
O governo Luiz Inácio está sendo sensato na área econômica, contraditório na área técnica, confuso na área social, fraco na área política e temerário na área externa. Envolver-se no conflito interno de outro país é um risco que a política externa brasileira jamais quis correr. Agora quer. Governar em minoria é um equívoco que já deu errado no passado. O combate à fome precisa de objetividade.
Erros e acertos, luz e sombras. Estes primeiros dias têm exemplos para elogios e criticas ao novo governo. Combater a fome é uma proposta que empolga a todos, mas o governo tem exibido, nesta área, erros no diagnóstico, nos métodos e nos remédios escolhidos. Visitar as áreas de extrema pobreza é mais complexo do que o presidente imaginava inicialmente, como descobriu, desconsolada, a pobre Guaribas. Um governo em que 30 ministros interrompem as atividades para visitar a pobreza, que todos já sabem que existe no país, está em campanha e não em operação.
Na área social, não basta sensibilidade. É preciso critérios e métodos. Como disse o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, esta semana: as políticas públicas têm que ser avaliadas, para que se possa aferir se são eficientes ou não. O fato que a caravana da fome não consegue esconder é que o programa Fome Zero ainda não começou e está se debatendo em equívocos. Pedir nota fiscal aos pobres é, como ensinou Zilda Arns, perder tempo e dinheiro com burocracia; ambos poderiam estar sendo investidos em educação dos pobres, por exemplo. Vetar o bispo Mauro Morelli no Conselho por fazer críticas ao programa é um inaceitável sinal de intolerância.
O ministro da Saúde diz que vai continuar e aprofundar programas. Avisou que, em sua área, haverá principalmente continuidade. O ministro da Educação trabalhará também na linha de continuidade e, esta semana, convocou os estudantes a combater o analfabetismo dos adultos brasileiros. Disse que vai mudar o Enem e o Provão. Tomara que seja para fortalecer e aperfeiçoar os métodos de aferição da qualidade do ensino, e não para acabar com eles, como o partido disse na campanha.
O Banco Mundial está empolgado. Já fez trinta estudos para o novo governo brasileiro mostrando vários aspectos de políticas públicas na área social. Outras instituições internacionais prometem ajuda, em recursos e em conhecimento. Aproveitar este momento de entusiasmo de começo de governo e reunir todo o apoio, nacional e internacional, possível é ótimo.
O Ministério dos Transportes suspendeu licitações e fez uma vinculação com a prioridade da fome, o que é um contra-senso. O país não pode parar para que haja um programa contra a fome. Aliás, se as estradas continuarem se deteriorando, o transporte será mais lento e caro, e isto vai aumentar os preços dos alimentos. O ministro das Cidades deu entrevistas sobre o flagelo da morte nas estradas. Tem que explicar isto ao ministro dos Transportes. O ministro da Ciência e Tecnologia pisou no tomateiro, quando disse, o que depois disse que não disse, à imprensa estrangeira. Se fizermos uma lista do que não precisamos, e não queremos, ela começará com a bomba atômica. Melhor teria feito o professor Roberto Amaral se tivesse usado o tempo do hospital para se recuperar e estar preparado para dominar a tecnologia de sua pasta. O ministro do Trabalho promete coordenar a sociedade em torno de uma reforma trabalhista, da qual, aparentemente, não está convencido da necessidade. Contradições na área técnica têm acontecido diariamente. Nada é mais encorajador, no entanto, que os sinais dados pelo Ministério da Previdência. O pouco que se conhece do projeto de reforma mostra que o governo está corajosamente caminhando na direção certa.
Na política, o governo Luiz Inácio pensa que pode avançar sem construir uma base parlamentar majoritária. Os líderes fazem contas confusas para garantir que conseguem votos suficientes para aprovar os projetos do governo. Não convencem. Sem maioria parlamentar, o governo será instável e sofrerá derrotas. Hoje, parte do otimismo econômico depende de se dar provas de que o governo terá uma base mais sólida.
É ruim e perigosa a idéia da “governabilidade ampliada”. Governabilidade não comporta adjetivação. Ou é ou não é. O governo pensa em organizar corporações e representações de interesses em fóruns coordenados por ministros e, através desses fóruns, pressionar o Congresso a aprovar reformas. O único caminho, penoso, mas inevitável, é tramitar as propostas pelo Congresso brasileiro, enfrentando cada uma das muitas comissões, votações, manobras regimentais e prazos.
Risco mesmo corre o país na política externa. É um equívoco que vai nos cobrar o preço mais tarde envolver-se num conflito político interno de outro país. A marcha da insensatez que vem sendo alimentada por análises equivocadas pode nos fazer quebrar uma tradição centenária, como tenho dito aqui. A liderança do Brasil na América do Sul não vai ser construída com o país se arrogando o direito de escolher quem está certo e quem está errado num conflito político de outro país. O Brasil só entra em conflito de país vizinho quando é chamado por todos os lados para ser o caminho da paz. Não podemos intervir, para impor a vitória de um dos lados, em briga em qualquer país, porque não temos os meios, o direito, a tradição, nem a vocação para isto.