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Rio Branco - Acre, terça-feira, 14 de janeiro de 2003
Índios aguardam com grande
expectativa instalação da sua secretaria

Lideranças fazem reuniões e apontam o nome
de Francisco Ashaninka para secretário

Flaviano Schneider

Se alguém está pensando que a secretaria indígena que o governo do estado vai implantar a partir de agora tem significado simbólico, que foi apenas uma forma de agradar e homenagear os primeiros habitantes da terra acreana, pode ter certeza de que para o movimento indígena o fato tem significado muito maior, significa que vamos ver como é o jeito índio de fazer uma secretaria.

Afinal, são cerca de 16 mil índios distribuídos em mais em 11 etnias co mais de 20 associações indígenas vivendo alguns quase da forma original, mas inseridos na modernidade, de maneira que os povos indígenas avançam em população, em educação, em saúde, além de um renascimento iniciado há alguns anos que faz com que a preservação cultural, a volta dos pajés, a música e língua estejam em plena efervescência.

Como organizar todo este potencial e fazer com que uma secretaria gerida por índios dê certo e mostrando assim do que são capazes, esta é a preocupação principal do movimento indígena.

Quem seria o nome ideal para chefiar a secretaria? Nos últimos anos, índios de várias etnias despontaram como lideranças do movimento; várias siglas apareceram UNI, Opirj, Opi-Ac, Opire, Opitar, Amai-AC, o Acre foi pródigo no surgimento de lideranças. Assim como no panorama político despontou a atual constelação de políticos que hoje comanda o estado, no meio indígena começaram a aparecer os jovens índios que se prepararam para isto e que se tornaram porta-vozes de seus povos.

O coordenador-geral da UNI, Francisco Avelino, está entusiasmado: “estamos trabalhando para isso há mais de 4 anos. A proposta da secretaria é um avanço dos povos indígenas e com certeza vai melhorar nossa condição”. Ele está antenado com a escolha do secretário e explica que os debates dentro do movimento indígena envolveram 24 pessoas nos últimos dias, em clima democrático, havendo indicação de dois nomes: Francisco Ashaninka, líder no Juruá e Manoel Kaxinauá, que é o atual vice-coordenador da UNI. “A prerrogativa de escolher o nome definitivo é do governador e estamos aguardando”. Para o coordenador da UNI o panorama está por demais favorável para o Acre e com a criação da secretaria o governo do estado vai poder apoiar mais intensivamente as comunidades indígenas.

Várias lideranças do movimento indígena reuniram-se no fim de semana e fizeram as articulações e discussões necessárias para se chegar a um nome de consenso, que acabou recaindo em Francisco Ashaninka. No domingo alguns líderes deles reuniram-se na casa do indigenista Macedo, juntamente com representantes da Comissão Pró-Índio e as antropólogas Mariana e Ingrid onde foram debatidos diversos aspectos da formação da secretaria e o consenso que se tirou é de que nunca houve condições tão propícias para o surgimento de uma secretaria específica para índios sendo também uma rara oportunidade par que os índios do Acre estejam na vanguarda do movimento indígena, ensinando um modelo de gestão de uma secretaria.

Apoio Iawanawa

Biraci Brasil participou da articulação e dos debates e apóia incondicionalmente o nome de Francisco Ashaninka para o cargo. Maior liderança Iawanawá do rio Gregório, hoje ele é, podendo-se assim dizer, o índio mais poderoso do estado comandando o convênio UNI/Funasa, do ministério da Saúde, que já gerenciou desde sua implantação, há três anos, cerca de R$ 12 milhões. Biraci está insatisfeito e considera que o convênio, não conseguiu sanar as dificuldades por que passam os povos indígenas no tocante à saúde, embora considere um avanço o interesse por parte do governo federal de melhorar isto.

Para Biraci, uma secretaria de estado precisa atingir todos os povos. Ele conta que havia uma articulação no sentido de indicar Antônio Apurinã, valorizado por ser o segundo suplente de Marina Silva, no Senado da República, mas para o movimento indígena seria uma perda, seria mais tipo uma acomodação que diminuiria o poder de fogo dos povos indígenas em nível estadual. É muito mais negócio ter um secretário índio e um senador índio (ou no mínimo alçado à condição de 1º suplente, com a ida de Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente), do que juntar tudo na secretaria indígena.

Biraci Brasil, deu seu apoio ao Ashaninka, por um motivo muito simples: para ele a integração dos vales do Juruá e Purus é inevitável e cada vez mais se dará a importância devida aos povos indígenas do Juruá. No entanto - explica - a direção de cargos importantes, como os da diretoria da UNI, sempre foram ocupados por índios do Vale do Acre e Purus, por isso considera de extremo bom tom a indicação de Francisco Ashaninka, que já deu provas de competência em sua aldeia e tem bom trânsito entre todos os povos indígenas, reunindo condições de ser um ótimo aglutinador de forças que venham a construir uma secretaria do jeito que os índios gostam.

Do povo Iawanawa, Francisco Ashaninka ainda tem o apoio doprofessor Joaquim Iawanawa, mais conhecido como Joaquim Maná, jovem liderança que recentemente retornou dos estados Unidos onde morou durante algum tempo.

Provável secretário vem de um
povo organizado: os Ashaninka

Os Ashaninka nunca paparicaram governos ou autoridades, sempre tiveram consciência de seu potencial, e embora muita gente tentasse atrapalhar em vez de ajudar, conseguiram organizar suas comunidades e sobreviver com sua cultura e qualidade de vida peculiares. Talvez, o melhor modelo de comunidade indígena seja hoje o da terra Ashaninka do Rio Amônia, onde despontam as lideranças da família Pianko, o patriarca Antônio, e os filhos Francisco, Moisés e Benke. Eles são independentes, mantém sua tradição e modo de vida ancestral, mas tem telefone na aldeia, TV, estão ligados em tudo o que acontece no mundo, tem internet, já publicaram livros, cds, filmes e continuam a preservar as riquezas espirituais, tendo como ponto de convergência a Ayahuasca.

Francisco Pianko tem opiniões muito peculiares. Segundo ele até pouco tempo atrás as pessoas votavam, elegiam seus governantes e iam para casa, delegando ao governo fazer as coisas, já a eleição de Jorge Viana e Lula representam a vitória daqueles que querem governar juntos; ou seja ‘eu voto em você mas eu quero participar’. Para Francisco, a diferença fundamental para os povos indígenas em relação aos governos é a de que agora, quando os índios procuram governo, ele existe. Antigamente, explica, era como se os índios não existissem dentro do estado.

Ele considera que a criação de uma secretaria indígena é uma conquista do movimento indígena, muito mais que um gesto de boa vontade do atual governo. “ Nós somos responsáveis pelo surgimento da secretaria e o que queremos é que ela coopere com a evolução do movimento indígena do Acre, não só das cabeças mas das bases, as ações da secretaria devem atingir cada um dos índios do estado”.

Uma secretaria comandada por Francisco Pianko, não vai ter política partidária em sua condução: “O movimento indígena será nosso parceiro, independente das filiações partidárias”.

Francisco considera que uma secretaria indígena terá que ter uma feição indígena, onde seja traçado um programa que atinja a todos os índios do estado e “fazer o que sempre sonhamos em fazer em nossas aldeias”.

Embora esteja já respaldado por 14 associações do Vale do Juruá e considere de extrema importância a valorização de sua região dentro do movimento indígena do estado, Francisco reluta em ser apresentado como o candidato do Juruá. Para ele, seria sinal de fraqueza iniciar uma secretaria assim como se houvesse uma divisão; é importante no seu entendimento que haja contínua renovação das lideranças e que sejam alçadas aos postos importantes pessoas que sejam do consenso das bases, principalmente a pessoa do secretário.

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