OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

As linhas do sonho

Desde que nasceu... Tiawa era diferente. Ainda pequeno sua mãe o achava meio aluado, desligado de tudo que acontecia ao seu redor, como se vivesse em outro mundo desconhecido para nós outros. Preocupada que a tribo não percebesse essa coisa esquisita, esse olhar estranho que atravessava a gente, sua mãe procurava sempre escondê-lo. E se os velhos decidissem mata-lo??? Não era isso que mandavam os espíritos ancestrais? Matar todas as crianças que trouxessem sinais estranhos que pudessem significar danos para a tribo, ou aquelas que por defeitos de nascimento não demonstrassem poder sobreviver sozinhas desde muito cedo? Por isso o escondia e protegia. De alguma forma ela sabia que esse pequeno menino que recebeu o nome de uma estrela, Tiawa, que já havia pertencido a seu avô, era diferente dos outros e por isso mesmo importante. E assim acreditando o criou...

Antes que os outros pudessem perceber, o menino cresceu, e apesar de demorar muito mais que as outras crianças a falar, com o passar do tempo ficou parecido com uma criança qualquer, que naqueles tempos de fartura eram muitas. Os homens se preocupavam com esse aumento da tribo. Em alguns anos faltaria comida para alimentar a todos. A não ser que algo extraordinário acontecesse. Mas os deuses estavam mudos. Havia muitos anos, desde que o velho xamã Nacu morrera, que ninguém mais falava a língua dos antigos. Nem nas festas em que bebiam o vinho das almas, os espíritos falavam mais.

Mas Tiawa não se ocupava das preocupações dos mais velhos. Não dava atenção aos assuntos dos outros meninos tão pouco. Tiawa sonhava. Todas as noites Tiawa tinha sonhos maravilhosos, com coisas extraordinárias que nem sabia contar, só sabia que acordava cansado como se tivesse corrido a noite inteira. Outras vezes Tiawa sonhava com coisas estranhas, tenebrosas, aterrorizantes e nesses dias acordava ainda mais cansado. Talvez por isso, quando não estava dormindo, Tiawa estava sempre sonolento. Andava aos trambolhões, com os olhos pesados, parecia mesmo que dormia acordado e sonhava. Ainda que com olhos abertos Tiawa sonhava, do mesmo jeito que dormindo, com coisas extraordinárias ou com coisas aterrorizantes, mas sonhava.

Logo os meninos se cansaram de Tiawa, nem gostavam mais de mexer com ele dizendo que era fraco e não agüentava correr ou nadar ou fazer o que os meninos de sua idade faziam. Mas Tiawa nem ligava pros outros meninos. Como também não lhe incomodava sonhar. Pelo contrário, mesmo durante os sonhos mais terríveis Tiawa sentia que sonhar era bom e só se sentia bem enquanto sonhava, fosse dormindo, fosse acordado. “E assim acreditando se fez”...

Conforme Tiawa crescia, seus sonhos foram ficando cada vez mais intensos. Ouvia muitas vozes misturadas nos sonhos. Não conseguia entender o que diziam. Sabia que eram muitos e falavam de muitas coisas. Uns cantavam, outros contavam histórias de outros tempos de antes, outros falavam línguas que nunca ouvira antes. Mas como todos falavam ao mesmo tempo Tiawa não entendia nada. Assim, nos sonhos, Tiawa se guiava pelo que via. Toda vez que tentava ouvir, se perdia, mas quando conseguia ficar atento ao fluido e mutável mundo com que sonhava, conseguia achar o caminho que lhe permitia estar em segurança. Assim Tiawa via seus sonhos.

Curioso é que nos sonhos de Tiawa a paisagem era sempre a mesma da terra em que vivia, um imenso e árido deserto de terras vermelhas. Mas o céu, esse sim era diferente do céu intensamente azul e seco que cobria as terras vermelhas e secas de sua tribo. O céu com que sonhava Tiawa era mais vermelho ainda que a terra. Um céu de sangue, que longe de lhe provocar medo, o enchia de um estranho e desconhecido sentimento que acalmava seu coração.

Um dia Tiawa sonhou que uma estrela correu pelo céu, errante, rasgando o tecido vermelho que cobria tudo o que havia acima e de lá caiu sangue abundante, muito sangue, como chuva nas tempestades que só muito raramente atingiam o lugar onde ele vivia. Só uma vez ele havia visto uma chuva tão forte como essa e ela trouxe muitos problemas: os animas fugiram, a terra se encharcou e as correntes formadas a flor da terra arrastaram casas e coisas. Então na terra de Tiawa a chuva não era boa, era má e causava muitos danos. A chuva de sangue de seu sonho não podia ser boa, então. Mas como para-la? Não havia jeito de fazer parar de escorrer sangue do rasgo da estrela no céu e toda vez que Tiawa sonhava estava chovendo ainda.

Mas então algo estranho aconteceu na Tribo. Nazca, um dos mais fortes e ativos jovens ficou doente. Sem nenhum motivo faltou forças a Nazca e ele queimava mais que o sol sobre a terra vermelha e árida. Neste dia choveu ainda mais no sonho de Tiawa. E ele já estava cansado de tanto sangue. Já nem queria mais sonhar quando pela primeira vez ouviu uma voz só em seu sonho. Uma só voz nítida e clara. Pela primeira vez todas as vozes se calaram e só essa voz se ouviu. Era a voz do velho xamã Nacu e lhe dizia pra curar o céu e salvar Nazca, porque aquele sangue que caia era o sangue de Nazca e assim ele iria morrer. Tiawa não sabia como curar o céu, mas não ouviu mais nada. Teve raiva então. Tanta raiva que bateu no chão com força e soltou a casca seca da terra árida. A terra vermelha de sol e vento, era mais clara em baixo, amarela, e quando cavou mais e a terra ficou bem branca a chuva de sangue diminuiu. Tiawa que tinha prestado bastante atenção no rumo da estrela errante, começou então a cavar o chão, virando pedras, usando as mãos, até aparecer a terra branca que havia por baixo da terra vermelha como sangue. E quanto mais Tiawa riscava o chão deixando-o branco no mesmo caminho e rumo da estrela errante, menos chovia. Parecia que o céu e a terra eram um só e curar a terra era também curar o céu. E assim acreditando sonhou...

Quando Tiawa acordou ficou surpreso. Toda a tribo estava alvoroçada, todos falavam ao mesmo tempo. Uns riam, outros choravam, outros cantavam ou dançavam. Nazca tinha ficado bom. Nada mais sentia e falava animado de como havia sonhado com a morte. Além disso, desde cedo muitos viram que o extenso campo que havia bem em frente da aldeia, no rumo do poente, havia amanhecido riscado. Alguém tinha tido o imenso trabalho de riscar uma grande linha, virando rochas e desvirando o solo vermelho até revelar a terra branca que ficava por baixo. Uma grande linha reta e branca, riscando o espaço de todo o campo, até perder de vista. Quem teria feito aquela doidice? Por que alguém se daria a esse trabalho? Seria talvez um caminho que os deuses traçaram aqui na nossa terra tão seca e tão vermelha? Mas não levava a lugar nenhum esse caminho.

Tiawa viu toda a confusão e compreendeu que aquela linha no chão era a linha que tinha feito no sonho, marcando o caminho percorrido pela estrela errante, mas não podia contar pros outros. Não porque não fossem acreditar, mas porque iam saber que Tiawa ouvia as vozes no sonho e seria então obrigado a se tornar Xamã e passar o resto da vida tentando ouvir os espíritos ancestrais pra resolver os problemas de cada um. E Tiawa não queria saber dos assuntos de todos. Apenas queria sonhar. Por isso ninguém ficou sabendo sobre a cura do mal de Nazca e nem como surgiu o risco na terra.

Outra noite Tiawa sonhou que andava no vale e um beija-flor azul parou em frente aos seus olhos. Por instantes Tiawa viu nos olhos do beija-flor que o dano estava próximo e era muito grande. Logo o beija-flor partiu voando rápido. Tão rápido e tão alto que furou o céu vermelho e começou novamente a chover muito sangue pelo furo do céu. Estranho, era um furo pequeno, tão pequeno quanto pode ser um beija-flor, mas por esse furo no céu caia muito mais sangue do que na chuva de Nazca. Logo uma grande inundação alcançou todo o vale. Tiawa cavou o chão, no lugar do furo do céu até suas unhas sangrarem aumentando ainda mais a chuva de sangue que o céu chorava. Naquele dia Tiawa acordou mais cansado do que nunca havia se sentido em toda sua vida. E quase no fim do dia um vento grande chegou trazendo um estranho temor em todos. Homens, mulheres, jovens, crianças, todos se esconderam mais cedo em suas casas e o dia terminou estranho. Chovia muito no sonho de Tiawa então.

Algumas pessoas acordaram sentido um dano no corpo. Estavam cansadas, sem conseguir sair do fundo da rede, nem respirar o suficiente. Os dias passaram e muitas pessoas sentiram o dano estranho. Os pequenos mais que os grandes. Com os dias muitos pequenos morreram. Tiawa não podia mais entender, dessa vez a terra não curara o céu. O que podia fazer, então? Mais uma vez Tiawa sonhou e em seu sonho escutou a voz do velho Nacu que lhe disse pra contar aos outros sobre o beija-flor. Tiawa não gostou, não queria falar de nada do sonho pra ninguém, mas Nacu nada mais falou. Ao acordar Tiawa sabia o que tinha a fazer. E assim acreditando contou...

Tiawa falou pra todos da tribo o que aconteceu com Nazca e as coisas que o velho Nacu lhe disse. Entenderam então o que tinham que fazer. Mas o dano era grande e atingia a muitos. Por isso, foi com grande sacrifício que a tribo foi até o vale do sonho de Tiawa e começou a cavar e riscar o chão até formar um beija-flor branco, igual ao visto por Tiawa, mas grande o suficiente pra ser visto desde o céu onde o espírito do beija-flor havia se escondido. Nessa noite não choveu mais no sonho de Tiawa e ele entendeu que o dano havia partido. Sorriu ao ver que o grande beija-flor branco que seu povo havia feito na terra vermelha também estava no céu vermelho de seu sonho. Só então percebeu ali o risco de luz que ele tinha feito no caminho da estrela errante e ficou feliz. O céu de seus sonhos era agora infinitamente mais belo, porque nele havia muitos desenhos de luz branca iluminando o peso do céu vermelho de sangue. O povo de Tiawa também ficou feliz porque sua terra vermelha e árida era agora marcada por grandes desenhos brancos, feitos em honra aos espíritos ancestrais para afastar os danos da tribo, tornando aquelas terras infinitamente mais belas.

As outras tribos, que viviam do outro lado da montanha, estranhavam aquele povo que riscava o chão desenhando longos caminhos retos ou em círculos, imensos macacos, pássaros gigantescos e outros espíritos e seres misteriosos, sem explicar a ninguém porque assim o faziam. Apenas diziam que o céu e a terra são uma só nos sonhos. E assim acreditando viveram...

Por absoluta falta de espaço, na semana que vem eu explico o que essa história tem a ver com a arqueologia acreana...

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de agosto de 2007
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