OPINIÃO
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Torvélio de Oliveira *  

 

Contradições essenciais da política

Outro dia saboreei essa, de um certo Toinho, com muito conhecimento de causos: “Quando digo que a política é uma merda, tem gente que se ofende”. Encontrou longo eco em meu gosto pelo humor característico das mentes privilegiadas, em palavras arrumadas com sabedoria e idéias construídas com sinceridade. A propósito de assunto afim, ensaio o texto a seguir. Perdoem-me se há excessos descritivos, ou pouca caracterização quanto ao estilo, sou pensador recente e escrevinhador idem.

Penso que a política tem mesmo uma contradição essencial (definida aqui como aquele defeito de fabricação que compromete o desempenho da função para o qual o objeto foi criado). Bons e maus políticos certamente existem, dedicando-se os bons, numa simplificação proposital, à concretização de suas idéias para a coletividade e os maus, ao acúmulo de benefício próprio. Note-se que bons políticos, por esta definição simplificada e arbitrária, poderiam até ter más idéias que, em sendo verdadeiramente idéias em prol da coletividade, seriam necessárias, mesmo que equivocadas, para o exercício adequado do contraditório. (É verdade que as más idéias cansam e é, com toda sinceridade, uma merda mesmo ter que ficar lidando com gente de visão estreita e capacidade limitada que a olhos vistos atrapalha a evolução da espécie. É o preço da convivência civilizada diriam alguns, com propriedade). Note-se também que, por essa mesma definição arbitrária, o mau político poderia ser facilmente chamado de mau caráter, vigarista, ladrão ou coisa pior. O que une ambos? A necessidade do poder. Fundamental tanto para concretizar grandes idéias, quanto para acumular grandes benefícios próprios.

O político, mesmo o bem intencionado, precisa buscar, antes de tudo, como pressuposto para seu sucesso, o poder. O poder para realizar. Se sem poder não se concretizam as idéias, tê-lo e acumulá-lo passa a ser essencial. E em sua busca é preciso convergir, agregar, construir consensos, ampliar a base, coisas do tipo. A busca regular pelo poder, no exercício diário da política cotidiana (leia-se apoio, influência), ou a cada dois anos nas campanhas (leia-se votos), tende a tomar muito da energia despendida pela política e invariavelmente a afastá-la de suas metas e ideais. O caminho entre a idéia e sua concretização, em política, não sendo uma linha reta, metaforiza-se para mim, no trabalho do velejador que precisa andar em sucessivas diagonais, afastando-se e aproximando-se, ora para um lado, ora para o outro, jogando com as características de seu barco e a força e direção do vento que se apresenta.

A estratégia de ziguezague precisa ser bem pesada. Se pouco ou nada se afastar na diagonal, insistindo em andar quase em linha reta contra o vento, não sai do lugar. Se afasta-se demais para os lados acaba perdendo o ângulo de retorno e pode chega a um lugar bem diferente do que o estabelecido na rota. Na política, seguindo a analogia, ou nada concretiza, ou se afasta demais de seus ideais, perdendo o sentido original de sua ação. Ter que se afastar de seus ideais para concretizá-los e ter como meta essencial o acúmulo de poder são, neste raciocínio, contradições essenciais da política. A possibilidade de sedução pelo modus operandi mais eficiente para o acúmulo de poder torna o jogo bastante mais perigoso, pois pode significar a necessidade de dissimular e mentir, bem como trocar poder (votos ou apoio) por favores pessoais ou diretamente por dinheiro. E o poder pode, como qualquer criança ou avó sabe, embriagar e corromper, pelo que é preciso muito, mas muito cuidado mesmo, ao adquiri-lo.

Diriam outros, não sem toda razão, que quase tudo de bom que o Acre em sua história recente fez, tem feito e está ainda, se Deus quiser, por fazer, depende direta ou indiretamente da política. O que é forte evidência, sem sombra de dúvida, a favor de sua utilidade. Mas a utilidade dos remédios não dispensa a preocupação com seus efeitos adversos. A analogia com a ação de medicamentos visando a correção de uma realidade indesejada também se encaixa bem com certos aspecto da atividade política, e é fácil reconhecer que o processo de acúmulo e distribuição de poder pode gerar efeitos adversos graves (como o enriquecimento rápido e fácil de grupos que se beneficiam de mudanças econômicas resultantes da ação política e, juntos beneficiados e beneficentes, estão expostos a elevado risco de ocorrência de: relações perigosas, propostas indecentes e associações indevidas). Em farmacologia todos sabem: nos pequenos frascos se guardam grandes poções e já que a diferença entre o medicamento e o veneno pode ser a dose, é melhor prevenir do que remédio dar.

Parafraseando, em portunhol, um conhecido em política: Hay que hacer política, pero sim assoberbar-se o perder-se en la imensidón de las ideas vazias jamás.

* Pensador e escrevinhador
(torveliodeoliveira@gmail.com
http://torveliodeoliveira.blogspot.com)

 

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de julho de 2008
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