ENCARTE ESPECIAL

Entre o céu e a terra

Mais que uma disputa válida por três campeonatos, o Rally Bolpebra consagrou-se numa aventura inesquecível

 


Juracy Xangai

Simplesmente maravilhoso. Assim poderia ser resumida em duas palavras a aventura vivida pelos 52 pilotos, mais equipes de apoio, durante a maior competição fora de estrada já realizada na Amazônia, único no mundo a percorrer em seu trajeto florestas úmidas, montanhas selvagens, desertos, picos nevados e pastagens naturais.

O som dos motores acelerados misturava-se ao murmúrio dos rios que corriam por entre os pedregais ou estrondavam em cachoeiras que caíam à beira da estrada. Nas montanhas, mais que os precipícios a espreitar junto à pista estreita, o “mal das alturas” enfraquecia homens e máquinas levados ao limite da resistência.

Pentacampeão brasileiro e dos Sertões, disputando no momento o Campeonato Mundial de Rally, o piloto Jean Azevedo confirmou sua superioridade liderando o Rally Bolpebra Amazônia - Andes de ponta a ponta, vencendo os principais nomes da América Latina pela categoria Super Production.

Já o acreano Jefferson Cogo, que corre pela equipe Honda de Rondônia, fez as honras vencendo nomes de destaque nacional como Rodolpho Matheis, na categoria Production, a segunda mais importante do Rally. Também se destacaram pelo Acre os pilotos Riderson Rocha, Beto Silva e Oswaldo Dias com seu quadriciclo.

Mais que uma aventura carregada de suor e lama a quase 40 graus na selva antes de escalar os 4.875 metros do Huallahualla, onde a paisagem estonteante e o santuário do Señor de La Cumbre mostraram a todos que ali estavam mais perto de Deus.

Protegidos del Señor de la Cumbre

Diário de bordo

Capitaneando a organização e realização desde o primeiro Rally Bolpebra no ano 2000, o advogado Cassiano Marques tem no motocross uma fonte de prazer pessoal e meios para contribuir com a integração regional do Brasil, Peru e Bolívia através do Acre.

A aventura começa com a ousadia de realizar o V Rally Bolpebra, com um traçado que começou na planície Amazônia, para daí escalar os Andes com montanhas tão altas que parecem tocar o céu. A perícia e a resistência de homens e máquinas foram postas à prova trabalhando para vencer adversários dentro e fora da prova.

Os pilotos acostumados a pistas e estradas rurais tiveram a oportunidade de conhecer os ramais esburacados, as estradas de seringueiros, verdadeiras trilhas na floresta descendo íngremes barrancos para atravessar igarapés lamacentos e sem pontes. Sem contar que, além dos obstáculos naturais, chuvas passageiras cuidavam de deixar mais lisa a pista e o ar mais úmido para tornar o calor amazônico ainda mais sufocante.

“A floresta é sempre desafiadora ao mesmo tempo que encanta por seus mistérios e pistas que surpreendem a cada curva, a cada tronco atrás do qual o perigo espreita. Nela os trechos de especiais de alta velocidade ofereceram aventura, desafiaram a experiência dos pilotos, a resistência de suas motos. Nas montanhas só havia deslocamento porque a estrada estreita e os precipícios que beiravam cada curva não admitiam erros. Já o “mal das alturas” era o inimigo invisível que esgotava pilotos e reduzia a força das motos para menos da metade, testando os limites de cada um deles”, esclarece Cassiano.

E assim foram as especiais na selva, as travessias de rios pedregosos com suas águas murmurantes, serras cobertas de florestas a esconder profundos grotões como a Garganta do Diabo vizinho à capelinha do Señor de la Cumbre, réplica da que tradicionalmente cultuam depois os viajantes, no deserto de Huallahualla, a 4.785 metros acima do nível do mar, onde mais da metade dos pilotos teve de pedir ar às equipes de socorro. Assim foi até que todos chegassem à Praça de Armas, patrimônio da humanidade, localizada no centro de Cuzco, também conhecida como “Praça da Vitória” ainda nos tempos do Império Inca do Twantsuyo.

Jean Azevedo

Acostumado a percorrer o mundo em rallies que se sucedem por montanhas, desertos nos mais diversos ambientes, o pentacampeão brasileiro, Jea n Azevedo, já em Cusco foi enfático ao afirmar que: “Acho que nunca mais em minha vida vou ver uma paisagem tão linda pela qual passei durante este Rally Bolpebra. É simplesmente encantador”.

Quanto ao rally em sí, ele avaliou: “Foi uma prova muito bem disputada com pilotos demonstrando alto nível técnico e resistência para vencer o desafio imposto pela selva com sua umidade, calor e trilhas dentro da floresta, coisa que não é muito comum para nós. Creio que foi um grande aprendizado e este rally tem tudo para se tornar a grande disputa do Brasil integrado aos Andes”.

Campeão antecipado

“Volto para casa feliz por ter conseguido conquistar o Huallahualla e passar por seus vales maravilhosos. Em 2007 estaremos aqui de volta”, afirmou o piloto maranhense Ricardo Medeiros, que com os pontos conquistados durante o Rally Bolpebra conseguiu os pontos necessários para sagrar-se campeão brasileiro, por antecipação, pela categoria Marathon.

Acreano na frente

Sexto na classificação geral e primeiro na categoria production e primeiro campeão do Latino Americano de Motocross, o acreano Jefferson Cogo foi enfático: “Eu me preparei para esta prova, já conhecia o percurso, abri mão de meu lazer para treinar muito, fiz academia e reforcei a respiração. Se não vencesse ficaria frustrado. Faltou chuva para que nós da região tivéssemos alguma vantagem contra os de fora. Vencemos na raça. Mas tenho de admitir que o que me marcou foi a humildade dos grandes campeões nos respeitando”.

Vitória saboreada

Participando do Rally Bolpebra pela quarta vez, o piloto acreano Assis Francisco Araújo Lima realizou o sonho de levar para casa seu primeiro troféu. “Cheguei entre os primeiros da categoria Marathon. Para mim é mais que uma vitória porque nela estavam grandes nomes brasileiros como Ricardo Medeiros e Jean Pierre”.

Acidente

O piloto acreano Hamurabi Mesquita sofreu já na chegada a Puerto Maldonado um acidente grave batendo no lado direito de um táxi que seguia na contramão dele. O incidente o tirou da prova, mas, felizmente, sem maiores conseqüências que a dor e o inchado por alguns dias. “Os pilotos de fora vão conhecer o calor, a umidade e a lama que nos sufocam aqui. Iremos correr no cascalho solto que é um perigo, lá no lado peruano”, advertiu antes da partida.

Um terceiro acidente, este mais grave, aconteceu na saída de Puerto Maldonado para Mazuko, quando o piloto Júnior Teles, que ia fazer turismo em Cuzco e não estava inscrito na prova, chocou-se contra um caminhão, ficando gravemente ferido e teve de ser operado no hospital de Puerto Maldonado antes de ser transferido para o Acre.

24 de outubro, primeiro dia

Ainda em Rio Branco, aconteceu pela manhã a conferência e registro das motos pelas equipes representantes da União Latinoamericana de Motociclismo (ULM) e Confederação Brasileira de Motociclismo (CBM), já que a prova estava válida pelos campeonatos Latino, Brasileiro e Peruano de rally. À tarde houve o prólogo (teste de largada) no qual o pentacampeão brasileiro Jean Azevedo começou a mostrar porque é o melhor do país e um dos melhores do mundo.

25 de outubro, segundo dia

Da frente do Palácio Rio Branco os pilotos se deslocam às seis da manhã para a largada da primeira especial de média e alta velocidade. Partem 52 máquinas pela pista de barro amaciado pela chuva da noite. Novo deslocamento e aí acontece o primeiro acidente quando o piloto peruano Allan Schipper perde o controle da moto, cai, desloca a mão direita e deixando a prova a poucos metros da segunda especial. Nesta o piloto Jefferson Cogo passa reto por uma curva para aterrissar no pasto, fica apenas o susto e ele volta à prova em busca do tempo perdido. Depois de passar pelo Bujari, Porto Acre, Senador Guiomard, Capixaba, Epitaciolândia e Brasiléia chegam à praça de armas de Cobija na Bolívia para a premiação do dia.

26 de outubro, terceiro dia

Pouco depois das seis da manhã, o acreano Jefferson Cogo parte na polly position pelo ramal do Figueiredo, em Epitaciolândia, rumo a Xapuri e à casa Chico Mendes por entre fazendas para retornar de lá à Reserva Extrativista Chico Mendes que guardava no seringal Filipinas uma das trilhas mais selvagens e dita, mais emocionante, pelos pilotos. Saindo pelo Jarinal atravessaram a fronteira de Assis Brasil para Iñapari debaixo da chuva que fez lama lisa como sabão. Deslocaram-se 240 quilômetros pela estrada de terra onde homens e máquinas da Odebrecht trabalham o asfaltamento da Carretera Interoceanica pela Conirsa.

27 de outubro, quarto dia;

Depois do pernoite em Puerto Maldonado, partem para mais uma especial que se espraiou pela floresta cortada de igarapés até desembocar num goiabal cortado de trilhas confusas antes de retomar a estrada rumo a Mazuko passando pela elegante ponte sobre o rio Iñambari. No caminho a primeira serra, a garganta del diablo e a travessia pelas águas barrentas do pedregoso rio Dois de Maio. Na cidade, a população, especialmente as crianças faziam festa para receber os corredores para o pernoite.

28 de outubro, quinto dia;

Pouco mais de 250 quilômetros separam homens e máquinas do destino final da prova na imperial cidade de Cusco, mas é também neste trecho que está localizado o terrível Huallahualla com seus 4.785 metros de altitude estonteante em beleza e ar rarefeito. De Mazuko partem para Quincemil onde máquinas e homens trabalham alargando a estrada que serpenteia entre paredões e precipícios. Pelas montanhas já sem floresta chega-se a Marcapata, capital da pimenta, povoado cercada de fontes de águas quentes que brotam da terra.

Em seguida alguns povoados antes de chegar a Ocongate e depois Ccatcca trecho que exige cuidado com homens e máquinas que trabalham no asfaltamento da carretera. Dali chega-se a Urcos para finalmente chegar a Cusco onde autoridades e a população, apesar do sereno frio e do vento festejavam a chegada dos pilotos.

Valeu!

O apoio político do Ministério dos ESPORTE 20s, governos do Estado do Acre, departamento boliviano de Pando, departamento peruano de Puerto Maldonado e da cidade de Cuzco foi fundamental na articulação e realização da prova. O patrocínio de empresas como a Honda Star Motos e a transportadora Expresso Araçatuba, parcerias desde o primeiro rally, o apoio estratégico do consórcio Conirsa e mais particularmente, da construtora Odebrecht ao longo de todo o trecho peruano fizeram, deste rally uma consagração internacional pela integração latino-americana.

“A realização dessa prova sem acidentes e com a participação de alguns dos melhores corredores da América Latina e do mundo garantiu o sucesso do Rally. Mas também nos mostrou que fomos ousados ao realizar uma prova tão ambiciosa, que exige mais participação da iniciativa privada, um planejamento detalhado com muita antecedência. A próxima deverá se estender por mais dias para que seja menos estressante para pilotos e equipes, que se disseram encantados com o traçado da corrida e a paisagem. Enfim, todos aprendemos muito nessa aventura bem-sucedida”, afirmou Cassiano.

Soroche

Integrando a equipe de apoio do rally, o cabo bombeiro Fábio Silva Albuquerque teve a oportunidade de conhecer as lindas paisagens e foi apresentado ao mal das alturas. “Atender lá naquela altitude foi uma coisa inesperada para mim. Um piloto peruano desmaiou, corri uns 50 metros para socorrê-lo, quando cheguei lá, era um pouco de oxigênio para ele e outro para mim.”

Desbravadores

“Coelho” ou, oficialmente, abre trilhas. Essa é a função desempenhada por Bento Afonso de Moura para garantir a realização do Rally Bolpebra. “Primeiro a gente descobre as trilhas e depois, à custa de motosseras, machado e terçado, prepara para que os pilotos possam passar. Marcamos metro a metro cada detalhe na planilha que guiará os pilotos nas especiais, onde reina a emoção.”

Desafio vencido

O médico Paulo Fernando Stümmer aceitou o desafio de atender todo o rally acompanhado pelos socorristas Carvalho e Moreira, mais o motorista numa camionete traçada 4x4.

“Atender naquelas condições é muito difícil, mas felizmente tivemos apenas dois acidentes leves e um grave com um piloto que não estava na prova. Mas o ponto crítico acabou sendo Huallahualla, onde vários pilotos e membros das equipes de apoio passaram mal. Foi um novo desafio vencido.”

Apoio estratégico

Entre os 16 veículos das equipes de apoio, dois jipes pilotados por Bá Pontes e Dedé Gaudêncio acompanharam os 1.700 quilômetros da prova na expectativa de ajudar em qualquer emergência, o que felizmente não aconteceu. Assim, o serviço transformou-se num apreciar de paisagens.

Guerra esportiva

Uma verdadeira operação de guerra foi preparada para garantir a realização do Rally Bolpebra, que contou com o apoio do Exército do Brasil e da Bolívia. Além do apoio aos pilotos na floresta, militares brasileiros instalavam em cada ponto de descanso uma unidade de transmissão via satélite que permitia às equipes e à imprensa o acesso permanente à internet.

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de novembro de 2006
   GIRO GERAL
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