OPINIÃO
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Renan Calheiros *

 

Nasceu homem, morreu menino

Ele foi um homem que teve uma relação complicada com o tempo e, talvez por isso, fosse muito precoce. Aos 12 anos de idade, era locutor de rádio e, aos 17, já escrevia contos e novelas. Até que ele mandou a primeira delas, “A Marca”, para Mário de Andrade, a figura literária da época. O grande escritor respondeu em seguida com uma carta de duas páginas, dizendo que ficou estupefato e desnorteado com tal obra. Fernando Sabino, que nos deixou às vésperas de completar 81 anos no último dia 12 de outubro, publicou quatro romances ao longo da vida, “O Encontro Marcado”, “O Grande Mentecapto”, “O Menino no espelho” e, recentemente, “Movimentos Simulados”, que escreveu aos 20 anos e manteve esse tempo todo na gaveta.

Quando publicou “O Encontro Marcado”, em 1956, Sabino já era um cronista e jornalista conhecido, mas foi o romance, um dos grandes livros brasileiros do século XX, que lhe garantiu um lugar indiscutível na história de nossa literatura. Naquele ano, em que Guimarães Rosa legava ao Brasil a obra-prima “Grande sertão, veredas”, muitos preconizaram o nascimento de um dos maiores nomes da literatura brasileira. Sua produção em crônica, obviamente muito mais numerosa, parece resistir ao tempo mesmo nas páginas efêmeras da imprensa.

Ao lado de nomes como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino é um dos expoentes da crônica moderna, definida por um certo ar de gratuidade na escrita que a permite penetrar poesia adentro. Sabino soube explorar como ninguém estas características em seus textos. Suas crônicas — mais do que as de qualquer outro escritor — estavam despidas de preciosismos formais: textos nus como o personagem de uma famosa história sua. A economia na escrita, que contrasta com os estilos grandiloqüentes de outros autores, é a marca de um cronista que, segundo testemunho próprio, olhava para fora de si quando procurava assunto para escrever.

Era avesso a comemorações, vivia afastado dos holofotes e se mantinha arredio às homenagens, não porque era recluso ou tímido, mas porque preferia o contato com porteiros, garçons, manobristas, moradores de rua - gente comum, que fornecia munição para suas crônicas. Para ele, o ser humano tinha como tarefa “recuperar a inocência perdida e tornar a olhar o mundo com os olhos lavados de pureza, de quem vê a vida pela primeira vez”. Juntos, Fernando Sabino e Rubem Braga, fundaram a Editora do Autor em 1960 e, em 1967, a Editora Sabiá, um dos grandes baluartes da resistência aos anos de chumbo daqueles tempos.

O último dos “quatro mineiros do apocalipse” formou com Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos a mais produtiva e intensa amizade da literatura brasileira. Desde cedo, pedira que em seu epitáfio constasse a inscrição: “Aqui jaz Fernando Sabino, nasceu homem, morreu menino”. Pois bem, Sabino, você que tanto resistiu a virar um imortal em vida, agora tem um encontro marcado com a eternidade. Pena que nossa literatura nunca mais será a mesma sem você.

* Líder do PMDB no Senado e ex-Ministro da Justiça

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de outubro de 2004
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