| POLÍTICA | |
Duas décadas de impunidade e omissão Família de sindicalista morto seis meses antes do assassinato de Chico Mendes continua clamando por justiça |
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São tempos diferentes. Tempos em que, na falta de jornalistas para registrar aquele período de tensão e medo nas ruas de Xapuri, um professor franzino e de gestos tímidos armou-se apenas da coragem de militante aliado dos trabalhadores para fotografar um velório em que os assassinos, sem nenhum disfarce, chegaram a se misturar entre familiares e amigos do morto com seus revólveres à mostra a dizerem que mais mortes iriam ocorrer, como de fato ocorreram. Eram tempos duros aqueles. A foto que capturou aquele período para a história está publicada no jornal com data de 21 de junho de 1988, com o devido crédito do autor, um certo Binho. Hoje, acrescido do sobrenome Marques, o professor que se orgulhava do apelido derivado do diminutivo de seu nome - Arnóbio - é o governador do Estado. Mas as transformações que fizeram de anônimos militantes executores de políticas publicadas destinadas à proteção dos colonos e seringueiros não chegaram à família do aposentado José Higino de Almeida, 70 anos, mineiro que chegou ao Acre em 1985 na leva de trabalhadores migrantes que viriam ocupar os projetos de assentamento dirigidos do Incra que estavam sendo implantados no Acre. Sua familiar quer apenas justiça. José e sua mulher Luzia Maria Siqueira, 66, são os pais de Ivair Higino, sindicalista e monitor da CEB (Comunidade Eclesial de Base), assassinado na madrugada do dia 18 de junho, na porta de casa, na BR-317, em Xapuri. Era o mais velho de seus seis filhos, todos profundamente identificados com o trabalho na agricultura e fortes ligações com a Igreja Católica e com a longa luta por reforma agrária. Por isso, três anos depois de chegar ao Acre, Ivair já era uma reconhecida liderança rural a atuar na região de Xapuri na defesa dos interesses de seringueiros e outros trabalhadores rurais. Era monitor de uma das células das Cebs (Comunidades Eclesiais de Base) e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, então presidido por Chico Mendes, que morreria seis meses depois, também nas mesmas condições. Aliás, Chico chegou a utilizar a morte do companheiro Ivair como exemplo daquilo que iria lhe acontecer. É do velório de Ivair a foto tirada por Binho Marques para denunciar a ação intimidatória dos pistoleiros que aquela época infestavam Xapuri e que, apesar de seus crimes, tinham o apoio incondicional de lideranças políticas como o então prefeito Wanderlei Viana, que está de novo no poder. Para a família de Ivair, aquele 18 de junho, uma sexta-feira, ainda não acabou. Apesar das mudanças vivenciadas no Acre, os assassinos não foram formalmente identificados, tampouco presos. O principal suspeito de mandante do crime, Cícero Tenório, liderança política e aliado do atual prefeito de Xapuri, nunca foi sequer incomodado pela polícia. Os outros suspeitos são os sobrinhos de Darli Alves da Silva, o fazendeiro cujo filho, Darci, confessou ter matado Chico Mendes. Identificados como Mineirinho, Cearazão e Cearazim, como eram conhecido os pistoleiros, agiriam a mando de Alvarino Alves, irmão de Darli, pai de Tiinho Alves, que teria participado da execução. Alvarino Alves hoje vive tranquilamente em Xapuri porque, além de não ter sido envolvido no caso Chico Mendes, ao completar 70 anos de idade, foi, como manda a lei, considerado inimputável no que diz respeito à morte de Ivair. Os outros - Mineirinho, Cearazão e a Cearazim - sumiram. Não há testemunhas, não há provas. É por isso que dirigentes do Comitê Chico Mendes, certos de que houve testemunhas do crime, vão promover uma campanha no Estado pedindo que as pessoas que por acaso tenham informações sobre o caso enviem cartas anônimas às autoridades ou à entidade. A falta de provas faz com que a família de Ivair conviva com o gosto da injustiça na boca. “Dói saber que a gente perdeu um filho e que os culpados fazem é rir da gente”, diz Luzia Maria. “Não queremos vingança; é justiça que a gente quer”, disse ontem José Higino de Almeida, ao lembrar os 19 anos da morte do filho. “Há 19 anos, nessa época, tínhamos acabado de enterrá-lo”, lembrou, ontem à tarde, sem conseguir disfarçar as lágrimas ao receber em sua casa militantes do Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular (Cedepe) e do CTA (Centro dos Trabalhadores da Amazônia), duas organizações que ajudam a família em busca de justiça. José Higino já havia chorado no Palácio Rio Branco, em 1988, quando da visita do então ministro da Reforma Agrária, Jader Barbalho, ao então governador Flaviano Melo. Pai, mãe a e viúva de Ivair, com o filho de 28 dias no colo, foram às autoridades pedir justiça. O ministro e o governador se faziam acompanhar do então deputado pelo PMDB Rubem Branquinho, inimigo visceral das propostas de reforma agrária na Assembléia Nacional Constituinte e um dos proeminentes fundadores da UDR (União Democrática Ruralista) no Estado. Com um timaço desses, os matadores de Ivair não tinham mesmo com que se preocupar. Coincidência ou não, logo a seguir, trabalhadores acampados na sede do IBDF (o Ibama de hoje) em Xapuri foram alvejados a tiros. Dois filhos de Darli - Darci e Olocy - foram identificados, presos e condenados. Mas a violência não parou. Em setembro daquele mesmo ano, outra liderança sindical, José Ribeiro, foi morta oito dias depois de ser espancada pelos filhos e capangas de Darli. O pretexto foi que, dias antes, numa festa, José Ribeiro ousara tirar para dançar a noiva de um filho de Darli. Duramente espancado, acabou preso. Quando saiu foi morto, por emboscada. Detalhe: o delegado de polícia da cidade era Odilom Alves, irmão de quem? De Darli e Alvarino Alves. Em dezembro de 1988, às vésperas do Natal, os executores da crônica de mortes anunciadas deram o passo mais ousado: a morte de Chico Mendes. “Foi a partir da morte de Chico Mendes que se conseguiu informações sobre a outras mortes”, conta o advogado Gumercindo Rodrigues, na época assessor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, que deverá atuar na assistência de acusação dos assassinos de Ivair. “Eu acho que a morte do Ivair foi uma espécie de ritual preparatório para a morte de Chico Mendes. Eles mataram lideranças ao redor de Chico para que, quando o matassem, não houvesse capacidade de reação”, disse Gumercindo. “Mas se enganaram.” O advogado espera que o caso vá a julgamento ainda este ano. “Na época, o inquérito foi muito malfeito, por uma mistura de incompetência, ausência do Estado e má-fé. Mas as coisas mudaram”, diz Gumercindo. Mudaram. Menos para a família de Ivair. |
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