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Alzheimer: o tratamento é o amor Médica Vânia Lúcia cuidou da mãe Thereza até o fim |
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Doença incurável, só resta uma coisa a fazer: cuidar do paciente, com muito amor e carinho, o que contribui para retardar a degeneração, prolongando e tornando mais confortável o tempo de vida que resta ao doente. Os membros participantes da regional acreana da Associação Brasileira de Alzheimer e Doenças Similares (Abraz-AC), em sua maioria profissionais da saúde e familiares de portadores da DA, puderam acompanhar, desde o surgimento da entidade em 2004, o caso de Thereza Cruz de Sousa, portadora de DA, e o carinho com que foi tratada nos últimos anos pela família, especialmente a filha, médica Vânia Lúcia Prado e Sousa. Thereza morreu no último dia 13 e recebeu várias homenagens póstumas dos amigos e membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Mórmons), que ajudou a trazer para o Acre em 1986. Os membros da igreja relembraram o quanto Thereza foi importante na implantação em Rio Branco, tendo ajudado muitos irmãos na fé. Ela deixou quatro filhos: Vânia, Margarete, Silvestre e Wilson. Para a presidente da Abraz-AC, gerontóloga Mariazinha Leitão, a história de dona Thereza e a dedicação da filha Vânia levam a uma conclusão: a Doença de Alzheimer não tem cura, mas tem tratamento, que é o amor. “Vânia se esqueceu de si mesma para cuidar da mãe”, disse. “Mesmo com todo o trabalho que a mãe lhe causava, Vânia amava e queria sua presença. Pude presenciar sua paciência e amor com ela, que chegava a gastar duas horas tentando fazer com que a mãe se alimentasse. Com sua experiência, Vânia é de fundamental importância para a Abraz. Muito mais que um laboratório de boas informações, ela é um exemplo a ser seguido.” Cuidando com amor A Abraz-AC foi fundada em 2004. Estimativas apontam que 1% da população mundial na faixa de 65 anos acima é atingida pela doença. No Brasil, quase um milhão de idosos padece da doença e no Acre ainda não se tem um levantamento exato de seu alcance. A Abraz tem atuado no sentido de estabelecer relações entre parentes de pessoas com problemas de DA em família e capacitação de cuidadores, estabelecendo assim um círculo de solidariedade e ajuda mútua. Nos encontros, a presença da médica Vânia Lúcia era sempre a certeza de um ensinamento profundo. Sua experiência ao cuidar da mãe tem servido de farol para outros que passam por provas semelhantes. Vânia que se formou na Universidade Federal da Paraíba. De volta ao Acre, trabalhou em Extrema, Sena Madureira e Rio Branco, no Pronto Socorro e Hospital Infantil. Teve que se mudar em 1994 para Campinas (SP) a tratamento de saúde e levou a mãe, também doente. Chegou a levar dois sobrinhos para fazer companhia à mãe. Em 1998, Vânia entendeu que sua mãe já não era a mesma. Thereza, que era profundamente amorosa com os netos, passou a rejeitá-los. “Ela me queria só para ela”, explica. “Dava para notar que ela já não era aquela mesma pessoa carinhosa, gentil, que amava tanto os netos. Houve uma mudança de personalidade. Surgiu uma espécie de paranóia.” Com a evolução da doença, a dependência se intensificou. Thereza mostrava cada vez mais medo de ficar sozinha, de andar na rua, tinha síndrome de pânico e não queria mais sair de casa. Só queria ficar com Vânia e não aceitava as pessoas que eram colocadas para cuidar dela. Em 1999, Vânia, retornou ao Acre para que os irmãos a ajudassem na difícil tarefa de cuidar da mãe tendo em vista que precisava trabalhar e a mãe não deixava. Pouco adiantou: Thereza continuou recusando o atendimento por outras pessoas, até mesmos parentes. “Ela passava o dia reclamando. Quando eu chegava, dizia: ‘Fulano não fez isso, não fez aquilo’. Que nada, era tudo criação dela.” No final de 99, Vânia foi para Brasília cursar mestrado, levando a mãe. Foi uma carga enorme. Era um drama para Vânia conseguir assistir às aulas na universidade e contornar o desespero de ver a mãe cada vez mais atingida pela doença e não querendo ficar sozinha ou com as pessoas destinadas para cuidar dela. Vânia tinha que dormir em casa, e à noite, preparando-se para as aulas em frente a um computador, era constantemente interrompida pela mãe, a essa altura inteiramente dependente de sua atenção e carinho. Em 2001, Silvestre, um dos irmãos de Vânia, ficou doente e o fato abalou ainda mais a mãe, que teve o quadro piorado. Resultou que Vânia teve que abandonar o mestrado e foi para Minas Gerais, onde passou dez meses exclusivamente cuidando da mãe, que no período não aceitava mais ninguém. Quase à beira da exaustão, Vânia foi socorrida pelo próprio Silvestre, que durante o ano de 2002 cuidou de Thereza. No período, Vânia ficou trabalhando no Programa Saúde da Família, já no Acre. “Eu precisava me afastar um pouco dela. Estava exausta, muito estressada e muito cansada. Ela não deixava a gente dormir”, lembra. A partir de 2002, Thereza foi ficando mais serena e já aceitava as pessoas colocadas para ficar com ela. “Eu chegava em casa ao meio-dia e ela me dizia: ‘Ninguém me deu nada para comer até agora. Estou até essa hora sem almoço’. Mas eu sabia que ela já tinha almoçado. E então eu colocava a mesa. ‘Mamãe, vamos almoçar juntas, então’. Quando eu saía à tarde, ela dizia: ‘Já vai sair de novo?’. Ela ficava sentada esperando minha volta. Quando eu chegava, ela dizia: ‘Minha filha já chegou’. Ficava abraçada comigo, assistindo televisão, até a hora de dormir. Ela ficou mais calma e eu pude tocar minha vida profissional.” Com tudo isso, a demência foi se aprofundando. Thereza foi ficando mais taciturna, calada, e não queria mais andar. Passou a não querer mais comer e a comida tinha que ser dada em sua boca. A dependência ficou mais profunda e alguém tinha que ficar o tempo todo assistindo. Enquanto isso, Vânia permaneceu sempre vigilante em relação aos cuidados com a alimentação e os remédios. Isto até o dia 13 de agosto, quando Thereza expirou. Vânia se diz disposta a continuar solidária com as atividades da Abraz, levando sua experiência como cuidadora para outras famílias. Emocionada conta: “Sei o quanto sofri e o quanto a família sofre. Guardo de minha mãe a lembrança de sua alegria, sua beleza e elegância. Entendi, pela leitura do diário dela, o quanto ela era consciente do que estava se passando com ela, do seu próprio sofrimento e sua luta para controlar a doença. Ela também tinha noção de que sua dependência a mim prejudicava minha carreira. Quero ajudar aqueles que passam pelos mesmos problemas e agradeço a solidariedade de todos que me ajudaram”. O diário de Thereza No período de 1993 a 2000, Thereza escreveu um diário. Nele, ela expressou seus sentimentos ante o sofrimento e a luta para controlar a demência que se instalava irreversível. O texto é uma importante fonte de informações sobre o gradual processo de degeneração a que é submetido o paciente de Alzheimer. De maneira bastante resumida, seguem trechos do que foi narrado. 13 de setembro de 1993 31de janeiro de 1995 18 de março de 1995 7 de fevereiro de 1996 Não tenho dormido e tenho dispnéia à noite. Emagreci bastante e mal posso olhar para a alimentação. Só estou tomando chás. Não morri ainda, estou com 66 anos... e parece que serei eterna. Mas os sofrimentos não matam, pois continuo viva. Não sei se voltarei ao Acre, mas desejo ardentemente fazê-lo. Mas claro que isso está nas mãos do Pai Celeste. 25 de março de 1996 25 de junho de 1996 (Em Caldas – MG) 24 de março de 1997 4 de setembro de 1997 7 de setembro de 1997 25 de fevereiro de 1998 26 de março de 1998 15 de abril de 1998 23 de abril de 1998 Junho de 1999 (Em Rio Branco) 18 de outubro de 1999 2 de agosto de 2000 (última anotação no diário, em Brasília) |
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