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Rio Branco - Acre, terça-feira, 21 de janeiro de 2003
Atel Pimentel

Milagre dos peixes

Altino MachadoDepois de saborear a moqueca acreana de peixe desenvolvida por Atel Pimentel, 49, dono do restaurante Esquina Verde, ninguém consegue deixar de indicar a maravilha aos amigos.

Esse tem sido o principal meio de propaganda que serviu para transformar um tosco barzinho, construído em 87, em madeira, num dos restaurantes mais freqüentados por quem vive ou está de passagem por Rio Branco.

O restaurante, que já foi avaliado positivamente pelo Guia Quatro Rodas, é citado em vários sites na internet por conta da excelente qualidade do cardápio.

Atel Pimentel era funcionário de apoio da Secretaria de Educação, quando decidiu construir um barzinho com mais duas pessoas, servindo feijoada e rabada ao tucupi como tira-gosto

Certo dia, sem os ingredientes para o tira-gosto tradicional, decidiu preparar a moqueca de peixe que costumava improvisar em casa. Os fregueses do bar não o deixaram mais em paz exigindo o prato improvisado de peixe quando ele tentou voltar com a feijoada e a rabada ao cardápio.

Atel é um acreano de poucas palavras que à noite, de terça a sábado, suporta o calor de 18 bocas de um fogão industrial para atender uma clientela cada vez mais ávida pelo sabor dos pratos de sua cozinha.

Pediu demissão da Secretaria de Educação, onde ganhava pouco mais de dois salários, para se dedicar exclusivamente ao restaurante, onde hoje emprega 12 pessoas.

Atel diz que sua moqueca é acreana e não baiana ou capixada. “Claro que aí no meio têm a manha e uns segredos que não posso revelar. Aqui, eu cozinho o peixe, retiro o caldo para preparar o pirão e então faço a magia em cima do molho, que estabelece a nossa diferença no sabor”, afirma.

Leia os melhores trechos da entrevista:

Como surgiu o restaurante Esquina Verde?

Isso aqui começou como uma brincadeira minha juntamente com meu irmão e um amigo, em 1987, quando decidimos construir um barzinho de madeira para receber os amigos. Começamos servindo, além da bebida, feijoada e rabada ao tucupi. Depois eu fiquei sozinho aqui, mas desde o começo a nossa comida sempre foi muito elogiada pelos clientes.

E quando foi que começaram a servir peixe?

Certo dia faltou feijoada e rabada e o jeito foi preparar um peixe pro pessoal. A turma, que já gostava muito da feijoada e da rabada, gostou tanto que passou a me exigir que preparasse o peixe mais vezes. E assim o prato foi se tornando o preferido, a ponto de me fazer excluir os outros do cardápio. Nesse tempo, o barzinho funcionava à noite, de segunda a segunda.

Mas qual foi o momento no qual
o restaurante se consolidou mesmo?

A nossa grande arma é a propaganda boca-a-boca. As pessoas vêm, gostam da comida e indicam para os amigos. Isso é a melhor coisa que pode acontecer para qualquer comerciante. Mas eu poderia dizer que a coisa ganhou impulso mesmo depois que a Elizângela, casada com o jornalista Aníbal Diniz, passou por aqui. Foi no tempo da campanha para o primeiro mandato do governador Jorge Viana. Elisângela e Aníbal começaram a trazer os amigos deles e a coisa foi crescendo. Depois das reuniões e dos comícios eles vinham para cá. O próprio governador se tornou um freqüentador constante e aí não paramos mais. A presença dele aqui foi um chamariz. Ele sempre aparece para comer um peixinho. O senador Tião Viana, irmão dele, também sempre aparece aqui. O barzinho ganhou status de restaurante.

O senhor nasceu no Acre?

Sim, eu sou acreano dos pés rachados. Nasci aqui mesmo lugar onde hoje é o restaurante. Esse é um lugar muito importante na minha vida. Aqui era um lugar feio, um buraco, que foi aterrado quando abriram essas ruas aqui. Na minha infância, aqui em volta, era um campo cheio de caminhos. Essas mangueiras que existem aqui foram conservadas depois que tivemos condições de reformar o restaurante porque têm muito significado para mim. Elas foram plantadas pelo meu pai. É como se fossem a presença do meu pai, que já faleceu.

O espaço do restaurante era pequeno, foi ampliado, mas ainda hoje em certos dias as pessoas aguardam a vez de saborear sua comida. Isso é sinal de que a freguesia continua a crescer.

Realmente, aquele espaço era pequeno. Devo confessar que muitas vezes tinha muito medo de que a madeira pudesse ruir, pois já estava velha. Quando fizemos o barzinho não esperava que fosse chegar aonde chegamos. Então decidi começar uma reforma, que continua até hoje. Estamos pensando em abrir durante o dia e aos domingos, logo que tenhamos condições.

Esse empreendimento mudou sua vida?

Sim, mudou em todos os sentidos. O restaurante tem me possibilitado boas amizades, independência e a satisfação de fazer algo com amor. Eu era um funcionário de apoio da Secretaria de Educação. Ganhava dois salários mínimos. Chegou num ponto em que eu tive que optar entre o emprego e o meu negócio. Não dava mesmo para compatibilizar as duas coisas. Então eu preferi largar o emprego no Estado para me dedicar ao trabalho no restaurante. Optei aqui porque lá o salário era muito pouco. Eu sabia que a continuidade do sucesso iria depender unicamente do meu esforço e acho que fiz a escolha certa.

Quantas moquecas são servidas a cada noite no Esquina Verde?

Varia de 40 a 50. O nosso peixe é preparado na hora. O meu fogão abriga 18 panelas. Quando vão sair todas demora um pouco porque cada uma exige um cuidado especial.

E esse trabalho o senhor não divide com ninguém?

Não. Apenas na classificação do peixe uma pessoa me ajuda. No mais, vou ao mercado, compro os temperos e cuido do preparo de cada prato.

Qual o tempero de sucesso do restaurante?

É muito trabalho e amor pelo que faço.

E o tempero da moqueca?

É o tempero simples, básico: tomate, cebola, cheiro-verde, pimentinha, peixe, farinha, azeite de oliva, leite-de-coco, dendê e sal. Claro que aí no meio têm a manha e uns segredos que não posso revelar. O segredo está no molho. É só isso que posso falar.

Qual é a moqueca que o senhor prepara tão bem?

A nossa é a moqueca acreana. Nós temos a moqueca capixaba também. A nossa parece, mas não é a moqueca baiana, cujo tempero todo é passado no liquidificador para engrossar o caldo. Nós não fazemos isso aqui. Aqui, eu cozinho o peixe, retiro o caldo para preparar o pirão e então faço a magia em cima do molho, que estabelece a nossa diferença no sabor. Essa é a magia.

Mudemos de assunto. Como acreano
o senhor tem esperança de que nessa terra?

O Acre melhorou muito mesmo. Tenho certeza agora de que o serviço vai continuar com honestidade. Rio Branco vai virar um canteiro de obras. Temos agora o governo federal, que é do nosso partido. Certamente o presidente Lula vai apoiar nosso governador, que é um homem que trabalha com dedicação e honestidade. Precisamos de governantes que tenham competência e nos traga esperança. Estou muito otimista com a Estrada do Pacífico. Para mim será muito bom quando Rio Branco fizer parte da rota do turismo. Nosso negócio vai aumentar com isso. Tenho projetos para expandir nosso empreendimento dentro de dois ou mais anos.

Qual a diferença do Acre de sua infância para o Acre de hoje?

A grande diferença é na tranqüilidade. Antes a gente dormia literalmente com as janelas e portas abertas. Não havia perigo. Mas a população cresceu muito e com ela veio a violência urbana. Muita gente veio dos seringais para as cidades, sem emprego, e acabou se marginalizando.

Como o senhor, que vende comida, acompanha as discussões sobre combate à fome no país? O seu restaurante fica próximo do bairro Papoco, que concentra muita gente pobre.

Isso é uma questão grave mesmo. De forma tímida eu faço a minha parte. Aqui no restaurante nós não jogamos comida fora. As sobras de pirão, arroz e o caldo são distribuídas diariamente para as crianças do bairro. Isso alimenta várias famílias. Vamos esperar que o Lula resolva esse problema com o apoio da sociedade. Sei que é difícil, mas não custa a gente enfrentar o problema. Cada um tem que fazer a sua parte.

Altino Machado


 

altinoma@uol.com.br
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