
Marcus Barros
Um médico que põe
o dedo na ferida
e defende a causa seringueira
O Varadouro, junho de 1979
Ele dirigiu o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, o Inpa, onde trabalhou como concursado desde 1975. Especialista em Leishmaniose - doença provocada por ratos -, descobriu a pentamidina. A droga cura os portadores da doença com apenas cinco injeções, contra a média de uma centena de ampolas de outros medicamentos injetáveis.
Marcus Luiz Barroso Barros, o novo presidente do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), foi reitor da Universidade Federal do Amazonas (UFA), de 1989 a 1993, instalou e dirigiu o escritório técnico regional da fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Ministério da Saúde.
Natural do Amazonas, ele é ainda autor e colaborador de 41 trabalhos científicos. Criou o Museu Amazônico para a preservação da cultura dos povos da Amazônia Ocidental, o Centro de Ciências do Ambiente e o Centro de Artes Hannehman Bacelar.
Entrevistado pelo jornal O Varadouro, Marcus causou polêmica ao defender a causa seringueira, em pleno regime militar.
Como você começou a ser médico?
Eu comecei com os índios Ticunas no Amazonas. Comecei a aprender medicina com eles, aprendi realmente com eles. Os Ticunas me ensinaram, na prática, os aforismos de Hipócrates, que começam assim: “Primeiro não prejudicar...” Isto, eu considero de uma sabedoria incrível e da qual os médicos estão fugindo cada vez mais. A grande preocupação do médico hoje é “medicalizar” para se manter no mercado de trabalho. Veja só. Se você adoece de hepatite e vai, digamos, ao meu consultório, se eu tivesse consultório, você tem que sair de lá com qualquer medicação, seja ela qual for, porque, se você não sai com remédio, significa um não-retorno, isto quer dizer “perder divisas”. Então, os Ticunas me ensinaram que existem muitas doenças que você pode curar com o médico, sem o médico e apesar do médico, ou seja, atribuir ao médico o poder que ele possui. O problema é que a sociedade capitalista deu ao médico um poder de cura sem tamanho. Então, quando ele vê o doente à sua frente, ele vê um “serzinho desse tamanhozinho” e o doente também se sente pequenininho. Eu próprio quando adoeço e procuro um médico fico desse tamanho (faz sinal) e, se ele me disser “coma merda três vezes ao dia”, eu como. Entende como é? Uma vez, eu já rasguei uma receita na frente do médico. Ele não queria dizer a doença que eu tinha. Essa sua é uma atitude corajosa, mas a maioria da população não reage assim diante do dito “poder médico”.
Mas voltemos aos Ticunas. O que mais eles te ensinaram?
Ensinaram uma outra coisa importante: aquilo que hoje chamamos de visão generalista da medicina. Aprendi isso lá com eles e, quando comecei a ensinar na Universidade, comecei a ensinar coisas que aprendi com eles e não as que aprendi na Universidade do Rio de Janeiro. Minha tese de pós-graduação foi feita com material que coletei na periferia de Manaus. Graças a isso, voltei ao Amazonas e hoje tenho uma visão menos elitista da medicina. Procuro fugir desse elitismo cada vez mais. Ainda hoje comentava com o pessoal que esse “elitismo” poderá ainda me levar a uma crise existencial, muito em breve. Quer dizer, isso me levaria a voltar novamente a uma comunidade, voltar às origens, porque essa é uma maneira da gente se reciclar, é uma maneira de fugir da sociedade da ganância que força a ir para dentro de um consultório. Até hoje, estou resistindo a isso, não sei até quando. Às vezes, deixo a barba crescer para não parecer aquele médico de consultório e parecer um qualquer, para fugir daquela já clássica dobradinha ‘branco-cara limpa”, que pessoas exigem de você, aquele estereótipo do médico. Faço questão de me manter marginalizado dessa medicina que se faz hoje. Em linhas gerais, é mais ou menos isso.
Mas conta direitinho pra gente quando é que o médico começa a virar fantoche da multinacional das drogas. É ainda nas escolas?
Isso é muito importante. As escolas de medicina brasileiras são forjadas dentro de um padrão europeu, um padrão alemão mais precisamente. Elas criam o médico para medicalizar, ou seja, nas escolas se aprende como atender num consultório! (riso geral). Essa é a estrutura das escolas de medicina; não existe nenhuma preocupação com a saúde preventiva ou saúde pública.
Ou seja, sem preocupação com o homem?
Não existe essa preocupação porque ela não interessa à sociedade capitalista. Apesar dessa nova tendência dita “socializante”, como INPS, Inamps etc, coisa que não acredito que funcione mesmo dentro de uma sociedade capitalista como a nossa. Em síntese, as escolas de medicina brasileiras formam médicos da seguinte maneira: 1) você vai enfrentar o mercado de trabalho; 2) saiba cobrar e cativar o paciente para que ele volte sempre; 3) e mais grave: “vá, meu filho, quanto mais pessoas adoecerem, melhor prá você enricar. Você terá seu Opala, sua fazenda à medida em que as pessoas adoecerem”. Essa ideologia é pregada até às claras. Daí, não estranha quando encontro colegas que enchem o peito e dizem – “pô, não pintou ninguém hoje no consultório!”, quer dizer, isso é a personificação da mercantilização da medicina. Ele quer dizer, em outras palavras, que as pessoas estão adoecendo menos e ele não pode faturar! Ora, esse médico está cumprindo exatamente o que aprendeu na faculdade, que é uma parte celular de um sistema opressor que utiliza o médico como atenuador das condições desse sistema. Se saúde-doenças são um termômetro dessa contradições, o que visa o médico-bunda, formado sem espírito crítico? Dentro de sua ingenuidade burra é utilizado para “medicalizar” pessoas e à medida em que ele medicaliza, ele diminui as contradições, mesmo que seja por um espaço curto de tempo. Embora, elas se acirrarão mais adiante. Quando falta comida e medicamento, quando surge a fome e a doença (a doença é sintoma da fome, quase sempre!), o médico ingênuo entra em ação e acaba por afastar o poder reivindicatório das pessoas. Eu comecei a perceber de modo crítico essa questão da maneira seguinte: quando passei a trabalhar num hospital de doenças infecciosas, aconteceu um fato que me impressionou muito. De 15 em 15 dias eu atendia o pai de uma família de posseiros da BR-174; dias depois, atendi a mãe e um mês depois o filho. Aí, na minha ingenuidade, disse pro posseiro: “Zé, larga essa merda dessa estrada que ela ainda vai acabar contigo”. Ele me respondeu: “doutô, eu não posso; seu só sei lavrar a terra, eu tenho que viver na terra do patrão, plantar arroz e colher...”. Quer dizer, o doutor Marcos Barros, eu, estava como Salomé, entregando de bandeja a cabeça do Zé posseiro para o sistema. Eu recuperava aquele trabalhador em crise malárica, que o deixava às vezes em coma, para o patrão explorá-lo. Eu me dei conta que estava apenas atenuando as contradições do sistema. Se você tem medo da repressão, se você é um cagão, pelo menos não impeça o processo de contradições que geram a mudança...
Mais concretamente, qual o papel do médico nisso?
Pois é, quando ele é consciente, pelo menos, ele não atrapalha a mudança. Mas 90 por cento ainda estão atrelados à mercantilização. E está acontecendo uma coisa interessante: com INPS, Inamps etc, nem todos os médicos, entretanto, podem ter seu consultório. Eles estão apelando para todos os artifícios para manter o status mínimo de possuir o Volkswagen e o relógio Seiko. Ele começa, então, a bicar: bica o INPS, bica na clínica tal, bica outra coisa qualquer, arranja um pequeno sítio para dar produtividade e lazer. Esse é o médico-padrão hoje no Brasil, com o devido respeito ético e com honrosas exceções. E como uma dessa exceções, cito, em nível de organização, o Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro que entrou em greve para reivindicar aumento de 150 por cento do salário-mínimo, para fugir do processo da mercantilização direta que essa dita “socialização” da medicina acarretou. É verdade que ela dissimulou os consultórios, mas gerou uma exploração dentro da exploração, permitiu que grupos de médicos melhor financiamento criassem convênios com o INPS e explorassem médicos recém-formados que são mais fáceis e mão-de-obra mais barata, porque a residência médica ficou restrita a partir de 1968 com a repressão sobre os grevistas. Em síntese, o lascado mesmo é o médico-previdenciário que vai se meter nessas clínicas. Resultado: quem sofre é o paciente porque ele vai ser “despachado” pelo médico do instituto, ao invés de ser atendido. É mais uma vez o sistema capitalista que gera essa relação entre o médico e paciente. Acabou o tempo em que o médico se levantava do bureau para examinar o paciente, tirar a roupa dele e meter a mão na barriga para ver se o fígado está aumentando. Não, ele dá um superolhar biônico e diz: “hemograma completo, exame parasitológico de fezes, urina, EAS...” Esse é o panorama geral da medicina urbana.
Marcos, você é um médico que trabalha na Amazônia. Qual é o tipo de cliente da Amazônia?
A clientela na Amazônia em seu percentual mais elevado está 80 por cento inserida entre aqueles 35 milhões de miseráveis que detêm a miséria absoluta, que ganham abaixo do salário. São pessoas, portanto, que adoecem mais e das doenças ditas tropicais. Aí surge o disparate: as faculdades de medicina não preparam os médicos para atender essa clientela mais necessitada. A contradição do próprio sistema está materializada aí. O médico se super-especializa, passando a competir no mercado de trabalho com altas especialidades porque pensa, por exemplo, que sendo oftalmologista, tratando só de retina, ele vai ficar rico. Aí ele “sifu” porque as alterações de retina, na Amazônia, são muito pouco significativas em relação às verminoses que ele terá que atender, embora se ele tratar de uma retina por mês, ele fatura Cr$ 80 mil e se ele tratar de 80 seringueiros com verminose ele não vai ultrapassar Cr$ 7 mil que é o salário médio pago no Estado do Amazonas. Tornando mais objetiva a resposta, a clientela na Amazônia é constituída por pessoas, no máximo assalariadas, portadoras de doenças infecto-contagiosas.
Geralmente o médico é um cara que entende só de medicina, quando entende. Você, no entanto, parece que está preocupado com a realidade amazônica, teve a preocupação de ir fazer estágio com os Ticunas. Por que isso?
Porque toda a vez que você vai às causas do problema é mais fácil entendê-lo. Você pode até não ter forças para resolvê-lo, mas entendê-lo já é um avanço. Eu só posso entender de doença de massa na Amazônia, as ditas “doenças tropicais”, se eu entender suas causas, sua origem. E a principal causa dessa doenças está no social, na exploração, na relação de poder do patrão que espolia o assalariado, quando é assalariado. Então, quando eu vou pro lado do social, quando entendo o econômico de uma forma mais ampla, começo a entender a história natural das doenças. Feito isso, descubro também a forma de combatê-las, “cortando o mal pela raiz”, como se diz, porque senão embarco no esquema que foi me ensinado na faculdade, ou seja, eu passo apenas a medicalizar os pacientes. Em outras palavras, eu não vejo o homem como um todo, como parte e razão única da sociedade. O médico que não percebe isso, pô!, não está lidando com o homem. Sem esse entendimento, a consciência mínima do econômico-social, é impossível a chamada medicina preventiva, porque se não se vai às origens, é impossível cortar as causas das coenças.
O dr. Roraima (analista clínico da Sucam) afirmou que só 30 por cento dos seringueiros são atingidos pela assistência médica. No entanto, nos últimos tempos, aqui no Acre, ouve-se falar muito num tal de Projeto Seringueiro: um barco de médicos que percorre os rios fazendo atendimento. Esse plano é incentivado pela Sudhevea. Como você analisa isso? Estes médicos parece que ganham muito bem...
Mais de 40 mil cruzeiros.
E foi dito que o resto dos seringueiros não é atendido porque estão muito longe das margens dos rios, como se a culpa fosse do seringueiro...
Pois é, ainda culpam o seringueiro por se afastar do médico (risos). A solução (irônico) seria plantar seringueira na várzea (mais risos).
Interessante que nesse esquema de atendimento da Sudhevea a doença é que tem que se ajustar ao remédio...
A impressão que se tem é que é mais ou menos essa: os médicos vão passando nos portos e bradam – “sentes febre, não me negues” – (voz impostada e circense). E o barco encostou ainda e já estão com o saco de remédio aberto para ser atirado ao povo. E aí quem tem febre, toma aspirina; quem tem febre com frio, toma aralen. Olha gente, eu tenho experiência de medicina preventiva. Na verdade, estes seringueiros produziram tanta borracha para os cofres do Estado, tantas divisas ao país e é dessa maneira ingênua que estão devolvendo; com essa medicina curativa que não vai levar a nada. Uma solução parcial que eu daria, respondendo mais objetivamente à pergunta, seria a busca desse seringueiro onde ele estiver, fazendo um diagnóstico de saúde na área, com vacinações e outras prevenções em cima das doenças que mais ocorrem na região. Mas o objetivo desse projeto é fazer com que o seringueiro se mostre menos reivindicatório, não vá ao Palácio do Governo – como eu vi numa foto no jornal de vocês – reclamar as terras que lhe foram roubadas. Só serve, por outro lado, para mostrar como o Governo é “bonzinho”, que o “Governo está olhando pro seringueiro”, é aquele blá-blá-blá todo. Estes médicos, na verdade, como falei anteriormente, estão entregando a cabeça do seringueiro ao patrão seringalista.
O Noel Nutels, que ficou conhecido como o “índio cor de rosa”, um camarada que dedicou toda sua vida ao trabalho com os índios, e desenvolveu um trabalho na baixada fluminense, pouco antes de morrer reconheceu que os problemas de saúde são muitos e nunca acabam nessa estrutura de produção. Neste sentido, você poderia mostrar concretamente como os países com outro modo de produção, Cuba por exemplo, conseguiram superar muitas barreiras das doenças?
Vou mostrar através de um histórico bem sucinto sobre o que a revolução cubana trouxe à ilha do ponto de vista médico. Ainda há poucos dias, um aluno do Instituto de Medicina Tropical me pediu para dar um exemplo de um país que conseguiu erradicar a malária – e poderíamos acrescentar, não só a malária, mas o sarampo, a disenteria, a poliomielite, etc. Antes um parêntesis para evitar mal entendidos: Não quero dizer que o regime de Cuba seja o ideal para o Brasil. Não, quero deixar isso bem claro, porque acho que o regime pro Brasil será um regime brasileiro, um regime adaptado às nossas condições antropológicas, culturais, etc. Mas o fato é que as doenças desapareceram de Cuba e isso só foi possível devido a uma coisa: à MUDANÇA. E é isso que espero também para o Brasil; é isso que deve ser ensinado nas faculdades de medicina e outras.
Cuba rompeu, então, com o mito das chamadas “doenças tropicais”.
Exatamente! Costumo sempre deixar bem claro que a noção de “doença” ou ‘medicina tropical” é uma noção colonialista, inglesa mais precisamente. Os ingleses chamavam “doenças tropicais” às doenças que existiam em suas colônias da Índia, da África. No próprio “boom” da borracha, aqui no Acre, existiu toda uma estrutura inglesa montada por trás de tudo. A verdade é que não existem propriamente “doenças tropicais”, mas sim doenças de países subdesenvolvidos. Na medida, por exemplo, em que o Acre se tornar um Estado desenvolvido, não haverá mais diarréia que mata crianças cagando fino – e mata mesmo, cumpadre! No Brasil, aliás, acima da malária, existe uma doença pior, que se chama diarréia-infecciosa. Quer dizer, não faz sentido dizer que as doenças são mais na Amazônia porque a Amazônia está localizada nos trópicos, é mais quente ou mais frio. Veja: a Noruega, um país nórdico, enquanto era subdesenvolvido possuía 50 mil leprosos; atualmente existem apenas 13. Pelo amor de Deus, está aí uma prova concreta! Praticamente só existe um país onde a malária foi erradicada e este país chama-se Cuba. Quando o pessoal da Sierra Maestra entrou em Havana, imediatamente veio a reação do segmento mais reacionário da classe média burguesa, que é a classe médica. Allende, no Chile, enfrentou o mesmo problema. Os médicos ajudaram a derrubá-lo porque não aceitavam seu programa socializante. Em Cuba, os médicos eram 6 mil. Quando se implantou o regime revolucionário, ficaram reduzidos à metade – 3 mil, a outra metade preferiu sair do país e ir para Miami (EUA), mesmo enfrentando todas as dificuldades do mercado de trabalho. Mas mesmo assim o que aconteceu? Com apenas 3 mil médicos, Cuba foi erradicando paulatinamente a malária. Mas esse estudante de medicina reagiu argumentando que Cuba é bem menor que o Brasil. Claro, respondi eu, mas fiz ver a ele que antes, com a ditadura de Fulgêncio Batista, Cuba tinha um dos maiores índices de malária e depois de sua queda, Cuba nem aumentou nem diminuiu de tamanho. O negócio é que alguma coisa de muito importante aconteceu em Cuba: foi a mudança do modo de produção!, onde o homem foi colocado como centro do sistema, onde o homem deixou de ser explorado e passou a produzir e ser senhor de si próprio e trabalhando para a coletividade. Vou, então, objetivar ainda mais esta resposta: só acredito numa medicina preventiva quando ela vem de um sistema que coloca o homem como centro.
Que relação existe, então, entre fome, doença e miséria?
Muito clara, muito objetiva. Os médicos é que têm a capacidade de crismar a fome com nomes complicados de doenças...
Quer dizer que eles sofisticaram, por exemplo, o nome da caganeira?
Sofisticaram o nome da caganeira e deram o nome de “tripanosoníase-cruze” (risos), mas o nome disso mesmo é fome, minha gente, f o m e! (soletrando), ou em palavras mais compreensíveis ainda: falta de engolir por aqui para poder cagar grosso ou fino.
Quer dizer, então, que os médicos são muito bons para sustentar o regime capitalista?
Você entendeu com muita lucidez a questão. É uma das classes mais aliadas a esse regime capitalista.
Achei muito interessante aquela relação que você fez na conferência, do Ceseme, entre os momentos de expansão do Capital na Amazônia e o surgimento de doenças. Poderia repetir alguma coisa?
Esse é um aspecto muito importante. Quando nos convidaram para participar do Movimento de Defesa do Meio Ambiente do Acre, voltei aquela minha preocupação para a história da região. Utilizando dessa ferramenta histórica, a gente percebe que enquanto houve a exploração, a espoliação, as doenças se aguçaram na região. Vou dar um exemplo da 1ª fase do “boom” da borracha, não no Estado do Acre, mas no vizinho Território de Rondônia, na construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Vocês devem saber que havia um trecho muito ruim, no qual as pelas de borracha eram perdidas em 50 por cento; perdiam-se na corredeira. Ora, isso estava prejudicando a produtividade. Para contornar o problema, o Império-inglês, através de duas grandes empresas, a Port of Pará e a Madeira-Mamoré Railway, tentou construir uma estrada de ferro, que saía de Porto Velho a Guajará-Mirim. Acontece que esta estrada foi construída numa área malarígena e cruzando áreas indígenas importantes. Naturalmente, houve a reação dos índios, mas os construtores também reagiram aos índios de uma maneira interessante: colocavam, durante a noite, alta-tensão nos trilhos; os índios vinham para arrancar os trilhos e ficavam eletrocutados. Mas acontece que a malária era associada dos índios. Eles matavam os índios com a alta-tensão, mas a malária vinha e lascava com a alma deles. Ficou até um dito na história da Madeira-Mamoré: “Para cada dormente de estrada, um homem morto por malária”. Aí a Inglaterra lançou quilos de libras esterlinas para acabar com a malária e montou o seguinte esquema: o capataz da estrada quando entregava a manutenção – o aviamento – para o trabalhador, entregava junto um comprimido de quinino, o qual tinha de ser tomado na frente do capataz, e a casa tinha que ser telada para evitar o carapanã da malária. Mas a natureza (os anofelinos) se vingaram pelos índios, derrubando um por um e realmente foi a malária que fez a estrada parar. Surge um fato interessante: Oswaldo Cruz, a maior expressão médica da época, junto com Carlos Chagas, foram contratados no Rio de Janeiro, passaram por Belém e vieram pro Alto-Madeira. Fizeram relatórios incríveis sobre a situação do Alto-Madeira e depois da Bacia Amazônica; estiveram inclusive no Acre – em Feijó, Xapuri – em 1910. Oswaldo Cruz, no seu relatório, escreveu: “Basta uma ação saneadora séria por parte do Governo e o duende da Amazônia – a malária – ruirá por terra”. Quer dizer, com uma visão de sanitarista e de homem de saúde pública, ele dizia que só havia aquela solução. Na verdade, não dizia mais explicitamente que a mudança do modo de produção é que iria modificar a situação, mas dizia nas entrelinhas. Essa foi a primeira fase da história: estabeleceu-se uma relação direta entre o seringueiro, utilizado como mão-de-obra barata, a doença e o extrativismo, entre a seringueira e o doente. E a malária comeu solta. Na medida em que os preços da borracha baixavam, a malária começou a desaparecer, ou seja, a cada agressão correspondia uma reação. Durante a 2ª Guerra, novamente é lançada uma outra frente da borracha e novamente o nordestino foi utilizado como mão-de-obra barata; vieram os “soldados da borracha” e muitos deles morreram de malária, morreram de todas essas doenças ditas “tropicais”, como a leishmaniose. Hoje mesmo, andando lá pelo mercadom eu disse – “olha ali um soldado da borracha sem o nariz. Aquilo é leishmaniose, adquirida durante a extração da borracha”. Os seringueiros-nordestinos pagaram um tributo muito caro: muitos com a vida, muitos com mutilações. E vocês sabem que até hoje nada voltou para eles. Se fizermos um gráfico, vamos verificar que a cada grande investida econômica na Amazônia, corresponde a surtos de endemias. Mas – continuando nossa história: por último a borracha sifu e o Governo, já em anos recentes, passou a mobilizar tropas com certa velocidade para a Amazônia. Traçou-se o Plano Viário, com o Coronel Andreazza, que atualmente voltou ao Poder como Ministro do Interior. O objetivo das estradas era fazer chegar tropas o mais rápido possível à fronteira da Venezuela, por exemplo, para combater um foco de guerrilha. As agrovilas e os rurópolis eram apenas para justificar gastos excessivos de verbas. Começa, então, a grande terceira investida contra a Amazônia e esta foi pior, porque há todo o acervo tecnológico a serviço da destruição – a moto-serra, o Catterpilar etc., que fez grandes devastações (da Volkswagen, da Aplub, dos projetos agropecuários no Acre. Esse plano do Governo correspondeu outra investida sobre o homem da região e essa investida significou mais doenças. Só para dar um exemplo: de 1976 para cá eu pessoalmente atendi 1.500 casos de leishmaniose, sem contar os de malária – duas doenças típicas de áreas de desmatamento, da agressão, da agressão até certo ponto ingênua desse homem utilizado como ponta-de-lança das multinacionais. Em síntese, todas as grandes investidas foram fruto da exploração; e sendo ponta-de-lança este homem estava mais próximo da máquina exploradora e a máquina exploradora mais próxima da volta, do troco da natureza agredida, que é a doença.
Você falou que houve três agressões e a última está sendo mais violenta. Você falou em segurança nacional, plano viário etc. Mas será que ela não está sendo mais violenta porque visa a acumulação do capital, a expansão do capitalismo também na Amazônia. Será que este aspecto não é talvez um ponto mais importante do que a própria ideologia da segurança nacional?
Acredito que sim, mas a mobilização de tropas foi um negócio muito importante e acho que as duas coisas estão conjugadas: o econômico para a exploração da Amazônia e a segurança nacional, sublimados na integração da Amazônia ao resto do país.