COTIDIANO

Eu subi a montanha

Jipeiros acreanos vencem os 4.785 metros acima do nível do mar sobre a montanha de Huallahualla, a caminho de Cuzco


Bá e Dedé e seus jipes na Estrada do Pacífico rumo à aventura nos Andes peruanos

Juracy Xangai

“Fixei os olhos na pista, preferia não olhar para baixo porque parecia que alguns precipícios nem tinham fundo!”. O relato é de Demóstenes da Silva Gaudêncio, o popular Dedé, fiscal da Secretaria Estadual da Fazenda e um dos fundadores do Acre Jipe Clube.

Junto com seu parceiro de jornada Sebastião Roque Pontes Filho, o “Bá”, da Infograf e diretor de eventos do Acre Jipe Clube, eles encararam a aventura de cinco dias do V Rallly Bolpebra Amazônia - Andes junto com os jornalistas Juracy Xangai deste Página 20 e Alexandre, assessor de imprensa do corredor maranhense Ricardo Medeiros, campeão da categoria marathon do Campeonato Brasileiro de Rally 2006.

Seis jipes foram inscritos para o rally, mas no dia da partida lá estavam Bá, Dedé e Cid, este último foi só até Puerto Maldonado de onde voltou ao Acre. Dali por diante, seguem apenas dois vivendo a aventura de desbravar uma estrada que serpenteia por entre serras onde as cachoeiras caem ao alcance das mãos, grotões cobertos de densa floresta, ou pelos desertos, que em sua nudez apresentam a sensualidade das curvas e picos das altas montanhas cobertas por neves eternas.

Calor e frio se alternam no clima e no coração aquecido pela beleza das paisagens e na boa a colhida dos peruanos a gritar: “Brasileiros! Pelé, Ronaldinho!”, enquanto da janela dos jipes, vez enquanto voava uma mão de bombons variados para encanto das crianças campesinas.

“Nunca vi nada tão bonito nem tão perigoso em minha vida. É uma estrada pela qual ninguém deve se aventurar sozinho, pois tanto a altitude quanto o cansaço podem ser fatais diante das ameaças que nos espreitavam à medida que a gente avançava cada vez mais alto montanhas”, esclarece Bá um dos principais encarregados de desbravar as trilhas que desafiam os jiperios acreanos.

Depois de gastar praticamente dez dias para ir e vir de Cuzco a Rio Branco, Bá declara: “Nós participamos do rally como equipe de apoio para ajudar em qualquer emergência que se fizesse necessária na floresta ou na montanha. Isto nos deu experiência necessária para afirmar que nas condições em que se encontra a estrada hoje, tão estreita que não permite o cruzamento de dois carros e, principalmente, cercada de precipícios, ali não é possível realizar qualquer competição sob o risco de causar ou sofrer uma tragédia”.

A participação no Rally, principalmente com a vinda das grandes equipes de renome nacional e internacional, funcional como oportunidade única para que os representantes dos jipeiros ganhassem experiência no preparo de eventos dessa natureza. “A viagem nos mostrou que além da boa vontade e do conhecimento do terreno, para realizar uma prova deste tipo é necessário planejar pensando antes em cada detalhe, simulando situações e soluções para problemas que problemas que poderão ocorrer, ou não. Tudo isso será importante para o planejamento das próximas provas que organizaremos no Acre”.

Quanto ao passeio em que se transformou a disputa, ele foi taxativo: “Eu tinha um plano enorme para conhecer um montão de coisas, mas percebi que precisaria de muito tempo porque há mais do que podia imaginar. Entendi que para aproveitar melhor uma viagem a Cuzco é preciso estudar mais sobre a história e a cultura daquele povo, assim a gente valoriza melhor a oportunidade. Aqui no alto da montanha me senti mais perto de Deus”.

Altas emoções

Dedé relembra com um certo calafrio na barriga os vales íngremes e paredões junto aos quais o carro tinha de passar para atingir seu destino. “Eu sabia que essa seria uma viagem bonita e perigosa, então tive que vencer meu próprio medo interior, não foi fácil”, admite.

No alto do Huallahualla sentiu a força do soroche, o mal das alturas, que costuma por a nocaute quem não está adaptado a viver numa altitude de 4.785 metros como a dali. Os nativos da região construíram ali uma capela onde cultuam o Señor de la Cumbre, numa referência sobre o poder de Cristo também sobre a altitude das montanhas.

Por tradição, os viajantes param ali, fazem uma oração, em seguida, empilham algumas pedras sobre as outras, na construção simbólica de uma capelinha nas quais depositam seus pedidos de segurança na viagem a fim de rever a família que ficou em casa. Nem todos conseguem a graça.

Mas temores à parte, Dedé declara: “Lá em cima me lembrei de minha esposa e filhos, senti que estava em comunhão com Deus. Então agradeci pela oportunidade de ver um mundo novo à minha frente. Quase voltei de avião, se tivesse feito isso teria perdido a melhor parte da viagem, a travessia do vale de Ausangate cheio de neve e com uma gente que parece viver num tempo perdido há mil anos. Foi o melhor presente que poderia ter recebido”.

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de novembro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
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Da Redação
 
 
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