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Quebra essa castanha! Cooperativa está conseguindo realizar o sonho de melhorar o preço e industrializar a castanha, gerando emprego e renda |
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Juracy Xangai Pelo terceiro ano seguido a Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Estado do Acre (Cooperacre) devolve antes do vencimento do prazo o empréstimo tomado da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para realizar a compra e comercialização da castanha do Brasil. Mais de quatro mil famílias acreanas que se dedicam à coleta dessa castanha estão sendo beneficiadas direta ou indiretamente pela seriedade com que a Cooperacre trata seus negócios. Um dos reflexos positivos disso é a facilidade com que a cooperativa vem conseguindo novos empréstimos com valores cada vez maiores. Para os produtores esse dinheiro significa compra garantida e melhores preços graças à criação de uma concorrência pelo produto. Isto é fundamental para a economia dos que vivem na floresta, até porque, a não ser pela madeira, a castanha é o único produto extrativista que realmente dá lucro colocando dinheiro no bolso dos trabalhadores florestais. A compra e venda destas amêndoas movimentam mais de R$ 40 milhões por ano, no Acre que é o maior produtor do Brasil. Infelizmente, embora hajam duas fábricas construídas pelo governo em Xapuri e Brasiléia; mais duas privadas em Rio Branco, a falta de indústrias faz com que mais de 90% dessa produção vá gerar empregos e renda em Manaus, Belém e principalmente, nas cidades bolivianas de Cobija, Riberalta e Guayará-merin. Mas, isso é outra história. “O importante mesmo é que a partir do momento em que conseguimos dinheiro da Conab, pudemos garantir a compra da castanha com um preço mínimo. Isso gerou uma concorrência com os marreteiros que passaram a oferecer mais porque não podiam ficar sem o produto. O preço da lata de castanha pulou de R$ 5,9 em 2003, quando ainda não tínhamos dinheiro do empréstimo, para R$ 17,84 em 2005. Veja que o preço aumentou praticamente três vezes em três anos”, explica empolgado o superintendente geral da Cooperacre, Manoel Monteiro de Oliveira enquanto analisa os números na tela de seu computador. Mantendo os pés no chão, Manoel reconhece que o aumento no preço da castanha já atingiu o limite aceitável pelo mercado, ou seja, se subir muito mais que isso os clientes não vão comprar e os estoques encalharão. Por conta disso, o preço da lata de castanha ficou na faixa dos R$ 12,89 neste ano. “A tendência é de que fique nessa faixa a partir do ano que vem. Esse é um preço mais próximo da realidade, tanto para quem produz quanto para quem compra porque o mercado tem limites”. Distribuição da renda A grande vantagem do sistema, segundo o próprio Manoel está no fato de que antes de conseguirem os empréstimos subsidiados da Conab, as cooperativas compravam o que podiam com seus próprios recursos e alguns raros coletores entregavam sua produção para receber depois da venda. A grande maioria, na verdade, caía nas mãos dos marreteiros que pagavam o que bem queriam e, quase sempre trocando o produto por mercadorias que levavam da cidade a preços mais que elevados. “Sem garantia de preço nem de compra, os trabalhadores da floresta sofriam numa relação injusta com o mercado que esperava pela sua produção. O crédito concedido às cooperativas mudou essa relação, valorizou o produto e tornou mais justa a distribuição da riqueza gerada pela nossa castanha”. Melhor castanha da Amazônia As técnicas de manejo e armazenamento desenvolvidas pela Embrapa foram levadas a campo pelos técnicos da Seater, enquanto o governo do Estado investiu na abertura de ramais e na construção de armazéns, o Sebrae organizou os produtores imprimindo neles um espírito mais cooperativo e empreendedor para tratar suas colocações como negócio. Com recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) a Conab garantiu o dinheiro, a Funtac, Secretarias da Floresta e da Produção Famílias com a orientação para que a castanha chegasse a fábrica com a melhor qualidade possível. “O esforço conjunto de todas as instituições que nos apoiaram e a compreensão dos produtores no manejo da castanha garantiu que nossas amêndoas saíssem da fábrica totalmente sem aflatoxína, o veneno produzido por um fungo e que está impedindo a venda em alguns países porque causa câncer no estômago e intestinos. Já podemos dizer que produzimos a melhor castanha da Amazônia”. Verticalizando a produção Um dos grandes sonhos dos associados da cooperativa foi realizado em junho deste ano quando conseguiu negociar com o governo do Estado a concessão da usina de castanha de Brasiléia por um período de dez anos. “Em 15 dias colocamos a fábrica para funcionar, nela toda a quebração é mecânica, por isso seus 38 trabalhadores se distribuem na seleção, empacotamento e outros serviços. Das mais de 100 mil latas que compramos neste ano, vendemos 80 mil para as indústrias da Bolívia e conseguimos beneficiar mais de 20 mil que produziram 35 mil quilos de amêndoas prontas que estamos vendendo agora”. Ele fez questão de destacar que: “Pessoalmente, o grande apoiador de nossa organização, como também no apoio para que conseguíssemos os empréstimos da Conab e a própria concessão da fábrica do governo para nossa cooperativa, tem sido o senador Siba Machado que demonstra uma grande preocupação com o setor produtivo e as organizações populares”. Embora tivesse grande quantidade de matéria prima disponível e uma fábrica na mão, a Cooperacre preferiu vender a maior da castanha em casca para a Bolívia. “Não industrializamos tudo porque a cooperativa tem contas a pagar com os produtores e com a Conab, do contrário perde crédito e fica sem dinheiro. Além do mais, a gente domina bem o mercado da venda de castanha em casca, mas a venda da castanha industrializada é coisa nova pra nós. Por isso, achamos que era mais prudente começar a explorar aos poucos esse novo mercado. Mas os resultados vem sendo animadores”, garante Manoel. Tão positivos, que a cooperativa se prepara para colocar a usina em funcionamento a partir de janeiro de 2007 e garantir seu funcionamento durante o ano inteiro. “Nós só conseguimos colocar a fábrica em funcionamento porque os sócios concordaram em aplicar nela os R$ 250 mil que tínhamos conseguido de lucro acumulado nos últimos três anos. Agora estamos fazendo alguns reparos para que no ano que vem a produção aconteça com toda força”. Sucesso de muitos Mas de nada adiantaria os esforços e investimentos do governo e instituições para conseguir os bons resultados alcançados pela Cooperacre se as 18 cooperativas e associações que fazem parte de seu sistema, não tivessem o cuidado de organizar bem seus associados, controlar sua contabilidade e manter o pagamento de impostos em dia. “Pelo menos 80 mil das 107 mil latas de castanha que compramos foram coletadas pelos 1.893 filiados destas 18 associações. Boa parte dessa produção ficou estocada nos cinco armazéns que o governo construiu pra nos ajudar em Rio Branco, Brasiléia, Capixaba e Epitaciolândia”. Dentre as 18 entidades, a Associação Sorriso, localizada junto à margem do riozinho do Rola, com acesso pelo rio Acre e rodovia Transacreana é a campeã entregando 23.043 latas de castanha, ela foi seguida pela Cooperfast com 9.159 latas e pela Cooperiaco com 9.472. O s resultados vem de um sistema relativamente simples através do qual a Cooperacre, depois de reunir-se com a comunidade, repassa o dinheiro à cooperativa ou associação que paga o produtor a pronta entrega. Então a castanha é estocada em armazéns especialmente arejados para evitar o desenvolvimento de fungos e garantir a qualidade das amêndoas. Tempos difíceis: novos tempos Aos 68 anos de idade, 20 deles dedicados ao sindicalismo e ao cooperativismo, Manuel José da Silva presidente da Cooperativa dos Produtores Agroextrativistas Santa Fé (Coopasf) foi eleito também presidente da Cooperacre em 2001. “Recebi a Coopec, em junho, com uma dívida de R$ 250 mil, nessa época recebi muito apoio do Manoel, e do Fadel que na época tinha uma bolsa de estudo da Seprof para trabalhar aqui com a gente. Nós nos juntamos com a Cooperiaco de Sena Madureira e a Coaf de Feijó para formar a primeira central de cooperativas do Acre, fomos trabalhando, pagando as contas e conquistando a confiança do governo”, explica Manoel Silva. Lembra que o subsídio da borracha foi fundamental para agregar as cooperativas e associações, reforçado depois pelo crédito subsidiado da Conab para a compra da produção de castanha e outros produtos. Manoel lembra que desde 1959 começou a cortar borracha e colher castanha na Bolívia. Em 68 foi para Rondônia e em 73 voltou para o Acre fixando-se na colocação Pontão, seringal São Luiz do Remanso, em Capixaba. “Durante muito tempo a borracha e a castanha não valeram nada. Hoje com o apoio do governo a borracha já ajuda, mas não dá pra sustentar família. A castanha é que dá dinheiro”. Sem esconder sua empolgação declara: “Ainda bem que o governo compreendeu que a castanha é nosso produto mais importante. Graças a isso estamos realizando agora um sonho de 20 anos, industrializar nossa produção, isto é apenas o começo dos novos tempos que estamos vivendo”. Influência progressiva Durante a safra 2002/2003, antes de conseguir seu primeiro empréstimo, a Cooperacre comprou 25 mil latas de castanha, com dinheiro da Conab essa compra saltou para 81 mil latas em 2004, em 2005 foram mais 94 mil latas e fechou 2006 comprando 107 mil latas. A previsão é de que na safra do ano que vem a cooperativa compre pelo menos 130 mil latas de castanha. No final de outubro, a cooperativa devolveu à Conab R$ 1.272.745,00 como pagamento do empréstimo de R$ 1.250.000,00 que havia pegado no final do ano passado para realizar as compras deste ano. “Agora estamos negociando um novo crédito que deverá ser liberado, ainda neste mês de novembro, para comprar a safra do ano que vem. Esperamos conseguir R$ 1,5 milhão, com isso estaremos atingindo a cota máxima de empréstimo liberado pela Conab. Isso é motivo de orgulho pra gente!” Mas os produtores tiveram de aprender que no mundo dos negócios nada acontece de graça. Os empréstimos só vêm sendo renovados e aumentados porque sua cooperativa tem feito sua parte pagando fornecedores e os empréstimos no tempo certo. Com isso vê seu crédito aumentar cada vez mais junto às financiadoras. Essa meta só foi atingida porque a cooperativa passou a ser tratada como um negócio de verdade. Para isso mantêm uma contabilidade sempre organizada, o que permite ter uma visão clara e o controle da situação. Além do mais, separou as contas do que são gastos e custos de manutenção da cooperativa, da movimentação financeira que faz com a compra e venda da castanha, borracha e óleo de copaíba, cada um deles com seu controle e características particulares de mercado. |
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