| POLÍTICA | |
A política feita a marteladas Vereador-carpinteiro chega ao terceiro mandato construindo casas para eleitores em Brasiléia |
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Brasiléia (AC) - Ele abriu caminho para a vida pública a marteladas. Com a força dos punhos e com o que aprendeu no ofício de carpinteiro, conquistou o primeiro mandato de vereador em 1996, pelo PT, construindo casas para as pessoas que iriam formar sua base de apoio. Semi-alfabetizado, utilizou o dois outros mandatos seguintes para se preparar intelectualmente: fez o ensino médio e agora se prepara para cursar História, ao mesmo tempo em que se articula para vôos mais altos na política. Este é o perfil de Francisco Eduardo de Queiroz, o Edu, vereador petista no terceiro mandato e um dos campeões de votos em Brasiléia. Quinto de uma família de nove irmãos, viveu até os 26 anos na zona rural, trabalhando na agricultura. Só tinha o quarto ano primário quando veio morar na cidade, ocasião em que travou contato com a política. “Eu já era filiado ao PT e, na cidade, decidi que podia exercer um mandato mesmo tendo só o primário”, disse. “Mentalmente estabeleci uma estratégia: conquistar mandatos e defender meus companheiros, mas me preparar para ir mais adiante na política.” A primeira disputa eleitoral, em 1992, foi uma decepção. “Não consegui me eleger porque pensei que poderia ser eleito só falando da importância de os trabalhadores terem uma pessoa como eles na Câmara. Acho que não fui atendido”, contou. Quatro anos depois, numa nova disputa, mudou a estratégia: além de falar, pôs a mão na massa, utilizando a profissão de carpinteiro. “Se a casa era de madeira e exigia o trabalho de carpinteiro, eu ia lá ajudar. Quando a pessoa tinha algum dinheiro, eu cobrava, embora muito abaixo da diária. Quando o cidadão não tinha condição, eu simplesmente dispensava a cobrança e insistia na necessidade da eleição de um trabalhador na Câmara Municipal”, contou. “Não vi nenhuma ilegalidade no que fiz porque não estou recorrendo a nenhum expediente escuso. Eu uso minha força de trabalho para ajudar meus companheiros.” Em que pesem algumas críticas, abertas as urnas, Edu era um dos dois vereadores petistas eleitos em 1996. O mais votado do partido. “Ao chegar à Câmara, logo percebi as deficiências da falta do conhecimento, mas decidi que, naquele mandato, não iria estudar. Primeiro, passei a andar na zona rural, ajudar os movimentos sociais, discutir com os companheiros a necessidade de fortalecermos o partido e o nosso mandato. Dediquei-me em tempo integral à política e não tive tempo para estudar”, contou. No segundo mandato, as coisas foram diferentes. De novo o mais votado pelo PT, Edu percebeu que, com o mandato consolidado, era possível colocar em prática um sonho antigo: voltar a estudar. “Em quatro anos, fiz o ensino fundamental e o médio”, disse. “Agora, no terceiro mandato, vou entrar para a universidade, para o curso de História. Preparei-me e sei que vou passar no vestibular.” A votação do terceiro mandato foi inferior aos votos do segundo mandato. “O problema foi que cinco dos meus apoiadores também foram candidatos. Todos eles perderam e eu consegui convencê-los de que na vida, principalmente na política, nada é por acaso. Tudo tem que ser estudado, planejado. Pelo menos dois daqueles cinco se comprometeram que, na próxima disputa, vão voltar a marchar comigo”, contou. No fim de 2012, quando possivelmente estiver concluindo mais um mandato que ele pretende ir buscar nas urnas no ano que vem, Edu espera estar concluindo também o curso de História. “E aí vou procurar alçar vôos mais altos, porque o político que não pensa nisso, que não pensa em avançar, está fadado ao fracasso”, prega. “Eu não tenho vergonha de dizer isso porque penso que é legítimo um trabalhador sonhar com o poder”, diz Edu, com a serenidade de quem sabe de onde veio e que é importante não perder contato com as origens. É por isso que, sempre que necessário, ele se despe das vestes de vereador e volta ao princípio, onde tudo começou, e volta a ser o carpinteiro Edu. O carpinteiro-vereador que sonha ser professor de história e alçar vôos mais altos na política mostra, com seu exemplo, que a política, quando feita com determinação e decência, é um grande instrumento de mobilidade social. O maior instrumento, talvez. |
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