
Entidade pretende qualificar profissionalmente
pessoas
de baixa renda e contribuir para a cidadania plena
Antônia Pereira da Silva, 50, trabalha desde os nove anos. Migrou para a cidade e começou a trabalhar em casas de família. Reclamava do sofrimento, dos xavecos dos patrões e do pouco dinheiro recebido. Para ela parecia não restar muitas opções: precisava alimentar os 16 filhos, não sabia ler e o ofício aprendido nos seringais não tinha muita utilidade na cidade.
Foram mais de 40 anos nessa profissão, muitas vezes sofrendo humilhações dos patrões, deixando para trás benefícios pelos quais ela não podia lutar por desconhecer os seus direitos. “A gente trabalha, arruma a casa dos outros, se sacrifica pelos outros e nunca tem nada na casa da gente. O dinheiro sempre é muito pouco e ainda tem patrão que não paga”, disse Antônia.
Hoje, desempregada e rezando para receber o que tem direito do ex-patrão, ela aceitou o convite para participar da terceira turma do curso de qualificação profissional para empregadas domésticas, promovido pela Escola Sindical Chico Mendes (ligada à CUT) em parceria com a Regional III do Adjunto da Solidariedade.
“Nunca nenhum setor, como o Senac ou o Senai, preocuparam-se em trabalhar com as pessoas que não têm amparo do governo, geralmente não têm vínculo empregatício. São os excluídos. Esse é o terceiro módulo do curso, que tem 90 horas de aulas, e cada turma tem entre 25 e 30 alunas”, disse o diretor da escola, César Fidelis.
Aprendizado mútuo com estratégias de mercado
Segundo o diretor, a programação do curso de qualificação profissional de empregadas domésticas abrange conteúdos como relações interpessoais, planejamento doméstico, noções de higiene, saúde e alimentação, além de direitos trabalhistas e ética profissional.
“Estou ensinando e aprendendo aqui no curso. Tudo o que falaram até agora é proveitoso pra gente. Além de aprender estou descansando a cabeça, conversando com outras pessoas, ouvindo palavras de conforto e segurança. Essas palestras que eles dão são muito boas e alegres, todo mundo participa. É divertido”, comentou Antônia.
Segundo Fidelis, objetivo maior do curso é abrir novos caminhos e horizontes para que as pessoas carentes não se sintam tão excluídos da sociedade e sejam cidadãos participativos na vida social, econômica e política do Estado.
Ao Adjunto da Solidariedade coube selecionar os alunos, que são mulheres carentes e preferencialmente que não sejam contempladas pelo Bolsa Escola, além de designar alguns formadores para ministrar aulas no curso.
“A CUT está cumprindo um de seus papéis”
Segundo o coordenador pedagógico, Evandro Teixeira, a história da Escola Sindical Chico Mendes chega a se confundir com a história da Central Única dos Trabalhadores, pelo trabalho desenvolvido em prol de pessoas que não costumam ter acesso aos seus direitos por desconhecimento.
A escola nasceu para formar os quadros políticos do movimento sindical e várias sedes foram criadas em todo o Brasil, a mais recente é a acreana, uma sub-sede da unidade de Rondônia, que existe há cinco anos.
Com o crescente número de trabalhadores desempregados ou em risco de desemprego um novo projeto, em parceria com o Ministério do Trabalho, foi adotado pela Escola. Além dos cursos de formação de gestores políticos, de políticas públicas e de formadores, a qualificação profissional de pessoas excluídas passou a ser uma das prioridades. O curso para qualificação de marceneiros inaugurou essa nova na escola.
Para participar dos cursos oferecidos pela escola, que traz o nome do líder seringueiro acreano, o trabalhador não precisa ser sindicalizado. O objetivo do novo módulo era a formação integral, profissional e política, do trabalhador. Após alguns meses o desenvolvimento sustentável e solidário passou a integrar a programação dos cursos, além de módulos que enfatizam a qualidade social de vida, o ambientalismo e a vida na Amazônia.
Combatendo o baixo índice de escolaridade
Assim como Antônia, que está se qualificando profissionalmente no curso para empregadas domésticas, muitos outros trabalhadores não tiveram a oportunidade de estudar, de freqüentar a escola.
Segundo Evandro, a elevação da escolaridade foi outro projeto, desenvolvido em parceria com a Secretaria Estadual de Educação, com a formação de 1º a 8º série de trabalhadores, sindicalizados ou não, das zonas urbana e rural, com quatro núcleos espalhados nos municípios de Rio Branco, Xapuri, Brasiléia e Cruzeiro do Sul.
“Em Cruzeiro do Sul, onde trabalhamos com cursos de associativismo e cooperativismo, ministramos aulas para trabalhadores de cooperativas que não tinham a mínima noção do sistema cooperativista. Hoje a situação é outra, novas cooperativas foram criadas por alguns alunos do curso e as que já existiam passaram a receber quadros qualificados”.
Segundo Evandro, a Escola Sindical Chico Mendes, segundo o coordenador pedagógico, está cumprindo um dos papéis da CUT, que é o desenvolver políticas públicas que melhorem a qualidade de vida dos trabalhadores.