OPINIÃO
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Idésio Luis Franke *

 

 


Uma verdade inconveniente

Sob o título acima, o excelente filme de Al Gore, candidato democrata à presidência dos EUA que concorreu com o republicano George W. Bush, ganhou as eleições, mas não levou – dada as “democráticas” regras americanas, retrata a realidade cruel das mudanças climáticas globais e suas conseqüências para a sobrevivência da geração humana atual e as que virão.

As alterações ambientais e ecológicas causadas principalmente pela queima exacerbada de combustíveis fósseis e florestas, lançam ao ar milhares de toneladas de gás carbônico, nitroso, sulfuroso, metano, dentre outros, responsáveis pelo aumento progressivo da temperatura da terra em escala intensiva.

Nos últimos anos o degelo da Groelândia, Antarctica, Ártico e várias montanhas geladas situadas em cordilheiras ou não, acima das médias consideradas normais, está trazendo preocupação a muitos cientistas sérios ao redor do planeta. As glaciações alteraram o clima na terra, mas não na intensidade e velocidade ora observadas.

As conseqüências mais visíveis: aumento do número e intensidade de tempestades, furacões, tufões, ciclones e maremotos, devido às alterações na temperatura da água e nas correntes do mar; alagamento de extensas zonas agrícolas e cidades; grandes secas e desertificação de extensas áreas vegetadas; alterações nos nichos ecológicos locais, com a extinção ou substituição de espécies animais e vegetais, com perdas na biodiversidade; subida do nível do mar, com alagamentos de milhares de cidades da zona costeira; doenças da pele em seres humanos, dentre outros males.

O atual modelo de desenvolvimento industrial, herança de um sistema produtivo cada vez mais poluidor e degradador, que ao lançar mão de tecnologias altamente consumidoras de energia e recursos naturais, espanta pela sua voracidade, inconseqüência e saciedade na busca pelo lucro em primeiro lugar, ao invés do bem-estar humano, não leva em consideração a capacidade de suporte do ambiente, de regeneração das espécies e a finitude dos recursos minerais.

Se esse modelo econômico leva à intensificação da exclusão da maior parte da população mundial. Concentra a renda, o conhecimento, tecnologia e informação em uma camada cada vez mais privilegiada e pequena de pessoas. Degrada o meio ambiente. Enfim causa uma série de mazelas e molda as pessoas a estilos de vida que estão mesmo inviabilizando a sobrevivência da própria espécie humana na terra, é de se perguntar se vale a pena continuar com isso.

Se podemos prever esse ambiente hostil, o desafio da sustentabilidade é eminentemente, e acima de tudo político. Não é mais possível que os interesses da empresas transnacionais e governos de países ditos desenvolvidos, responsáveis diretos por mais de 70% dos gases de efeito estufa lançados na atmosfera não assumam a responsabilidade pelo seu controle.

Mudanças nas tecnologias que implicam em controle de poluentes na atmosfera por parte da indústria, modificação na matriz energética mundial, passando de combustíveis como o petróleo e carvão para hidrogênio/oxigênio, energia solar, hidroelétricas, álcool e outros combustíveis limpos não imprescindíveis.

O enfrentamento da crise cabe a todos nós, mudando hábitos de consumo e estilos de vida insustentáveis. Esta série de verdades inconvenientes são o motivo pelo qual os políticos responsáveis pelos destinos do planeta, e por que não dizer de nossas vidas, aliados aos interesses das grandes multinacionais industriais e financeiras, e por vezes de grande parte das academias científicas, tentam esconder.

Ao invés de reduzir a questão ambiental a argumentos técnicos, uma crítica que pode ser atribuída ao filme de Al Gore – o que não tira seus méritos – há de se estabelecer lutas e pactos entre os distintos grupos sociais e políticos capazes de impulsionar as transformações necessárias à superação desse estilo de desenvolvimento.

Longe do que pensam e pregam os neoliberais, orientados pela forças de mercado, se não houver uma forte regulação do Estado, enquanto ente defensor de toda sociedade civil, será de difícil consecução objetivos virtuosos de equidade social, cidadania e qualidade ambiental.

A condição para a superação dos problemas ambientais globais em busca do desenvolvimento sustentável passa, necessariamente, pela implantação de políticas públicas e consensos globais, face às necessidades da nova sociedade. Urge a tomada de atitudes concretas para evitar o aquecimento do planeta, sob pena de inviabilizar a vida na terra.

Vale a pena assistir o filme “uma verdade inconveniente”. Recomendo.

* Economista e Engenheiro Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento
Sustentável pela UnB

 
 
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Rio Branco-AC, 19 de novembro de 2006
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