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Rio Branco - Acre, domingo, 26 de janeiro de 2003
Pontes em Caracas

A cientista política Janet Kelly estava pronta para a passeata anti-Chávez. Tomava café, olhando os jornais. Parou num artigo sobre a guerra civil espanhola que descrevia como pequenos fatos, que na época ninguém dava atenção, tinham sido a causa do conflito. “Naquele momento, tirei o tênis, a roupa cor da bandeira, decidi ficar em casa e estudar. Pensei: este país vai precisar de pontes.”

No ambiente polarizado da Venezuela, há dois lados que não se encontram e não se ouvem. O economista José Pineda tentou ser ponte. Com outros colegas, propôs ajudar o governo a encontrar saídas para a crise.

— Não adiantou. Eles não ouvem ninguém — disse.

Pineda diz que, nos próximos meses, o país vai à moratória. Resultado da fuga de capitais e da perda de receitas da PDVSA.

Na quinta-feira, o governo Hugo Chavez decretou feriado bancário e, na manifestação, o presidente anunciou que o país passará a ter controle de câmbio.

Isso só vai, na opinião de Pineda, piorar a crise que já estava instalada no país e que se agravou com a greve-geral decretada no dia dois de dezembro. Ano passado, a recessão foi de 8%; no governo Hugo Chavez, a queda do PIB per capita acumulada é de 16%.

— Neste primeiro trimestre, a contração do PIB pode ser de 25% a 30% e o desemprego pode ir dos 19% para 30% — disse Pineda.

Janet Kelly, americana que mora há 25 anos em Caracas, é uma das poucas pessoas que encontrei lá que sabe dizer a expressão: “por outro lado”.

Na Venezuela, todos vêem apenas um lado e consideram que o lado oposto está completamente errado. O esforço de Janet Kelly de ver matizes, de se aprofundar nos estudos de saídas políticas para o impasse, a levou a uma situação insólita:

— Sou acusada pelos chavistas de ser antichavez. Ao mesmo tempo, recebo e-mails ofensivos dos antichavistas que acham que eu não sou antichavista o suficiente — disse.

A intolerância é hoje a marca da Venezuela. Jornalistas em campanha contra o presidente não seguem a mais elementar das lições que manda ouvir os dois lados; o presidente ameaça os jornalistas, seus seguidores agridem fisicamente os repórteres nas ruas. Manifestantes antichavistas, quando atravessam as áreas chavistas da cidade, são agredidos pelos militantes dos círculos bolivarianos. De todas as invenções de Hugo Chavez, esta é a mais perigosa.

Janet Kelly conta que há várias versões sobre quem são eles.

— Dizem que são cópias do que existe em Cuba, os CDR, comitês de defesa da revolução. São grupinhos espalhados pelos bairros que tomam conta da vida das pessoas.

Eu estava num posto de gasolina entrevistando motoristas numa fila quilométrica. Todos contra o presidente. Um grupo se aproximou e o líder deles me abordou:

— Você está ouvindo as pessoas erradas. Deveria nos ouvir.

— Pois não, estou aqui para isso — respondi e ofereci o microfone para a declaração dele. Se disse comerciante e defendeu com entusiasmo a “revolução bolivariana” vociferando contra os grevistas “contra-revolucionários”. Quando acabou de falar, foi aplaudido pelos companheiros que o cercavam.

Quando estava lá, a direção do Copei, tradicional partido de centro-direita, fez na Praça Bolivar uma comemoração de aniversário do partido. Era um grupo pequeno, de poucas dezenas. Seria apenas um ato melancólico, que exibiria a decadência do outrora poderoso partido, mas virou notícia quando os políticos foram atacados a pedradas por grupos que pareciam ser círculos bolivarianos.

O cientista-político brasileiro Octávio Amorim Neto, da FGV, não tem dúvidas de que eles estão se transformando em grupos paramilitares.

— Após a tentativa de golpe do ano passado, o presidente fez, como ato de conciliação, uma promessa de não incentivar estes grupos. Pelo visto, não cumpriu a promessa — contou Amorim Neto.

Não cumpriu. Eu vi, numa sala de espera do Palácio Miraflores, um tablóide incentivando a formação dos círculos boliviarianos.

Os chavistas também se sentem ameaçados. Na tentativa de golpe de abril do ano passado, eles tiveram um sinal do que pode lhes acontecer se o presidente cair.

— Nos dois dias que durou o golpe, aconteceram fatos terríveis. Ataques de vizinhos a chavistas; ataques a embaixada de Cuba; prisões não autorizadas — afirma Janet Kelly.

Tudo isso alimenta os sentimentos extremados que são o cotidiano da Venezuela.

A greve está se enfraquecendo, mas ela já fez seu estrago em duas frentes: na economia, aumentou a recessão e a fuga de capitais; na política, aprofundou as diferenças.

Quase todo dia sai alguma manifestação antichavez. Na quinta-feira, o presidente respondeu pondo nas ruas 600 mil pessoas para apoiá-lo.

O ato foi preparado com antecedência, com maciça propaganda governamental e o dia foi bem escolhido: 23 de janeiro é uma data cívica, que comemora o fim da ditadura que caiu em 58. Mesmo assim, foi eloqüente.

Os dois lados mostraram sua força nos últimos 56 dias. Esta é a hora certa para ambos cederem, para que se possam erguer as pontes. A diplomacia de Lula tem evoluído para uma posição mais equilibrada — apesar de o assessor internacional Marco Aurélio Garcia ainda ser capaz de comparar a oposição venezuelana com o grupo narcoterrorista Farc. Se prevalecer o profissionalismo do Itamaraty em vez do amadorismo do assessor internacional, o Brasil poderá ajudar na construção das pontes que liguem as duas Venezuelas.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão
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