| ESPECIAL | |
| ALMANACRE | |
| Elson Martins | |
Ao ler notícias sobre a escritora Lucia Pereira, do Rio Grande do Norte, sobrinha-neta do poeta Juvenal Antunes (1883-1941) que viveu 20 anos como hóspede do Hotel Madrid em Rio Branco, enviei um e-mail pedindo mais informações sobre seu parente ilustre. Abusei um pouco e pedi, também, uma colaboração para esta página. Sexta-feira, 17, ela respondeu com carinho e sentimento. E me surpreendeu enviando poemas de sua lavra. Caramba! Lúcia, 61 anos, tem a mesma veia poética do tio-avô!. Leiam, por exemplo, Sem Tema, que ele produziu em abril: Trago no rosto as purpurinas de ontem Algo de bom e caloroso está acontecendo em nosso Acre neste fim de 2006, que nos deixa confiantes de que em 2007 será melhor ainda. Penso nas coisas do coração e da alma que estão reaparecendo, devagarzinho, mas com identidade forte. Afirmo isso com a convicção de quem viu coisa parecida nos anos setenta e oitenta, de Wilson Pinheiro, Chico Mendes, Hélio Melo, Beto Rocha e tanta gente mais. A novelista acreana Glória Perez com sua mini-série Amazônia –de Galvez a Chico Mendes, ainda em fase de produção, nos faz bem; o jornalista Altino Machado ecoa em seu blog com cheiro de mato; o Toinho Alves anda à espreita, dando seu toque de gênio; e tem uma pá de políticos de boa geração fazendo sua parte. Os artistas, os jovens e os sábios da floresta revelam a tendência de trabalhar a memória antiga como parte dela. Dá pra ver isso na música, nas artes plásticas, na literatura e no teatro que felizmente começa a renascer por aqui. Estarei exagerando? Se a resposta é sim, desculpem a leseira. Vamos, então, à carta-resposta da Lúcia Pereira: Escritora promete livro sobre Juvenal Antunes “ Prezado Elson, Pode me chamar por “você”, já tenho 61. Escrevo desde os 12 anos (o que é sempre um enorme prazer). Para falar sobre tio Juvenal e vovó Madalena? Eu farei isso na próxima semana com mais horas livres. Meu neto e nora viajarão a uma e meia da madrugada de amanhã (sexta – feira, 17 de novembro) e estou muito tensa. Vão para a AUSTRÁLIA em Sidney, onde o meu filho Renato se encontra. Serão dois anos sem esses meus grandes pedaços. Glória Perez (extraordinária mulher das letras) é autora da minissérie Amazônia, onde o ator Diogo Vilela interpretará meu tio Juvenal, que era um boêmio inveterado, um celibatário nato e, acima de tudo, um nobre POETA. Ele deixou De Cismas e Acreanas. Mas foi bastante decantado pela Academia Acreana de Letras e, também, aqui no Rio Grande do Norte ele foi muito bem enfocado por Esmeraldo Siqueira, autor do livro, “O BOEMIO INOLVIDÁVEL”, pelo crítico literário Franklin Jorge Roque e por mim. Em 1998 autografei, em alto estilo, com o respaldo de Roberto Pereira Varela (falecido em 04-10 recente), à época Prefeito de Ceará – Mirim em seu segundo mandato, a Breve Coletânea de Juvenal Antunes, que elogiava a preguiça, era poeta, boêmio, irreverente, norte - rio - grandense e amava Laura. Um título bem prolixo, mas era preciso para despertar a memória potiguar e norte - rio - grandense. Nesse meu livrinho publiquei muitos sonetos inéditos, outros conhecidos e os elogios de tio Juvenal: Elogio da Preguiça, Elogio do amor livre, Elogio da Velhice, Elogio da solidão e o fabuloso Elogio da Ignorância. Esse soneto foi uma espécie de homenagem à “ingenuidade” de Laura que não sabia ler ou escrever (outros faziam isso por ela). Tio Juvenal se inspirou numa cena onde acabara de se declarar, em versos (como inúmeras vezes) à Laura. Ao terminar, Laura bateu palmas e disse: “Ah! Juvená, tu és um Nero”. E ele, cheio de arrebatamento intelectual e uma certa decepção, respondeu zombeteiro e apaixonado: “E como sois burra, Laurinha! Sois a minha égua mais bela! O corcel maravilhoso e de trote mais macio”. Em seguida escreveu o Elogio da Ignorância, que é essa peça literária de valor inconteste (ver a seguir). Em breve lhe enviarei mais coisas sobre to Juvenal. Ele que viveu em Rio Branco e andou por esse Acre afora. Vou enviando a capa ,que é o Oiteiro pintado pela artista plástica Goreth Medeiros, e o meu prefácio da seg. edição do livro de vovó Maria Madalena Antunes Pereira (1958 - pela ed. Irmãos Pongetti), nesta nova edição pela “AS. LIVROS” e autografado por mim em duas bienais seguidas. Também envio duas fotos do tio Juvenal e uma da vovó Madalena, bem como a visão do solar Antunes, em Ceará - Mirim, construído pelo meu bisavô paterno, Cel. José Antunes de Oliveira. Estarei trabalhando com afinco no meu próximo livro sobre tio Juvenal. A Glória Perez (generosa e amável) sugeriu que o mesmo talvez possa ter um patrocínio e ser lançado durante as filmagens da minissérie. Que linda atitude dela ao homenagear o poeta da preguiça que era amigo do pai dela, Dr. Miguel Ferrante. Abraços, ELOGIO DA IGNORÂNCIA (Beati pauperes espiritu) Ignorância! Sê tu sempre bendita, É um sábio quem me diz: “Muito estudei, Certo, a maldade anda de par com a ciência; Despreza as letras, rude tabaréu! Galileu ante os padres se ajoelhou; E Sócrates, na mesma estéril luta, Creio que se Jesus sofreu horrores Eva pecou junto à árvores frondosa Terra de sábios, vede essa Alemanha! Congo, Bolívia, Haiti, Calábria, China, Ser jumento ou condor em nada influe Nas bibliotecas, livros aos milhões... Devem ficar de cólera bem roxas, Diante de proceder tão feio e abjeto, Sempre esbarra na dúvida e no engano, A civilização, pelo que eu vejo Sendo que, às vezes, ela é tão madraça, Homens! Examinai vosso progresso! To, ó Laura, mulher de poucas letras, Que pronuncias fia em vez de filha Em matéria de amor és tão constante, E, embora sejas grande em formosura, E aturas com paciência tão louvável, Que eu, como a ti nunca ninguém amei; JUVENAL ANTUNES
|
|
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |