OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Personagens e estrategistas

Segundo pesquisas e estudos do professor Francisco Muniz Ribeiro, no Brasil há cinco grandes estrategistas que merecem reconhecimento por todos os debatedores de mesa de bar: Lampião, Golbery, Mário Henrique Simonsen, Roberto Marinho e Zé Buchinho. Este, o estrategista tupiniquim, destaca-se dos demais pela sua incomparável versatilidade, pelo seu inesgotável poder de argumentação e convencimento, que o tornam capaz de vender geladeiras no pólo norte, metralhadoras no Vaticano, minissaias para as mulheres do Afeganistão, bônus de campanha do Bush para o Bin Laden, camisetas do Flamengo para o Eurico Miranda e pentes de madrepérola para carecas e destelhados.

Anos atrás, o Zé Buchinho criou uma nova receita de doce de mamão, segundo ele, uma maravilha no preço e no gosto. A idéia era vender para as escolas do Acre. O Zé subiu as escadarias do Palácio Rio Branco para apresentar (e vender) o doce para o governador Geraldo Mesquita. A princípio, não foi recebido por sua excelência, mas conseguiu enviar pela secretária um pote do doce até o gabinete, depois de convencê-la com a doação de uma amostra grátis. Esperou um pouco, até que foi chamado pelo governador, que o informou que não compraria o doce e orientou o Zé Buchinho para não produzi-lo mais. O motivo: o funcionário que experimentou o doce, logo após comê-lo, teve uma terrível dor de dentes, precisamente nos dois dentões superiores. Em sua estratégica defesa, rapidamente, o Zé Buchinho argumentou que o doce não poderia ter causado dor de dentes naquele funcionário, porque justamente aquele, usava dentadura! Aquele funcionário era amigo de um concorrente do Zé. Foi um argumento incontestável. Depois disso, o doce passou a ser muito apreciado. Nem o Golbery pensaria nisso.

Os meninos que batiam pelada no campinho da Maternidade, anos atrás, aprenderam um pouco das estratégias do Zé Buchinho. Só um pouco, é óbvio. Lembro-me que, há muitos anos, quando estávamos precisando de um jogo de camisas para fazer bonito com nosso timeco da Getúlio Vargas, visitamos o Palácio Rio Branco, depois de pesquisar o preço na Casa Palmeiras. Nossa estratégia: Fizemos uma vaquinha e compramos um bolo no seu Raimundo Laureano, feito pela dona Chiquinha, no valor aproximado de dois por cento do preço das camisas. O Correinha presenteou o bolo para todo o pessoal do gabinete, o professor Geraldo Gonçalo ficou muito alegre, uma grande fatia foi destinada ao governador, que ficou muito agradecido. Tal plano, nem o Mário Henrique Simonsen poderia engendrar. Resultado: No final daquela semana estreamos o novo completo de camisas. Demos mesmo um bolo muito bom.

A mais recente vitória estratégica do Zé Buchinho foi numa disputa pela venda de vários produtos, em grande lote, incluindo artigos de limpeza, conservação e higiene. Muito experiente, o Zé cotou os melhores preços e venceu em todos os itens, exceto no papel higiênico. O papel apresentado e cotado pelo Zé estava, segundo ele, um pouquinho mais caro que o do concorrente. Na defesa do seu produto, o concorrente do Zé expôs que seu papel era tão bom quanto o do outro, mas era muito mais barato. Rapidamente, como nem o grande Roberto Marinho poderia imaginar, o Zé replicou, enfatizando que o papel dele era muito melhor, mesmo sendo um pouquinho mais caro. Era papel especial, macio, muito perfumado e, além de tudo, tinha folha dupla. Limpava na ida e na volta. Foi o suficiente para vender todo o papel mais caro.

Há informações (não confirmadas) de que o Zé Buchinho tentaria vender livros de primeiras lições de dominó para os craques do Bar da Ray, inclusive para o professor Muniz Ribeiro. Seria feito histórico, fora de cogitação, mesmo para nosso estrategista maior. É que, há poucos dias, o Muniz começou a ganhar quando o sol estava alto e permaneceu invicto noite afora, depois que filas e cobrinhas de vítimas tombaram derrotadas Eu mesmo só não fui vítima porque era parceiro do Chico. Lá, no dominó, o Zé Buchinho ainda não se criou. Porém, com sua capacidade de articulação, ele deve estar preparando alguma estratégia para sair da divisão de acesso. No nosso dominó, que é o melhor do mundo, o Lampião é o Delmiro Xavier.

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de junho de 2005
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