OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 


Notas avulsas sobre a natureza do tempo presente

Estes últimos dias foram bastante atribulados, mas muito interessantes. Foi só voltar a escrever neste jornal, que fui assaltado pelos cruzamentos do tempo em diversas formas e de todas as direções possíveis e imagináveis. Daí que ficou impossível pensar num único tema pra esta coluna. Por isso o jeito foi circular...

A SEMANA

- Semana interessante essa, mas cansativa.

- Ué??? Mas não foi uma semana de feriados??? Mais moleza impossível!

- Depende do ponto de vista. Quer ver?

- Dia 15, Proclamação da Republica. Dia em que foi necessário contar que o Brasil se tornou Republica graças a uma quartelada promovida por militares, muito mais em razão das fragilidades da Monarquia do que por vocação ideológica dos brasileiros.

- Dia 17, assinatura do Tratado de Petrópolis, outro feriado e haja contação: O Tratado de Petrópolis não foi uma conquista do governo brasileiro. Que, aliás, durante anos se recusou a admitir que o Acre fosse dos brasileiros. O Tratado de Petrópolis foi, antes de mais nada, uma conquista acreana, reforçada pela habilidade do Barão do Rio Branco em usar todos os recursos disponíveis (armas, dinheiro e diplomacia) para obter um acordo vantajoso para o Brasil.

- Dia 20, dia da Consciência Negra. Mais que nunca contar histórias é preciso: Neste dia morria Zumbi dos Palmares, líder do maior e mais importante quilombo brasileiro. Zumbi foi um dos construtores de uma pequena África nos interiores do nosso sertão. Símbolo da luta dos afro-descendentes por igualdade e respeito em um país que efetivamente construíram com seu suor, mas muito mais com seu sangue. Daí o evento dessa segunda-feira - à tarde e à noite ali na antiga Rua da África (a pequena África acreana), atual rua 1º de Maio revitalizada com a construção da passarela Joaquim Macedo - em homenagem à memória de todos os negros que também ajudaram a construir o Acre.

- ÔÔÔ semaninha contativa essa, sô...

...EU TINHA ESTRELAS NOS OLHOS...

- Do nada, uma reunião de trabalho se tornou uma conversa pra lá de interessante quando Edgard de Deus e Raimunda Bezerra começaram a lembrar dos tempos em que as festas, a política, os embates e os sonhos estavam todos juntos. Eram jovens então e lembram bem da primeira reunião, da primeira campanha, das primeiras derrotas e dos outros militantes tão jovens quanto eles e, às vezes, muito mais estranhos que eles mesmos. E foi cada história que vocês nem queiram saber...

Ou seja, eu já andava preocupado com a necessidade de entrevistar os velhos acreanos sobre as coisas de um antigo Acre que está sendo esquecido, E agora percebo que existem novos personagens a serem entrevistados urgentemente, os “novos velhos” do Acre, estou aceitando inscrições...

GEOGLÍFO É COCA-COLA

- Vamos imaginar que no futuro, todos os registros de nossa sociedade tenham se perdido e um pesquisador trabalhando aqui nesta região avistasse uma longa linha reta estruturada e regular cortando as terras devastadas. Sem nenhuma explicação aparente para presença tão estranha e num arroubo de imaginação o jovem pesquisador poderia então concluir: “É uma escrita antiga e misteriosa do povo que viveu aqui no passado. Vou chamar essas linhas na terra de geoglifos, que significa escrita na terra.” Pobre pesquisador do futuro ia ter muita dificuldade de compreender aquelas ocorrências antigas, mesmo que os documentos encontrados dissessem que aquela estranha linha de terra era chamada por seus construtores de “estrada BR-317” e nada tivesse a ver com uma escrita, mas servia como caminho para os artefatos de deslocamento em uso naquela época, os automóveis.

A mesma coisa está acontecendo com os sítios arqueológicos que tem estruturas geométricas de terra do Acre. Um nome de fantasia foi atribuído a esses sítios e nem importa se esse nome induz a uma compreensão equivocada do que sejam, o que importa é que é um nome sonoro, que vende bem na mídia e vamos lá!!! Tome geoglífo pra cá, geoglífo pra lá...

Geoglífo é hoje como Coca-Cola, não importa se é o que parece ser, só interessa que vende muito. O que é estranho, apesar de compreensível, é que seus maiores anunciantes saibam disso.

Isso me lembra a atrocidade cometida há alguns anos atrás quando um doido inventou que a Casa Branca de Xapuri tinha sido a Intendência Boliviana atacada por Plácido de Castro em 06 de agosto de 1902. Mesmo que os velhos senhores de Xapuri contassem que a verdadeira Intendência Boliviana tinha sido no local onde hoje está o Hospital Epaminondas Jácome. Só importava que parecia uma boa idéia ter o local do início da Revolução pros turistas visitarem e pronto! Uma mentira que de tão repetida acaba tomando foros de verdade. O problema é desfazer o erro depois, mas isso não é problema dos marketeiros, esses só querem continuar vendendo Coca-cola...

Na semana que vem prometo ao Cassiano (que foi o primeiro a avistar e fotografar os sítios arqueológicos do Acre por via aérea, em 1994) que respondo a pergunta que ele me fez por telefone sobre esse tema.

RÁPIDAS

- A comemoração dos 85 anos das Servas de Maria Reparadoras no Acre me levou a ler o excelente livro de Lina Boff sobre essa missão em Sena Madureira, Rio Branco e Xapuri, bem como recortes de jornais antigos dessas cidades pra preparar uma palestra sobre a longa crise acreana dos anos 20 e 30. E mais uma vez me encantei com as histórias de um tempo nem tão distante assim, mas já quase totalmente esquecido.

- O Cazuza aparece na tela da TV pra me lembrar que “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades, porque o tempo não para!”

- Quem acessar a página do New York Times na semana que vem vai ver uma matéria especial que Larry Rotter fez durante a semana passada aqui no Acre sobre os Soldados da Borracha. Ele liga animado dizendo que a matéria ficou tão boa que vai merecer uma apresentação multimídia especial no site da poderosa revista norte-americana. Confesso que estou muito curioso pra ver a matéria pronta, afinal ele saiu daqui encantado com a força das histórias contadas por nosso veteranos de guerra. Tomara que ele tenha escrito também sobre os protestos do Seu Lupércio lembrando ao americano que o governo de seu país foi co-responsável, junto com o governo brasileiro, pelo abandono de milhares de trabalhadores na Amazônia e que, portanto, também deve uma indenização a eles.

- Agora é a vez de Zeca Baleiro me aparecer no som do carro pra lembrar que “É mais fácil cultuar os mortos que os vivos, mais fácil viver de sombras que de sóis. É mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro”.

- Bacana a reunião do Artur Leite, Gildo César, Fabiana Ragi e Carlos Renato pra providenciar a limpeza do velho prédio que deve abrigar o Museu de Paleontologia que vai ser implantado pela Prefeitura de Rio Branco no sítio histórico do 2º Distrito, graças a uma emenda do Deputado Nilson Mourão. É muito legal trabalhar numa instituição onde existe verdadeiro espírito de equipe e o trabalho coletivo não seja apenas um conceito, mas uma prática.

- Vem ai “O dia em que a Terra parou”. Aguardem!

- Yago, do alto de seus dois anos, não quer nem saber e invade a banca de jornais pra pegar as revistas que mais gosta. E nem adianta se meter porque ele sabe o que quer. Estórias em quadrinhos que se transformam em estórias contadas com as pontas dos dedos no chão da varanda. É engraçado ver como o gosto por histórias bem contadas surge cedo em nossas vidas. É como já disse: o Yago sabe o que quer, afinal o presente/futuro é dele...

- Passado, presente, futuro. Curioso, mas não consigo mais distinguir direito essas divisões arbitrárias do tempo. Como não consigo deixar de me encantar com o brilho dos olhos dos que ouvem/lembram as histórias antigas do Acre. É a força do passado vivo nas mentes e corações das pessoas. É paradoxal, mas é como se em meu olhar de historiador, que deveria cultivar o método, essas distinções tivessem desaparecido e todas as coisas fizessem parte de uma única dimensão, um longo e contínuo tempo presente. Quem sabe um dia...

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de novembro de 2006
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