerreiro, vítima de picada de cobra, provoca o grito de lamento das mulheres que ecoa na floresta e no rio como sinônimo de perda.

A resposta dos espíritos vem com a fartura da caça. É o sinal das boas-vindas àquele que se despediu do mundo físico. E o alimento que surge como presente é o animal símbolo do povo, a queixada, que devolve o sorriso e brilho nos olhos de cada índio com a vontade de continuar a viver.

Na aldeia do Mutum, que antecede a principal, Nova Esperança, surge uma peculiaridade em dois fatos: a primeira liderança Yawanawá mulher atua ali. Logo adiante, em uma caminhada até a floresta, é ela que mostra um lugar de fatos inéditos e históricos: próximo a um igarapé de água cristalina, duas irmãs passam pela dieta sagrada, que faz parte da preparação para tornarem-se pajés. Elas são as primeiras mulheres da etnia a enfrentarem o desafio.

A odisséia rumo à terra do Povo da Queixada

Para conhecer o povo Yawanawá em seu habitat, é necessário enfrentar uma verdadeira odisséia: vencer o cansaço físico e estar aberto a um conceito de vida que foge aos modelos convencionais, para que se conheça, entenda e respeite a origem, história e propósito de vida dessa gente.

Na época de estiagem, o rio é raso demais para utilizar o motor. No período de chuvas, a estrada vira um lamaçal, impossibilitando o tráfego dos veículos. Atualmente, a dificuldade maior é exatamente na BR-364 - o percurso inicial após a saída de Tarauacá rumo ao rio Gregório: cerca de duas horas e meia de carro e três de caminhada.

A aventura continua com a viagem de barco no rio. O trajeto se torna perigoso devido aos troncos e galhos de árvores caídos nas águas. O percurso dura em média de 8 a 10 horas, o que exige do comandante do barco um bom conhecimento do lugar a percorrer. São cerca de dois dias de uma aventura, com rápidas paradas, que revelam aos poucos as características dos Yawanawá.

Com a nova área que amplia a terra - uma das primeiras demarcadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1984 -, um posto no lugar denominado Matrixã, liderado por Panãihu Yawanawá, onde moram mais 23 índios, é uma das tentativas de seu povo de impedir a entrada de caçadores e outros intrusos. É ali o primeiro contato com os índios da região.

O novo mapa da terra dos Yawanawá coloca no território as nascentes de rios acreanos como o Gregório, o Riozinho da Liberdade, o Bajé, o Tejo, o Primavera e muitos igarapés de grande importância para a preservação de toda a bacia hidrográfica da região.

No posto, a cordialidade da etnia é notável. Cordialidade essa que a professora Leda Matilde Yawatumã chama de aliança com os brancos. Entre os seus 34 alunos estão os ribeirinhos que moram dentro da terra indígena, pessoas que o povo da Queixada considera amigas. Todos compartilham da escola que proporciona educação em uma das localidades mais isoladas do Estado. Mas os brancos estão em processo de remoção do lugar.

A cordialidade do povo da Queixada

Depois do Matrixã, seguindo rio Gregório acima, estão as aldeias do Tibúrcio, Escondido, Mutum e Nova Esperança. A última funciona como sede da etnia, que já morou um pouco mais distante, no seringal Kaxinawá, cerca de duas horas e meia de barco dali.

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Em cada aldeia, a recepção é realizada com caiçuma, comidas
e frutas oferecidas aos visitantes. Um gesto de cordialidade

No Tibúcio, a primeira de muitas outras recepções que se repete ao longo da viagem, a caiçuma, comidas e frutas são as formas de dar boas-vindas, principalmente quando não há nenhuma desconfiança estando acompanhado de um “parente” (termos com os quais ele se denominam).

Nessa viagem, o apoio foi de Joaquim Tashka, coordenador da Organização e presidente da Cooperativa Yawanawá.

Sentar em círculo no assoalho da casa feita de paxiúba para compartilhar o alimento é a retribuição da boa recepção.

Seguindo caminho, passando pela aldeia do Escondido - a segunda a ser estabelecida pelo povo -, os índios mostram alegria ao receberem visitantes. Cordialidade é regra. Alguns se aproximam para conversar, enquanto outros preferem apenas observar.

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Mulheres dividem com os homens da tribo a difícil tarefa da caça

Mas é na terceira aldeia, a do Mutum, que surpresas reservadas revelam um novo momento do lugar. Lá, a liderança é uma mulher, Mariazinha Naiweni, 37, a primeira índia cacique de seu povo.

Mulheres Yawanawá

Filha de Raimundo Luiz Tuinkuru, 78, antigo cacique do lugar e uma dos líderes mais tradicionais de todas as aldeias, graças ao acúmulo de conhecimento, Naiweni mostra a diferença de atuação de uma liderança feminina. Baseada nos conselhos do pai, ela dá identidade ao seu jeito de comandar o dia-a-dia da tribo.

A índia conta que saiu com o pai e toda a família da aldeia Nova Esperança para o Mutum no desejo de que ele iniciasse um trabalho de resgate cultural sem que se dissociasse da aldeia principal.

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Naiweni (na frente) é a primeira liderança mulher

O líder aos poucos lhe mostrou a responsabilidade de chefiar, função que um dia seria dela. “Tinha muita gente na aldeia Nova Esperança e meu pai queria fazer um trabalho que precisava resgatar a nossa cultura. Achou que iniciar isso sem ficar desligado do nosso povo era a forma de buscar a nossa origem e espalhar”, diz.

A dificuldade que enfrenta na aldeia como liderança são as mesmas dos caciques, segundo Naiweni, mas com paciência, tolerância, ausência de machismo e firmeza nas decisões, ela admite estar adquirindo o respeito das famílias, que no início somavam cinco e hoje são vinte.

Homens e mulheres respeitam e obedecem à cacique, que lidera sua aldeia com apoio do pai, ouvindo todos e acreditando na coletividade. Um trabalho que mostra ter bons resultados. “Em reunião, ouvindo todos, decido desde o dia de caça até o rumo dos projetos”, comenta.

Resgatando sabedoria

Entre as conquistas, a Escola Tradicional dos Yawanawá, no Mutum, é um exemplo de grandes passos ao resgate da cultura. Ali, os índios aprendem desde pequenos a sua língua, canto e tradição. O artesanato é tarefa ensinada às mulheres, que usam a criatividade para se embelezar, assim como aprender as pinturas corporais, sinônimo da alegria de seu povo.

Próximo à escola, eles preservam também as plantas medicinais. Catalogadas, há cerca de 500 espécies usadas na cura de males que afligem a saúde dos índios. “A gente sabe que é importante estudar as plantas medicinas, enquanto os velhos estão aqui para nos ensinar, porque depois que eles se forem esse ensinamento pode morrer também”, diz a cacique.

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Na escola, crianças aprendem sua história e tradição

Na área onde estão sendo colocadas as ervas, o critério é que sejam plantadas em lugares semelhantes aos de onde foram encontradas. A mesma experiência de uma área exclusiva às plantas que curam são feitas na aldeia Nova Esperança. “Se uma planta é encontrada próximo do igarapé, aqui tem de ser plantada próxima a outro igarapé. O bom é que temos vários nesse espaço”, explica Naiweni.

Uma outra sabedoria que vem sendo resgatada pelos índios são os próprios rituais sagrados, danças e músicas. O encontro de gerações se faz presente em harmonia nos embalos do corpo e vozes durante o Yawa - festival de dança, expressão artística, manifestação cultural e espiritual do povo Yawanawá -, realizado na última semana de julho.

Projetos que divulgam o povo Yawanawá

Mantendo a tradição da caça e da pesca, a tribo Yawanawá busca também iniciativas que divulgam sua cultura e seja uma fonte de renda para melhoria de vida e financiamento de novas idéias.

A primeira dessas propostas iniciou em abril de 2002, por meio de uma parceria da tribo Yawanawá com a Aveda Corporation. A empresa, uma das maiores no ramo de cosméticos, financiou a plantação de urucum. Cerca de 30 hectares foram cultivados na aldeia Nova Esperança e em uma área dos índios Katukinas, mas o projeto não prosperou nesta última.

Marcos Vicentti
Mutirão garante a colheita do urucum, que é vendido para a
empresa fabricante de cosméticos Aveda Corporation

Na mesma área da plantação, os Yawanawá plantaram pupunha, castanha, acerola e guaraná, sendo que as duas últimas frutas foram descartadas por não fazerem parte do cultivo de costume.

A Aveda passou a comprar o urucum colhido pelos índios para fabricar batom. A safra acontece duas vezes ao ano - a maior no inverno e a menor no verão. A colheita é feita em mutirão, no qual todos trabalham.

O dinheiro da venda do produto é convertido em recursos para a aldeia, alimentando, assim, outras novas propostas.

A empresa de cosméticos adotou também a idéia de mostrar a origem e história desse povo. À todos os grandes compradores de seus produtos, a Aveda repassou o documentário “Yawa”, produzido por Joaquim Tashka. Nele, os Yawanawa ganharam imagem e som nas telas. O trabalho recebeu boas críticas, inclusive, de cineastas renomados.

E é seguindo nessas inovações que a etnia tornou-se dona de uma grife. As pinturas feitas nos corpos dos índios foram para as telas de serigrafia por meio de um curso ministrado às ín-dias da tribo. De lá, as figuras seguem para o Rio de Janeiro, onde são estampadas em roupas e vendidas em diversas butiques, ganhando vários adeptos.

Uma loja aceitou o desafio de vender a grife Yawanawá e faz sucesso em Rio Branco. Preparando o novo lançamento, Joaquim Tashka coordena o próximo desfile, que acontecerá em grande estilo na capital carioca. De lá, está prevista também uma exposição durante as festividades do Ano do Brasil na França. Junto às roupas, os colares feitos pelos índios também ganham destaque.

A grife rendeu também aos Yawanawá o prêmio ambiental Chico Mendes. É a busca do moderno com o tradicional que tem revelado Joaquim Tashka como uma forte liderança. O assunto ganhou destaque em universidades e rendeu convites para que ele dê palestras a esse respeito.

Equilíbrio do tradicional com o moderno

Após o grande paredão de terra, à margem direita do rio Gregório, está a aldeia Nova Esperança. Lá vive 60% do povo Yawanawa. O cacique é Biraci Nixiwaka. Assim como ela, todas as outras aldeias trabalham com um objetivo comum discutido com todos da tribo e liderado pela Organização Yawanawá.

Buscando conciliar o uso da tecnologia apenas para o bem e limitando o seu acesso na aldeia para que não prejudique os costumes de seu povo, Bira, como é chamado o cacique, conta que o risco é necessário para o andamento dos projetos e que, dependendo de sua liderança, a modernidade não tomará lugar do tradicional, por isso ele não permite o uso de televisão.

Os quatros rádios que possuem, segundo ele, servem para a comunicação entre as aldeias. A energia solar captada por uma antena é apenas para o uso do computador na troca de e-mail com informações sobre os projetos entre a aldeia, o escritório da etnia em Tarauacá e Rio Branco e as empresas e instituições parceiras.

“Junto com a tecnologia vem o desaparecimento da tradição. É assim no mundo todo, por isso a gente se preocupa até onde ela vai e que seja usada somente para o nosso trabalho e contribua sem destruir nossa cultura. Não temos TV porque ela não traz nenhuma contribuição”, diz o cacique.

Na busca do resgate de seus costumes e modo de vida, o cacique Bira fala da conscientização que foi tida quanto à importância dos mais velhos. Ele acredita que neles estão os conhecimentos que devem ser repassados às novas gerações.

Com esse propósito, ele conta que a tecnologia ajuda para que seja mantido um registro histórico de todas essas informações, como, por exemplo, a catalogação das plantas medicinais e o mapeamento dos lugares sagrados. “Temos de buscar o que eles sabem antes que morram e tudo se perca.”

Marcos VicenttiA sabedoria do pajé

Ele conheceu a história de seu povo graças ao cunhado Antonio Luiz Yawanawá, que foi cacique da tribo. Sua idade ninguém sabe ao certo, mas cálculos que consideram o período em que os empresários da borracha invadiram a região levam a supor que o pajé Manoel Vicente Yawarani tenha cerca de 75 anos.

Sua principal característica na aldeia é de um homem alegre, sorridente, com semblante sereno e palavras sábias quando o assunto é a crença e cultura dos Yawanawá.

Yawarani é respeitado pelo papel que tem perante seu povo. É ele que aplica o conhecimento medicinal junto com a curandeira da tribo e põe em prática os rituais e rezas que aprendeu e que diz terem o poder de cura.

Mais que desejo, o índio aprendeu que era preciso nascer com a vocação e ser o escolhido dos espíritos para a importante função de ser pajé. “Um pajé quando criança não gosta muito de brincadeira e está sempre ouvindo e aprendendo com os mais velhos”, diz.

Yawarani acredita que, depois que morreu, Antonio, por meio de seu espírito, ajudou-o a passar pela dieta sagrada e alcançar a tarefa de ser um líder espiritual. Sua principal tarefa é fazer o bem, curar e aconselhar. “Não tem idade para ser pajé. É o interesse da pessoa que mostra. Quando percebe que quer, naturalmente ela passa a viver perto dos mais velhos e os espíritos a guiam para que alcance isso”, afirma o pajé da aldeia Nova Esperança.

Ele diz que a preparação é forte e adverte que, se não for levada a sério, com determinação, os espíritos podem se revoltar diante da descrença. A palavra responsabilidade é predominante na vida de Yawarani, que, colocando-a em prática, angariou o respeito de todos os índios da etnia. O maior temor do pajé, admite, é a não valorização do conhecimento de seu povo, pois assim ele pode acabar. Com a introdução das “coisas do branco para a futilidade”, ele diz que a cultura pode ser esquecida, por isso é necessário manter a tradição.

Quando avalia sua vida como pajé, ele diz que tudo que fez foram coisas boas. “Até quando recebo amigos de longe, consigo ter a certeza se esses corações visitantes levarão notícias boas de meu povo para o mundo distante do nosso.”

Experiente, o pajé diz ter segurança em suas palavras porque toda sua vida é dedicada a repassar o que aprendeu.

A crença, a perda, o espírito guerreiro e a alegria da tribo

Mesmo com a modernidade, em tarefas que vão além da caça e pesca, realizando projetos com grandes empresas, sendo donos de grifes, de documentários e fornecedores de produtos que se transformam em cosméticos vendidos em todo o mundo, os Yawanawá não perdem suas origens.

Marcos Vicentti
Lugar de festas vira cenário de tristeza com a morte do índio

As roupas que vestem e os objetos do mundo de brancos dentro de suas aldeias não interferem em suas crenças. Uma mostra clara disso se fez presente com a perda do jovem Raimundinho Yawanawa, 20. Picado por uma cobra, todos na aldeia acreditam que esse não foi o motivo que lhe tirou a vida.

A crença – Antes do acidente, Raimundinho saíra para caçar e usou sem permissão a planta sagrada “rare”, que para o seu povo é superior a todas as outras e representa o criador, deus da sabedoria.

Para se redimir, ele e a família deveriam fazer uma dieta especial, mostrando o respeito que têm pelo espírito e toda a crença do seu povo, mas todos desconheciam o que o índio havia feito de errado.

A curandeira da aldeia Matsa, “Dona Nega”, 65, e o pajé Manoel Vicente Yawarani, 75, que cuidaram do jovem, junto com o líder tradicional Tuinkuru, ratificaram a opinião dos demais, concluindo que não se pode brincar com a tradição.

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Cacique Biraci Nixiwaca

A perda – Depois de quase três dias de tentativa de cura, no fim de uma tarde silenciosa a morte do jovem foi anunciada por gritos de lamento que ecoaram na Nova Esperança. A notícia espalhou-se com a partida de índios das outras aldeias que estavam ali para um dia de danças tradicionais.

A reação de surpresa em todos era unânime, pois ali jamais alguém havia morrido de picada de cobra. O cacique conta que eles possuem ervas muito eficazes contra o veneno. A notícia do erro cometido pelo jovem guerreiro foi anunciada pelo pajé e a curandeira e o momento era de reflexão.

No dia seguinte, o sol nasceu timidamente em meio ao nevoeiro. A grande maloca onde acontecem as festas transformou-se em cenário de dor e lamento. Rostos tristes, molhados de lágrimas, dividiam-se entre os de desespero dos irmãos e esposa de Raimundinho.

Lembrado pela sua energia de guerreiro, trabalhador e alegre, o jovem índio foi levado ao cemitério sagrado da tribo, onde estão enterrados os grandes líderes espirituais, lideranças, caciques, pajés e todo o povo Yawanawa.

O lugar é considerado sagrado e usado pelos ín-dios como espaço para buscar força e apoio espiritual dos ancestrais. Nessa busca, eles tomam “uni” (chá da ayahuasca) e fazem cerimônias.

O perdão – Depois da despedida, o barulho vinha de longe em direção à aldeia. Os rugidos fortes ganhavam força em sua sintonia. Homens, mulheres, adultos e crianças sabiam sua função em meio à correria. Era um bando de queixadas se aproximando.

Alguns se armaram com espingardas, terçados e pedaços de pau seguindo para a mata, outros cercaram a entrada para a aldeia e a maioria das mulheres desceu ao rio. Tiros deixaram os animais frente a frente com os índios que estavam à sua espera.

A alegria contagiou todos que a expressavam em gritos, pulos, sorrisos e gargalhadas. O povo Yawanawá fez uma demonstração clara do espírito guerreiro e alegre. O pajé e o cacique explicam o fato considerado raro pelo seu povo e jamais presenciado por uma equipe de jornalistas.

Para ambos, Nuke Epa, o criador, percebeu a tristeza do povo, que ficou abalado com uma morte por causa rara. E para tirar o luto e devolver a boa energia de quem gosta de viver, ele enviou o animal símbolo da tribo para servir de alimento a todos.

Após o alvoroço, os animais foram carregados para as casas de paxiúba. Cerca de 40 bichos mortos. Outros que estavam próximos foram livrados diante da ordem do cacique, pois ali havia o suficiente para todos se alimentarem. E uma das regras é pegar da natureza somente o necessário para sobrevivência.

“A gente não via queixada perto daqui há 14 anos”, comenta o cacique. “A queixada veio como resposta do criador ao nosso luto”, completa o pajé.

A preparação sagrada das primeiras mulheres pajés

Na história Yawanawa a mulher sempre foi valorizada em sua função, que vai além de cuidar do preparo da comida e dos filhos. Ela também é guerreira e ganha voz para opinar, mesmo que a decisão final seja do homem.

Mas um novo momento registra fatos inéditos na vida desse povo. É no Mutum, a dez minutos de caminhada da aldeia rumo à floresta, que Kátia Hushahu, 24, e Raimunda Putani, 28, estão reclusas há quatro meses, fazendo a preparação para serem pajés.

Tashka, que junto a Naiweni coordenam uma das primeiras visitas às duas jovens depois de três meses em contato apenas com o pajé da aldeia, João Ferreira Tata Yawanawa, é o primeiro a receber as orações de ambas. Com palavras, gestos e toque com as mãos em meio à fumaça das ervas que são queimadas, elas agradecem e pedem proteção para o índio, desejando coisas boas.

O ritual prossegue com as vozes das duas índias que entram em sintonia na mata em uma oração que reforça os pedidos. O orgulho dos “parentes” que presenciam a cena serve de incentivo às jovens em continuar com a preparação, que dura um ano. Quem não conhece o ritual fica fascinado pelo que vê.

Sejam “parentes” ou visitantes, há em comum a certeza de todos estarem presenciando um fato histórico e inédito. São as primeiras mulheres Yawanawa a passarem por essa preparação rigorosa.

Em três meses, no contato apenas com o pajé, elas purificam seus espíritos. Receber notícias do mundo físico prejudicaria essa limpeza de mente e alma. A dieta de um ano proíbe relações sexuais. Comida, só se forem animais pequenos. O uso do rapé (tabaco em pó e cinza do karipé - árvore cuja cinza de sua casca simboliza fortalecimento) e do “uni” é constante durante as 24 horas do dia.

A partir do quarto mês, as jovens têm visitas restritas. No sexto, elas poderão ir até a aldeia esporadicamente. Depois de um ano, terão recebido todos os ensinamentos de rezas e receitas da cura, por meio de sonhos e mirações. O pajé acompanha todas as informações que ambas adquirem para esclarecer o que significa cada uma.

Sem poder falar outra língua que não seja a do próprio povo, a comunicação nesse contato das duas índias com os visitantes resume-se em poucas palavras e muitas rezas. A certeza para quem visita é de um encontro inédito com quem está fazendo história na concepção do mundo que vive esse povo.

O futuro que se reforça nas novas gerações

Não há idade para aprender na tribo dos Yawanawá. Ouvir os mais velhos tem sido o caminho para o resgate da cultura e tradição. O arco e a flecha são o brinquedo dos meninos, que cedo aprendem a caçar e viver como guerreiros de seu povo.

Saber o que a natureza oferece e manter o respeito em tudo que o cerca é uma lição que eles carregam por toda a vida. Responsáveis pela caça, os homens aprendem a traduzir os vestígios deixados pelos animais, e seus ouvidos adquirem a sensibilidade que os permite ouvir os sons vindos da floresta.

Marcos Vicentti  Marcos Vicentti
Convívio com animais e habilidades para caçar e apanhar frutos começam na infância

Ainda crianças, os índios vivem a realidade de conviver com jacaré, tracajá, arara e outros bichos que se tornam de estimação. A habilidade em subir em árvores para pegar o fruto, como o açaí, é cena rotineira por onde passam.

As mães sabem que em suas tarefas de cuidar do alimento, ajudar na colheita e embelezar seu povo está também a responsabilidade de tornar as filhas boas mulheres e os filhos, bons guerreiros.

Uma tribo que não sabe ao certo o tempo de sua existência, que sofreu para manter vivas suas origens, mostra que aliar-se ao novo, mantendo a busca permanente pela preservação do tradicional, é mais que uma filosofia de vida, é a consagração da busca pelo viver bem. São os Yawanawá fazendo história.

 
 
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Rio Branco-AC, 19 de abril de 2005
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