
Integrante histórica do mercado acreano, categoria sobrevive descarregando caminhões para empresas de construção
Flaviano Schneider
Fundado em 1959, o Sindicato dos Estivadores de Rio Branco já foi uma potência, um dos maiores empregadores da cidade, com centenas de acreanos ganhando a vida, percebendo uma renda compensadora, carregando e descarregando balsas, que traziam os mais variados tipos de mercadorias e lavando castanha e borracha os principais produtos de exportação da região.
Hoje a situação é bem diferente. Com apenas 56 sócios, o sindicato batalha para arranjar serviço para todo mundo, mas está difícil. A borracha acabou, a castanha, que era a grande vedete, hoje não é exportada mais em grande quantidade como antigamente e as balsas praticamente foram extintas, com a facilidade do transporte via terrestre. Ainda assim vai sobrevivendo.
Se antes as balsas eram fonte de trabalho, hoje o principal serviço é descarregar caminhões, principalmente das empresas revendedoras de material de construção. Até as castanhas que ainda são exportadas vão de caminhão para Porto Velho, de onde seguem para Manaus de balsa.
O trabalho é duro, mas quando
aparece, o estivador agradece
Na sede do sindicato, situado no II Distrito, os estivadores passam o dia esperando serviço, sentados à beira de uma mesa de dominó, contando casos do passado e esperando aposentadoria que nunca vem. Os estivadores tem opiniões contraditórias com respeito à profissão, variando da conformação à vontade de mudar de vida. Normalmente, um estivador consegue trabalhar três dias por semana, conseguindo apurar uma média de 400 reais por mês.
Os sócios são chamado ao serviço através de uma tabela, para que todos tenham as mesmas oportunidades. Quando um deles fica doente e não pode comparecer, os outros colaboram com pequenas quantidades do apurado para ajudar o companheiro em dificuldade.
Com relação à castanha, cada saco com cinco latas fazem, uma medida e o sindicato recebe 30 centavos par o transporte do armazém para o caminhão.
Ontem, cerca de 10 estivadores trabalhavam intensamente para embarcar 5 mil latas de castanha com destino a Porto Velho. A média do ganho de cada um deles é de R$ 30, mas cada um desconta R$ 1,50 para pagamento das despesas na sede do Sindicato com água, luz, material de expediente, etc.
Diferentes histórias de quem ajudou a construir o Acre
Antônio de Oliveira trabalha já há mais de 30 anos como estivador. Ontem, ele estava particularmente feliz porque sua filha de 21 anos estava se casando. Ele não se arrepende de ter seguido a profissão e explica que deu para construir sua casa e criar as duas filhas. Só não se conforma com o fato de não conseguir sua aposentadoria.
Segundo Antônio, o INSS chegou a pagar-lhe 5 meses mas depois interrompeu. Ele garante que tem o direito pois já trabalhara 25 anos, patamar que foi mudado pelo presidente. Ele conta que no dia 20 de abril vai fazer 6 anos que espera decisão favorável do INSS.
O colega Francisco Alfredo Fernandes entrou no sindicato à mesma época de Antônio, mas deu mais sorte pois conseguiu aposentadoria. Nem assim parou de trabalhar, pois a aposentadoria muito pequena não dá para as despesas.
Sebastião Estêvão de Oliveira está satisfeito com a profissão mas se lembra com saudade dos anos em que havia muito serviço para todos. Ele conta que em 1986 foram carregadas 11 balsas, com 12 mil medidas de castanha, tudo de um só comprador, Sérgio Mutran. “Hoje não tem mais disso” - conforma-se.
Mas os estivadores não são apenas velhos, existem também aqueles admitidos recentemente, embora admissões sejam cada vez mais raras devido à diminuição do serviço. Alonso Araújo da Silva é bem jovem, casado e considera que para quem não tem outra opção a vida de estivador é melhor que nada, dá para manter a família. Ontem ele estava satisfeito, carregando o caminhão de castanha.
Alonso conta que daria para faturar uns R$ 30,00 pelo serviço de ontem; no total durante o mês ele consegue apurar cerca de R$ 400,00. Mas ele pensa no futuro e para isso está estudando faltando apenas eliminar duas matérias para completar o Ensino Médio e posteriormente pensa em conseguir outro emprego. A jornada de ontem, segundo ele e um colega, deveria se estender até as 23 horas.
Castanha do Acre é exportada in natura
Exportação de castanha continua apesar da queda. A empresa Mutran que era a grande compradora de castanha no passado já não compra mais. Hoje. a maior parte da compra de castanha do Acre é feita pela firma Companhia Industrial e Exportadora (CIEX), de Manaus. A firma prefere comprar a castanha no Acre, embarcá-la de caminhão para Porto Velho e de lá reembarcar em balsas para Manaus. Ontem estavam sendo embarcadas 5 mil latas, mas o encarregado da firma não sabia dizer o volume comprado este ano no Acre.
No ano passado, a Ciex comprou cerca de 25 toneladas no Acre conforme explicou Lúcio Ferreira de Castro. Ele trabalha desde 1978 na empresa e embora esteja aposentado continua a trabalhar por ser um especialista em conferir e classificar a castanha. Lúcio conta que a empresa pretende aumentar as compras de castanha que depois de beneficiada em Manaus, vai exportada para Europa e Estados Unidos. Neste ano, com a demora do inverno a colheita de castanha vai se estendendo por mais tempo. Lúcio conta que quando o inverno chega cedo a safra de castanha também vem antes. A empresa CIEX trabalha ainda com a compra de malva e juta, no Amazonas e Pará.