
Vários eventos aconteceram
em seguida à guerra que
culminou com a libertação do Acre do domínio hispânico
Daqui a duas semanas, no dia 24 de janeiro, estará se completando um século desde que os brasileiros do Acre tiveram a definitiva vitória sobre o exército boliviano. Por isso, tendo concluído a série de artigos que tratavam da fundação de Rio Branco ocorrida em 1882, daremos inicio hoje a uma nova série que enfocará os acontecimentos que envolvem a vitória de Porto Acre.
Já de saída é preciso ressaltar que se esse combate caracteriza a vitória territorial acreana sobre os bolivianos, não significou o final da Revolução. Pelo contrário, durante todo o ano de 1903 os seringalistas e seringueiros do Acre tiveram que manter seu exército para-militar mobilizado para deter o avanço do General Pando (na época presidente da Bolívia) sobre o alto Acre, bem como para garantir as conquistas já realizadas diante da ocupação militar do Acre promovida pelo exército brasileiro a mando do Barão do Rio Branco que já começava a destrinchar a controvertida questão do Acre.
Ou seja, a vitória de Porto Acre, que completa cem anos no próximo dia 24 de janeiro, não pode ser entendida como o fim do movimento revolucionário acreano, mas tão somente como o final de mais uma das etapas da longa Revolução que, iniciada em maio de 1899, só terminaria realmente no dia 17 de novembro de 1903 com a assinatura do Tratado de Petrópolis.
Para dar início a essa nova série, iremos transcrever uma matéria assinada por Mauricélia Barroso e por mim e que foi publicada no jornal “O Acre” de setembro de 1997.
Elos do passado
(As correntes da história não se romperam em Porto Acre)
A pouco tempo atrás a imprensa noticiou a surpreendente descoberta de uma grande e pesada corrente de ferro às margens do Rio Acre, na altura do Novo Andirá, já em território do Amazonas. Essa corrente de mais de setenta metros de comprimento jazia soterrada desde sabe-se lá quando nas barrancas do Rio Acre, tendo sido revelada pela ultima alagação, que segundo consta foi a maior de todos os tempos.
De imediato levantou-se a possibilidade de se tratar da famosa corrente que teria sido cortada em Porto Acre durante o combate que selou definitivamente a vocação brasileira do Acre, nos idos de janeiro de 1903. A essa noticia seguiu-se uma intensa movimentação no sentido de trazer a corrente para Porto Acre, independente de ser a original ou não. Até que, depois de várias tentativas e muita burocracia, no ultimo dia 2, uma parte dela foi entregue à prefeitura de Porto Acre e passou a integrar o acervo da Sala-memória daquele município, durante uma breve solenidade.
Qual não foi a nossa surpresa ao encontrarmos ali em Porto Acre, não uma, mas duas correntes que nos levaram a refletir acerca dos caminhos que a história percorre durante sua construção. A primeira era aquela corrente de ferro que jazia enrolada na porta da Sala-memória do Município de Porto Acre, como que desafiando nossa capacidade de decifrar sua autenticidade. A outra, mais sutil, era uma corrente formada de opiniões, sentimentos e recordações que nos chegam do passado, distante ou não, e que mesmo quando próxima de nós não a percebemos, como se estivesse enterrada em um barranco de rio e só após uma alagação pudéssemos encontra-la, como que desafiando nossa possibilidade de romper o véu que nos embaraça a visão.
De qualquer modo, quando chegamos a Porto Acre, durante a solenidade de recebimento da corrente recentemente encontrada, havia um certo consenso de que não se tratava daquela famosa corrente de 1903. Segundo as informações dos antigos moradores de Porto Acre, especialmente de Seu Vicente, a corrente original ficou durante muitos anos guardada no salão principal da Mesa de Rendas, até que em 1929 o governador Hugo Carneiro mandou desmontar aquele prédio trazendo para Rio Branco tudo o que estava lá, incluindo um piano, as telhas portuguesas que cobriam o prédio e hoje cobrem o Palácio Rio Branco e é claro a corrente. Dai para a frente o destino dessa corrente se perdeu. Dizem que uma parte dela hoje adorna a piscina de abastado senhor residente em Porto Velho, enquanto que outra parte estaria em Manaus. O certo é que não se sabe ao certo o paradeiro da corrente original. O que importa é que essa corrente que está na Sala-memória de Porto Acre nos leva a lembrar e pensar sobre os acontecimentos que nos tornaram o que somos hoje.
Quanto a segunda corrente que mencionamos no inicio desse artigo é composta por elos formados pela paisagem atual de Porto Acre e pelos sentimentos expressos por seus moradores. Para aquele que chega a Porto Acre torna-se evidente que a cidade guarda muitas das características que possuía no início do século. O que mudou é que se em 1903, Puerto Alonso, Cidade do Acre ou Porto Acre, era uma das principais cidades da região, hoje é uma pacata cidade do interior onde os dias escorrem lentos como as águas do rio Acre durante o verão. Se pôr um lado isso pode causar uma certa tristeza naqueles que vivem de esperar um desenvolvimento que nunca chega, pôr outro nos traz a esperança de podermos ver ali preservados da sanha destruidora dos espaços urbanos, os recantos que guardam a história em sua simples presença. Ou seja, Porto Acre, poderia ser hoje uma linda cidade histórica que serviria, quando pouco, para nos lembrar e aos nossos filhos de tudo o que já passamos.
Foi essa exata sensação, elo da corrente, que nos passou Seu Artur, o responsável pelo funcionamento da Sala-memória de Porto Acre, que se dedica a cuidar de capsulas de balas, garrafas coloridas, velhos e carcomidos fragmentos de rifles usados nos combates da Revolução Acreana, sem nenhum retorno material alem da satisfação de manter o pouco que nos sobrou daqueles tempos. Foi também a lição que nos deu o Seu Vicente que, forçando sua memória já longínqua pelos problemas de saúde próprios de sua idade avançada, nos contou que morreram tantos homens no corte da corrente, quanto nas trincheiras do combate principal de Porto Acre, sem conseguir conter as lágrimas e o nó na garganta que lhe assaltam quando começa a lembrar.
Da mesma matéria ainda é feita a indignação do jovem Veridiano que em meio à solenidade lembrou a irresponsabilidade dos políticos que estiveram à frente da administração municipal ao longo das décadas passadas e que além de demolirem os antigos prédios que guardavam as muitas histórias dessa terra, foram capazes de passar o trator no local onde se deram os combates e onde ainda podiam ser vistas as trincheiras em que lutaram e morreram tantos homens que reconheciam este lugar como importante para se viver.
Ou seja, existe (resiste) em Porto Acre uma corrente original. Cujos elos unem homens diversos em suas motivações e pensamentos e que só pode ser vista por aqueles que olham a cidade invisível que existe para além da Porto Acre aparente. Uma cidade onde ainda estão intactos o Palácio de Galvez, o Challet, o Bom Destino, a Igreja de ferro, a corrente que um dia foi atravessada e cortada no rio Acre, as trincheiras e marcas de uma revolução ainda inacabada.
Talvez, ainda chegue um dia em que a corrente desaparecida e a corrente imaterial sejam reunidas em Porto Acre. Assim como a cidade invisível e a cidade aparente. Penso na ruínas de São Miguel das Missões, penso em Macchu Picchu, na Grécia quase toda e lembro que existem tantos lugares que encontraram o desenvolvimento na preservação de sua originalidade. Porque não Porto Acre também ? Enquanto isso não acontece só nos resta lutar para preservar essa outra corrente formada pelas lágrimas de seu Vicente, pela indignação do Veridiano e pela paixão do Seu Artur e mostrar que não se pode destruir a identidade de um povo.
Obs: Quando encontrei no meu computador essa matéria, publicada a pouco mais de cinco anos atrás, fiquei muito feliz por duas razões muito simples. Em primeiro lugar porque tenho o sentimento de estar fazendo algumas coisas nas quais sempre acreditei, como a possibilidade de desenvolver Porto Acre através de seu patrimônio histórico. O que está realmente acontecendo graças a conservação da Sala-memória de Porto Acre e da revitalização do seringal Bom Destino, que deverá contar ainda nesse ano com uma pousada que poderá atrair um grande fluxo de turistas e de renda para a comunidade local. E em segundo lugar porque pude reencontrar e matar um pouco da saudade de dois dos personagens centrais do artigo acima republicado: o Seu Vicente que há cinco anos atrás me assustou e ao mesmo tempo me encantou quando começou a chorar no meio da entrevista que fazíamos com ele sobre a Revolução Acreana e revelou que no Acre a história é muito mais do que meros fatos ou documentos; e a Célia (que aparece como Mauricélia, co-autora do artigo em questão) que foi a verdadeira inspiradora de toda essa história da qual eu faço parte. Pude compreender então que, se nos últimos cinco anos essas duas pessoas tão queridas nos deixaram materialmente, continuam vivas dentro de nós e de todas as histórias que pudermos contar hoje e sempre. Ou seja, depois de tantos anos ainda somos os mesmos e a corrente da história não foi rompida.