COTIDIANO

Uma porta de esperança para a vida

Unidade de Desintoxicação do Hospital de Clínicas ajuda dependentes químicos a vencer o vício

Regiclay Saady
Neide busca uma nova
chance de internação na unidade
para livrar-se da bebida


Juracy Xangai

Inaugurada pela Secretaria Estadual de Saúde no último dia 31 de maio, a Unidade Clínica de Desintoxicação do Hospital de Clínicas de Rio Branco atendeu nesse período 19 usuários de álcool e drogas. É um serviço de atendimento emergencial ao qual são encaminhados usuários de álcool ou drogas que chegam passando mal ao pronto-socorro.

A permanência ali é voluntária por um período de sete dias, enquanto a família busca apoio para que ele seja incluído em uma das comunidades terapêuticas que trabalham com a recuperação de usuários de álcool e drogas existentes em Rio Branco. Entre os 19 pacientes encaminhados à unidade, três desistiram, um fugiu, destes três eram usuários de droga e um de álcool. Os demais cumpriram os sete dias e saíram para participar de reuniões dos grupos de mútua ajuda ou foram internar-se em comunidades terapêuticas.

“O tratamento é emergencial porque eles chegam muito mal ao pronto-socorro e são encaminhados para cá para desintoxicação. Quando voltam à consciência, têm o direito de decidir se aceitam ficar aqui. Nós trabalhamos para convencê-los, mas as portas estão abertas porque eles têm o direito de sair quando quiserem”, explica a enfermeira Necila.

De acordo com ela, a fase mais crítica do tratamento está nos três ou quatro primeiros dias quando os pacientes entram em síndrome de abstinência (o organismo exige novas doses da droga ou álcool) crises que são tratadas com medicamentos até que eles possam controlar-se por si mesmos. “As crises são tão fortes que alguns deles precisam ser amarrados à cama. Gratificante é a esperança que os familiares demonstram desde o primeiro momento em que eles chegam aqui. Triste é o desespero quando os parentes chegam para a visita e vêem que o paciente foi embora. O mundo desaba.”

“Preciso de uma chance”

O vigilante Creisson, 28 anos, pai de dois filhos, usou maconha pela primeira vez aos 13 anos, em São Paulo, logo em seguida experimentou a cola de sapateiro e, aos 15 anos, quando a família mudou-se para Rio Branco, ele conheceu a cola de sapateiro. Mergulhou fundo no mundo das drogas acabando com tudo o que tinha até que a própria família desistiu dele porque não agüentava mais a situação.

“Em 94 conheci um centro espírita que me acolheu e, a partir daquele momento, deixei as drogas, voltei ao meu emprego, conheci ali a esposa com quem tive dois filhos e vivia bem, até que nos desentendemos e nos separamos. Na mesma época perdi o emprego e a avó que tinha me criado faleceu, fiquei confuso, resolvi beber um pouco e naquele mesmo dia encontrei velhos conhecidos então voltei à droga no final de 2000. Troquei por ela tudo o que tinha dentro de casa, até minhas roupas”, relata Creisson.

Ele passou 11 dias internado na Unidade Clínica de Desintoxicação do Hospital de Clínicas de Rio Branco.

“Conheci outra mulher que me ajudou muito e ainda me ajuda, passei vários períodos sem usar droga, mas sempre voltava a ela. Estou aqui há 11 dias, o normal seriam sete, mas pedi para ficar porque se saísse daqui antes de ir para uma comunidade terapêutica eu sei que ia recair na droga”. Na manhã desse mesmo dia, Creisson teve de sair da unidade acompanhado pela esposa para fazer exames médicos no Laboratório Central e relata. “Nunca tive tanto medo de sair de um lugar, as mãos suavam frio, eu tinha medo que passasse por algum conhecido ou traficante no caminho, sei que se ele me chamasse eu não ia resistir. Não dá para explicar o poder que a droga exerce sobre a gente”.

Ele saiu para a casa de seus pais a fim de ir dois dias depois para a comunidade terapêutica Caminho Aberto. “Não me senti bem em casa e no outro dia meu pai resolveu fazer uma festinha para os amigos com churrasco e cerveja. Eu sabia que se tomasse um gole voltaria para a droga na mesma hora, liguei para o hospital e pedi que pudesse ficar ali até a hora de ir para o Caminho Aberto. Pouca gente entende o que é isso, agora reconheço que sou um doente e estou decidido a vencer esse mal em mim”.

Um porre daqueles de esquecer

O peão de fazenda Ilcimar Cordeiro Gomes, 29 anos, casado, lembra que começou a beber aos 14 anos. “Não era ruim não, mas comecei a exagerar e passava mal depois que peguei uma malária. Passei oito meses sem beber, mas bastou tomar um gole para começar tudo de novo e quando estou sem fazer nada bebo todo dia o dia todo”.

Ilcimar chegou ao pronto-socorro numa viatura do resgate depois de entrar em coma etílico e relata. “Minha mãe veio me visitar depois de dois dias, para mim eram dois dias que estava aqui, mas ela explicou que já fazia cinco dias que tinham me internado. Que quando cheguei estava tão maluco que eles tiveram de me amarrar na cama, agora já melhorei, mas não preciso de tratamento não. Eu paro de beber quando quiser. Já parei antes”.

Álcool que te quero

Depois de passar os sete dias na unidade de desintoxicação, a autônoma Neide, 32, mãe de dois filhos, recaiu na bebida e foi coincidentemente encontrada por nossa equipe num bar da Vila Ivonete. “Passei três meses no centro de recuperação feminina da Apadeq, não cumpri os nove meses de tratamento, saí com três meses porque achei que estava boa e já sabia me dominar. Recaí. Passei mal, me levaram para o pronto-socorro onde cumpri os sete dias, mas recaí de novo e agora quero mais uma chance para voltar para lá e depois ir para um centro de tratamento, mas eles não querem me aceitar de volta, eu considero isso uma injustiça porque os pacientes que tinham fugido tiveram uma nova chance e eu não”, reclama.

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de junho de 2004
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