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Rio Branco - Acre, domingo, 26 de janeiro de 2003
Projeto quer trazer de volta a glória
dos antigos carnavais de rua

Falta só apoio para Rio Branco ter novamente as
escolas de samba que brilharam nas décadas de 70 e 80

Josafá Batista

Cultura, arte, folclore. O carnaval acreano foi isso, antes de sua gradual extinção, iniciada em 1991. Em plena recessão econômica, resultante do “programa de estabilização econômica” do Plano Collor, o governador Edmundo Pinto bloqueou os recursos que o Estado repassava diretamente às escolas e viabilizavam a festa.

Foi o início de um ciclo. Nunca mais o poder público conseguiu dispor de uma verba para esse fim. Não se sabe sequer por que cargas d’água algum parlamentar não propôs uma emenda ao Orçamento Geral da União (OGU) reivindicando o montante necessário. “Se alguém pediu, não fiquei sabendo”, diz Genildo Fraga de Mendonça, 48, ex-presidente da Escola de Samba Unidos do Bairro Quinze, uma das maiores da época.

A Unidos, a exemplo de todas as outras escolas, acabou se extinguindo por pura inanição financeira. Gradativamente, mestres-salas, porta-bandeiras e rainhas de baterias foram sumindo dos carnavais de Rio Branco. Na metade da década de 90, nenhuma dessas figuras existiam mais.

Desfiles, sambas-enredos com temas da cultura acreana, brilhos, plumas e paetês foram pouco a pouco transformando-se no atual pum-pã, pum-pã do tal “axé music” eletrônico que domina a praça Plácido de Castro na quina carnavalesca.

Das antigas sedes das escolas de samba restam apenas as ruínas dos prédios. E uma saudade imensa e inconsolável de homens que hoje lutam ardorosa e solitariamente por apoio, pelo retorno do antigo ritmo. Como Genildo Fraga, por exemplo.

Rio Branco já teve a melhor folia do Norte brasileiro

Uma avaliação da Comissão Carnavalesca do Estado do Rio de Janeiro visitou o Acre em fevereiro de 1989. A equipe fazia um levantamento da festa mais popular do Brasil em cada Estado brasileiro. Somados todos os pontos, o luxo, o ritmo, o frenesi e a criatividade acreana renderam o primeiro lugar em todo o Norte.

“Nem Manaus, Belém, Porto Velho, Boa Vista, Macapá, nada. Rio Branco foi considerado disparado o melhor carnaval da região Norte. A exuberância das nossas cores, a originalidade dos nossos sambas e a beleza das nossas caboclas, que lembraram a mestiçagem que também ocorre nas mulatas cariocas, acabaram nos dando esse título”, relembra Genildo Fraga.

É bom salientar que nem só de samba vive o carnaval. A festa tem um forte apelo econômico, com aquecimento de praticamente todos os setores. Da hotelaria ao profissional autônomo, passando por costureiros, construtores e vários funcionários contratados diretamente e beneficiados indiretamente pelas escolas, pelo menos duas centenas de pessoas costumam participar do produto final colocado na avenida.

“É uma festa com muitos dividendos econômicos, o que faz pensar: por que o governo deixou que ela acabasse? Na verdade, os empresários que patrocinam um carnaval nunca saem perdendo. Principalmente agora, com a abertura do Estado ao Oceano Pacífico, é que temos de para atrai-los com nossas particularidades culturais”, argumenta o carnavalesco.

Carnaval acreano: um patrimônio cultural

Quem olha as fotografias e ouve os relatos da festa momesca realizada até o final da década de 80 tem a idéia de um evento cívico. Não deixa de ser. Os samba-enredos acreanos eram tão ligados à cultura acreana, por meio das raízes folclóricas e históricas do Estado, que a imprensa do Sudeste passou a classificar os acreanos como “um dos povos com maior índice de orgulho pátrio de todo o Brasil”.

Nasce daí a lamentação dos carnavalescos que sobreviveram à dizimação cultural da festa. A perda foi estritamente artística, muito além da musical ou festiva. O desemprego, outro dos fantasmas sociais que deriva e anda ao lado da ausência de identidade cultural, é outra triste conseqüência hoje a arrancar os cabelos da administração estadual.

Hoje, o carnaval acreano, especialmente o da capital, pouco tem de cultural. Não passa de uma grande concentração de pessoas, ao som de baladas de axé music e som eletrônico, alternados com forró, e, de vez em quando, pagode (o ritmo arquiinimigo dos sambistas genuínos). Do carnaval mesmo, pouco restou - como o rei e a rainha, por exemplo.

Simbolicamente, todos os anos o prefeito de Rio Branco entrega a chave da cidade às mãos do rei Momo. Claro, é um ato simbólico. Mas não deixa de ser cômico. Tanto o rei quanto a rainha estão totalmente fora de seu contexto original. Das escolas de samba, do enredo, das passistas, da bateria, das fantasias e principalmente do enredo de cada escola.

Como reis sem reinado, as majestades imperam num espaço público onde a polícia militar se esforça para que tudo não acabe em sangue. Isso porque a maioria dos dançantes acha que a festa é simplesmente mais um narcótico, uma forma de brincar e esquecer o ritmo louco da vida urbana. E não é. Carnaval é cultura.

Treinamento voluntário pretende
recuperar o brilho da festa

Uma oficina popular, patrocinada pelo poder público (estadual ou municipal) está sendo proposta por um grupo de carnavalescos antigos. A idéia é recuperar o carnaval de rua e preparar jovens para recriar a glória dos antigos festivais. O projeto, denominado de “1ª Oficina de Carnaval”, deve chegar às mãos das principais autoridades públicas ainda esta semana.

Segundo Genildo Fraga, os objetivos do seminário são aprimorar conhecimentos técnicos dos dirigentes e participantes das diversas escolas de samba e outras agremiações carnavalescas que marcaram época no carnaval do Estado.

Depois o grupo quer formar mão-de-obra qualificada para a produção de eventos carnavalescos, revitalizar os desfiles de Rio Branco, ampliar o potencial turístico e reencontrar a identidade carnavalesca local.

O curso intensivo tem oito dias corridos como prazo de execução. A entidade argumenta que Rio Branco precisa ocupar a juventude nas mais diversas atividades culturais, revitalizar os desfiles de escolas de samba e blocos e resgatar a tradição de melhor carnaval do norte.

A idéia não é descabida. A festa momesca é conhecida em todo o país como fonte de turismo e geração de empregos. A cidade de Joaçaba (SC), por exemplo, realizou uma oficina semelhante e conseguiu receber até 30 mil turistas durante o período carnavalesco. Joaçaba tem seis vezes menos moradores que a capital acreana.

Letras de sambas-enredos: mostra de acreanidade

“O bairro Quinze
Chegou para ficar
No Segundo Distrito
A tendência é mudar

Rua Dezessete de Novembro
É Senador Eduardo Assmar
A Empresa Zacour
Já passou pro lado de lá

A Gameleira
Tentaram derrubar
Não mais existe
A fábrica de guaraná

Das cabeceiras da ponte
Caiu a do nosso lado
E o Cine Recreio
É um espaço cultural abandonado
Aos domingos à tarde
Na matinê
Tinha revistas em quadrinhos
E picolé para vender
O café do Pinheiro
Convém lembrar
E da Donana
O saudoso tacacá

Pergunto, pergunto eu
Onde tudo foi parar?

Nas noites de farra
Para completar
Tinha o brotinho pra beber
Eliezer pra comer
A Tentamen pra dançar
E no Madrid
Jogavam bilhar

Pergunto, pergunto eu
Onde tudo foi parar?
Do lado de lá.”
(Samba-enredo da Escola de Samba Unidos do Bairro Quinze, em 1986)


“Tenho orgulho de contar
O que no Quinze aconteceu
Em 18 de setembro
De Mil Novecentos e Dois

Foi na Volta da Empreza
Frente no forte de Veneza
Que beleza
A heroína apareceu

Combate rápido
Desastroso efeito
Para as esposas acreanas
Não houve jeito

Angelina Gonçalves
Não hesitou
Seu marido tombado
O rifle empunhou

Acertou o primeiro
Que à sua frente passou
Tinha destino certo
O disparo vingador

Lembrei de coisa nobre
Fato que dá emoção

BIS – Nossa Angelina
A heroína da Revolução.”
(Samba-enredo do bloco Unidos do 15, em 1988)

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