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Rio Branco - Acre, domingo, 26 de janeiro de 2003
Receita para não dar certo

Ainda em tempo, o governo Lula restabeleceu a prioridade para a reforma tributária, depois de ter permitido a percepção de que iria adiá-la ou deixá-la em segundo plano, dando prioridade à da Previdência. Mas já se desenha outro movimento que pode ser também danoso ao andamento da mais complexa das reformas, a disputa política pelo comando das articulações em favor dela.

Com a vacilação do governo, apresentou-se a oportunidade para empunhar a bandeira, o que foi prontamente feito pelos governadores tucanos Aécio Neves (MG) e Geraldo Alckmin (SP), ao convocarem os outros cinco colegas de partido para a elaboração de uma proposta tucana a ser apresentada ao Congresso e ao presidente.

Reagindo à ofensiva tucana, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, em sua passagem por Porto Alegre, convidou o governador peemedebista Germano Rigotto para coordenar a articulação junto aos governadores, com vistas à reunião que Lula pretende ter em breve com eles para discutir o tema. Rigotto aceitou de pronto, é claro. Em 1999, ele e Palocci participaram juntos da comissão especial da Câmara que mais avançou num projeto de reforma tributária. Rigotto era o relator e Palocci representava o PT. Apesar do entendimento com os estados, os empresários e os sindicalistas, o projeto acabou esbarrando na resistência do próprio Ministério da Fazenda, e o projeto foi para o brejo. Está nos arquivos da Câmara, para quem se interessar, e deve servir de piloto para as negociações, que passarão também pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, onde terá assento o capital, o trabalho e a sociedade civil organizada.

Rigotto é de fato é um grande conhecedor do assunto mas não só por isso Palocci o distinguiu com a missão. Se quis neutralizar os tucanos, pode arranjar complicação. Contra Minas e São Paulo juntos, não sai reforma nenhuma.

Assim como Lula, Palocci negou qualquer adiamento e deseja que ela tramite juntamente com a da Previdência, o que é perfeitamente possível, pois cada uma terá sua comissão especial. Mas sendo complexa por natureza, e dificultada por uma situação financeira em que ninguém admite perder receitas, a reforma tributária ficará difícil, para não dizer impossível, se ela tornar-se objeto de disputa político-partidária. Ainda mais entre governadores.

Segurando a onda Lula

Ao discurso talibã usado pelo PSDB logo depois da eleição de Lula seguiu-se agora uma convergência em torno das reformas, que o presidente do partido, José Aníbal, definiu como “de continuidade”, depois de um encontro amistoso com o presidente do PT, José Genoino.

Não tinham outra saída, os tucanos, neste momento: o PMDB entrou no barco petista e o PFL recusou a proposta de formarem um bloco de oposição. Com a popularidade de Lula nas alturas, uma oposição irredutível soaria antipática ao eleitorado embalado no otimismo. Com José Serra nos Estados Unidos e Fernando Henrique na Europa, os tucanos vão segurar a onda com o discurso de colaboração, o único que lhes restou. Na sexta-feira, ainda não tinham gravado o programa partidário que irá ao ar na terça-feira, e que até tentaram adiar. Não haviam chegado ao discurso e ao tom adequado.

Pequenos e complicados detalhes

Fechado o acordo interno do PMDB, um detalhe ainda está pendente, o futuro do presidente do partido, Michel Temer. Como deixará o cargo em setembro, seu grupo reivindica para ele uma outra posição parlamentar, como a presidência da poderosa Comissão de Constituição e Justiça. Ocorre que, tendo direito a fazer a primeira indicação, o PT reserva a vaga para o deputado Luiz Eduardo Greenhalg.

Já no Senado, o detalhe é outro. O PT quer premiar com a presidência da Comissão de Assuntos Econômicos o senador Eduardo Suplicy, que até agora só viu os navios da vitória petista. Mas lá o PT não é o primeiro, e sim o terceiro partido da Casa. A vaga é do PMDB, a quem será pedida a gentileza. Até agora o PT ainda não ouviu um não no Congresso.

O MINISTRO dos Transportes, Anderson Adauto, pode ter mesmo algo a explicar sobre suas relações com uma empresa acusada de desvio de recursos no interior de Minas. Mas diz-se no governo que ele começou a mexer com muita energia e pressa em esquemas poderosos incrustados no ministério. Esquemas que o detonaram fazendo ressurgir a denúncia sobre um caso antigo.

Tereza Cruvinel


cruvinel@bsb.oglobo.com.br
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