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Memórias de um Francisco seringueiro |
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Francisco Alves de Souza Machineri tem 66 anos, 22 filhos, 18 netos e uma história de vida que se confunde com a própria história do Acre. É um desses heróis anônimos que, sem exigir quase nada, passou a vida protegendo nossas fronteiras nos confins da Amazônia. Nasceu em 1939, começou a cortar borracha em 1947 com oito anos de idade incompletos. Sem esconder uma ponta de saudade lembra que: “Naquele tempo, depois da guerra, a borracha já não dava muito dinheiro, mas o pouco que a gente pegava valia muito, dava pra comprar muita coisa e a gente sempre tinha dinheiro no bolso”. O trabalho exigia muito suor e dedicação saindo de casa à uma ou duas horas da manhã para riscar as árvores, andavam uma média de 18 quilômetros para colher duas ou três estradas, comiam uma farofa ou pão de milho que levavam para refazer as forças no fim da linha. Voltavam recolhendo o leite e defumavam lá pelas três da tarde, encerravam o dia dando uma tarrafeada para pegar o peixe da janta ou indo para a espera a fim de matar uma caça. Era rotina comum a todos.
Os bons seringueiros tiravam mais de dois mil quilos de borracha. Segundo Francisco um irmão seu colhia a média de 2.600 quilos por ano ali no seringal São Francisco, margem do rio Acre, acima de Assis Brasil. Festa no seringal - “Eu cortava, só não era dos melhores, mas quando a gente baixava o Iaco pra receber o saldo em Sena Madureira, os seringueiros faziam uma festa tão grande que chegavam a lavar a rua com cerveja”, relata os tempos de fartura. Mesmo com dinheiro no bolso, o isolamento não permitia que tivessem instrumentos musicais que acabavam sendo improvisados para animar festas nos seringais. “A gente cortava a sola de um sapato de seringa, esticava bem e prendia na boca de uma panela para fazer assim, o modo de um tambor. Com um prego e um ralo a gente fazia o reco-reco para marcar o compasso do forró pra dançar a noite inteira. Era uma beleza”. Francisco complementa: “Hoje em dia o pessoal tem violão, sanfona e até teclado, mas naquele tempo a gente não tinha nada disso. Baixar da cabeceira do Iaco para Sena Madureira era quase um mês no remo pra acertar as contas, não tinha motor, não tinha rádio, não tinha nada, mas a gente viva feliz”. Ainda na infância, em seu “Paraíso Perdido”, conheceu o medo pelas notícias que chegavam contadas pelos que tinham ido à cidade e ouvido de outros as histórias terríveis sobre a guerra. “Eles diziam que os alemães iam acabar com os seringais e matar todos os seringueiros porque nosso povo estava dando força pro Brasil e os americanos que lutavam contra eles”. Quanto à política, as versões que chegavam aos seringais às vezes eram um tanto distorcidas. “Lembro que o Getúlio foi um bom presidente, ficou no governo 18 anos e ajudou muito os pobres. Quem venceu a guerra contra a Alemanha foi o Oscar Passos, por isso votei nele pra senador. Deixei de votar quando ele saiu da política. Só fiz meu título de novo para votar no Jorge Viana, votei nele duas vezes, mas agora que ele vai sair do governo acho que vou parar de votar de novo. Também votei no Manoel de Assis Brasil e no Tião Viana, que é gente boa.” Mas, em política, as alegrias e decepções se revezam como no dia a dia da vida. Francisco expressa a vontade de ver eleito para a Assembléia um representante de seu povo. “A gente queria que o Sabá Machinéri fosse candidato, mas não deixaram, rejeitaram a gente que é índio, tem candidato de outras tribos, mas machineri não tem. O Sabá é mais preparado, foi até presidente da Coica representando os índios da Amazônia inteira. Por isso ainda estou pensando se a gente vai votar neste ano”. Idas e vindas - Aos 66 anos, Francisco Machineri sai da aldeia Extrema na Terra Indígena Mamoadate, cabeceiras do rio Iaco junto à fronteira com o Peru para ir até Assis Brasil a cidade mais próxima. “No inverno desço dois dias de barco e mais dois dias a pé para chegar na cidade, agora no verão é mais fácil porque as toyotas vão até o Icurian, então só gasto dois dias e meio pra chegar aqui. Por causa dessa distância já perdi três meses da aposentadoria quando estive doente e não pude vir à cidade. Pra nós a coisa não é fácil, nunca foi”. Na aldeia ele cuida do roçado, 16 cabeças de gado, porcos galinhas e ajuda no projeto de preservação dos tracajás cuidando de mais de 2.600 filhotes nascidos no ano passado: “Antigamente a gente ia pra praia, à noite, e escolhia qual tracajá queria pegar, bastava virar elas de costa e voltar depois para recolher. Tinha muito ovo, mas hoje tudo ficou pouco e se a gente não ajudar eles a criarem de novo, não vai ter mais tracajá. Hoje tem mais gente e a comida está ficando pouca, o mundo mudou muito”. |
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