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Juruá e Solimões: estradas aquáticas para milhares de ribeirinhos amazônicos

Odair Leal
Um rio que chora


Leonildo Rosas

O amazônida é constituído de água e mata. Isso é comprovado quando se cruza os rios da Amazônia e se depara com tanta beleza, biodiversidade, riqueza e pobreza numa das regiões mais ricas do planeta.

Viajamos de Cruzeiro do Sul a Manaus. Partimos, num rio Juruá quase cheio, de águas barrentas e caudalosas.

O motor de 600 HP do barco Igaratim-Açu – canoa grande em tupi guarani - de 28 metros de comprimento por sete metros de largura quebrou o eixo propulsor quando subia de Manaus para Cruzeiro do Sul, numa viagem de 20 dias, para buscar os membros da expedição organizada pela mesa diretora da Assembléia Legislativa do Acre (Aleac).

O incidente com o eixo fez com que a descida até a capital amazonense fosse feita empurrada por um rebocador.

Viajar empurrado por rebocador é viajar com o perigo. O operador da máquina não tem visão do que vem pela frente. Ele está atrás do barco. Sua visibilidade é apenas das margens do rio. Qualquer erro pode levar a embarcação para dentro da mata. Durante a noite o risco é ainda maior porque a forte neblina tira a visão.

Instrumento fundamental de comunicação, o rádio perde utilidade durante a maior parte da viagem. Não há grandes embarcações subindo e descendo até Eirunepé, cidade localizada a 508 milhas/náuticas de Cruzeiro do Sul, o que equivale por água a 940, 8 quilômetros. Até o Solimões a situação não é diferente.

“Muitas vezes, quando viajamos rebocando balsas carregadas, elas se desgovernam e invadem a mata na beira do rio. Um dia, levamos uma casa inteira. Felizmente, não tinha ninguém dentro”, relembra o operador de rebocador Francisco Mendes.

O Juruá nasce em solo peruano e atravessa parte do Acre até desaguar no rio Solimões. O rio tem grande importantância para a região, servindo como hidrovia para diversas comunidades, já que rodovias são inexistentes na maior parte de seu curso.

Ao cruzar a fronteira com o Brasil, a primeira comunidade é Foz do Breu. Ainda no Acre, ficam às suas margens as cidades de Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul. Cidades amazonenses também são banhadas por ele: Guajará, Ipixuna, Eirunepé, Itamarati, Carauari e Juruá são exemplos.

Em linha reta, a distância até Manaus, partindo de Cruzeiro do Sul, é de 1.486 quilômetro. Mas por água a situação é diferente. O percurso salta para 3.190,9 quilômetros em razão das muitas curvas.

Odair Leal
Passageiros da Expedição Juruá no embarque na cidade de Cruzeiro do Sul

Com a quebra da peça do barco, a viagem, que poderia ser feita numa velocidade de até 17 milhas/náuticas, o equivalente a 31,48 quilômetros/hora, passou a ser numa velocidade média de 8,5 milhas/náuticas, o que corresponde a 15,74 quilômetros/hora.

Para acalmar os passageiros preocupados com a aparente lentidão, o comandante Ocemir Ferreira, 34, informou que, mesmo que o motor do barco estivesse funcionando plenamente não seria dada a velocidade máxima por questão de segurança.

Essa foi a primeira expedição política na história, partindo da segunda maior cidade acreana para a capital do Amazonas.

A idéia dos parlamentares é abrir o debate sobre o potencial hidrográfico do Estado e destacar o papel importante que os rios têm para o desenvolvimento, no momento em que se vive a expectativa da integração do Acre de Rio Branco a Cruzeiro do Sul pela BR-364, a partir de 2010.

A maioria dos cinco parlamentares que compôs a expedição tem ligações afetivas e históricas com o rio. Edvaldo Magalhães nasceu no Juruá, seu pai, Dílson Magalhães, foi o primeiro comerciante cruzeirense a subir e chegar a Cruzeiro do Sul com uma balsa carregada de produtos. Juarez Leitão (PT) nasceu e se criou num seringal nas margens do rio Jurupari, em Feijó. Perpétua de Sá (PT) foi eleita com votação expressiva em Marechal Thaumaturgo, primeira cidade acreana no Alto Juruá. Luiz Calixto (PDT) e Naluh Gouveia (sem partido) nasceram em Tarauacá e Feijó, respectivamente. Os outros 19 integrantes são jornalistas, assessores legislativos e convidados.

Um outro objetivo da expedição, segundo o presidente da Assembléia Legislativa, Edvaldo Magalhães (PC do B), é o de despertar nos governantes e nos moradores da região o potencial turístico que existe na Amazônia a partir de uma cidade acreana.

“Por conta de um modelo de desenvolvimento equivocado, nós, durante anos, demos as costas para os nossos rios. Está na hora de voltarmos a olhar para as nossas origens”, comenta Magalhães.

As palavras de Magalhães encontram eco na história. A ocupação do Acre se deu pelos rios. E, mesmo com alternativas terrestres e aéreas para o transporte de mercadorias, eles continuarão sendo vias fundamentais para o abastecimento durante muitos anos.

Juruá é o “Rio que chora”. Na década de 90, o padre de Carauari João Dericks publicou um livro pela Editora Vozes com esse título. O religioso falava sobre a luta e o sofrimento dos índios, ribeirinhos e seringueiros para fugir do jugo dos coronéis de barranco da região do Médio Juruá.

Nos últimos anos, por força das organizações não governamentais como Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e o Movimento de Educação Básica (MEB) e outros os avanços são perceptíveis, mas ainda há muito a ser feito.

O Juruá é um rio de muitas belezas naturais, mas há imagens e situações que fazem chorar, como a falta de infra-estrutura, as muitas noites no escuro convivendo com mordidas de carapanãs, piuns e meruins por falta de óleo diesel para abastecer a poronga.

É uma região que tem problemas sociais e de saúde crônicos, a maioria deles detectado pelo sanitarista Carlos Chagas, que, em 1912, fez uma expedição à Amazônia, onde pesquisou as condições de vida da população local e fez um levantamento médico-sanitário da região. A malária, a febre amarela e a hepatite continuam matando muita gente.

Mas a viagem foi fundamental para poder compreender como é difícil morar na região, principalmente para o abastecimento das cidades, que aproveitam as cheias dos rios para se preparar contras as dificuldades que sempre vêm ano a ano quando as águas baixam.

A partida

Partimos de Cruzeiro do Sul num momento em que muitas balsas estão atracadas no porto cheias de gêneros alimentícios. Subiram até 30 dias num ritmo lento para chegar até ali. A descida será mais rápida. As embarcações descerão recheadas de farinha. A movimentação nos portos é intensa neste período do ano.

Ao longo da sua existência, o povo do Juruá vive a fábula da Formiga e a Cigarra ao contrário: aproveita as cheias dos rios no inverno para se abastecer para as dificuldades que virão no verão, quando as águas baixam.

É complexa a logística para garantir o abastecimento nas cidades da região ribeirinha da Amazônia. Os grandes comerciantes adquirem produtos industrializados nos grandes centros do Sudeste do Brasil, que são transportados por estradas até Porto Velho (RO).

Da capital rondoniense, a mercadoria é levada de balsas pelo Rio Madeira até o Solimões. Elas descem para Manaus, onde recebem novos itens que serão levados para cidades como Carauari, Eirunepé, Ipixuna, Cruzeiro do Sul, Feijó e Tarauacá. É uma operação que chega a durar 40 dias.

É impossível viajar pelo rio sem lembrar do heroísmo dos homens e mulheres que, no fim do século XIX e no início do século XX, deixaram parentes e sua terra natal para trás para enfrentar os riscos do desconhecido na Amazônia.

O Acre é filho dos rios. O ponto de partida da maioria dos desbravadores foi o nosso ponto de chegada: Manaus. Foi por água que Luiz Galvez, Plácido de Castro, Euclides da Cunha, Belarmino Mendonça e tantos outros bravos seringueiros chegaram em terras acreanas para lutar contra o exército boliviano e os caucheiros peruanos pela posse definitiva do território.

A maioria eram homens e mulheres que fugiram da seca do nordeste para vir para um deserto demográfico na selva. Enfrentaram o fenômeno climático e toda sorte de adversidades desconhecidas em busca do ouro negro. Muitos nunca voltaram. Vários morreram numa região cheia de água, índios, endemias e animais ferozes. Mesmo assim, os sobreviventes não se deixaram vencer nem pela saudade nem pela solidão.

Odair Leal
Homem transporta gás solitário pelo rio Juruá

Um paraíso e seus problemas

O Juruá não é apenas via de transporte de mercadorias. Há muita vida em toda a sua extensão. Enquanto homens trabalham, os meninos e meninas parecem ter asas por instantes e voam em queda livre para dentro do rio. As crianças da região aprendem a nadar antes mesmo de aprender a andar. É uma regra de sobrevivência. O chuveiro deles é o rio.

Nossa expedição partiu lentamente de Cruzeiro do Sul. A cidade ficou para trás na primeira curva, mas voltou a surgir na curva seguinte. O Juruá é assim: um rio de muitas curvas nos seus 3.350 metros de extensão. Está entre os mais sinuosos do mundo. A sinuosidade é tanta, que os pilotos das embarcações precisam diminuir a velocidade para fazer as manobras.

O rio tem sua movimentação própria. Muitas canoas – pequenas e grandes – transitam com seus motores de rabetas pilotadas por homens solitários. Alguns levam famílias e mantimentos.

É impressionante como uma mesma paisagem se renova a cada instante. A vista não cansa de ver tanta água e tanta mata. Apenas o céu muda a tonalidade conforme o movimento das nuvens.

O pensamento sobre a riqueza que há nas águas e na floresta é inevitável. Sem dúvida, há caça e pesca suficiente para manter alimentadas várias gerações.

O rio é uma estrada para o amazônida. Navios recreios com redes enfileiradas quase sempre estão lotados de pessoas que vêm e que vão. São os meios de transportes coletivos da Amazônia. As embarcações não são concessões públicas, são privadas e têm nomes de mulheres ou filhas amadas.

Enquanto os barcos, batelões, canoas, balsas e recreios passam, os ribeirinhos saúdam com as mãos abertas e braços para cima com a felicidade típica dos felizes. Tanto quem fica na beira do rio quanto quem passa no seu leito nunca se viram e jamais se verão, mas tornam-se amigos por poucos instantes.

Nos quintais, janelas e portas há muitas mulheres, quase todas com crianças no colo ou na barriga. Algumas ainda são crianças esperando ser mãe de outras crianças. Os bebês acabam se tornando boneca de carne e osso no colo de meninas que acabaram de entrar na adolescência.

Os ribeirinhos procriam numa rapidez espantosa. Faz lembrar a lenda do boto, que sai do rio dm forma de homem para, nas noites de festas, seduzir e engravidar as belas moças. Mas, nesse caso, os fatos são reais.

A vida nos rios e matas da Amazônia segue um ritmo lento como dever ser. Há uma paz dos que ficam que se transporta para quem passa. Inconscientemente, o viajante faz uma oração como que agradecendo pela dádiva da natureza. Adultos trabalham. Crianças brincam e trabalham. É uma outra vida. O tempo não segue a cronologia normal. O calendário é sol e a lua. Tudo depende das cheias e das vazantes.

O rio se assemelha há uma mulher grávida. E ele sempre está grávido porque produz e alimenta milhares de vidas. Ao longo da sua extensão estão sete municípios amazonenses, quatro acreanos e dezenas de comunidades.

É raro, mas dá para ver sinais da tecnologia em plena floresta. Algumas antenas parabólicas são vistas nas pequenas casas de paxiúba cobertas por palha. Barcos pequenos cheios de índios navegam com placa de luz solar. Também é possível ver a presença da preferência futebolística: muitos ribeirinhos trajam a camisa do Flamengo do Rio de Janeiro enquanto conduzem suas canoas rumo ao seu destino.

Quem vive em meio à agitação urbana não consegue entender como é que o amazônida vive no meio do nada. São protetores da floresta e, consequentemente, da biodiversidade.

O rio não sofre os reflexos da ação devastadora do homem. A poluição está longe. Há uma simbiose entre ele e a natureza, embora seja possível ver o resquício da ação poluente por meio de raras garrafas de plástico que descem rio abaixo. Vêm das cidades.

Também há desmatamento. Sem assistência técnica necessária, o amazônida desmata áreas próximas para plantar macaxeira e milho. Mandioca, peixe e caça são alimentos que garantem a sobrevivência. Sem farinha, o homem não tem força para trabalhar.

As árvores derrubadas no verão são levadas pelo rio no inverno. Os balseiros vão ao encontro das embarcações. É preciso perícia e cuidado para que elas não provoquem acidentes sérios aos viajantes. O efeito à natureza é inevitável. Não há política de manejo florestal. A cada ano, novas áreas necessitaram ser derrubadas e queimadas.

No fim da tarde, o silêncio é quebrado pelo cantar dos pássaros que ofuscam o som do motor dos barcos. É difícil vê-los, mas o viajante segue no tocar da música. Os botos cor-de-rosa – golfinhos da Amazônia – surgem como se tivessem fazendo um show particular. O espetáculo dura segundos, mas é belíssimo e eterno para quem vê. As garças voam com a elegância própria delas. Os olhos fotografam momentos para eternizar na memória.

Há gado na floresta. Pequenos rebanhos são vistos de forma espaçada. Também há galinhas nos quintais. Os ribeirinhos têm os animais como uma forma de poupança e garantia de alimentação. Mas, uma prova de que a pecuária não dá certo na Amazônia é dada quando os rios chegam à plenitude de sua cheia: para alimentar o gado, os produtores constroem balsas improvisadas com tocos grandes de madeira e deixam canarana para os bichos comerem. Os animais domésticos passam pela mesma situação.

A impressão que fica é que o povo não necessita de governo. Ele mesmo decide sobre a governabilidade do seu destino. Define suas políticas e elege as prioridades, que não são muitas.

Quando cai a tarde e a noite vem, as pequenas casas se apagam com o sol. O céu toma uma cor avermelhada que parece mergulhar no rio. A imagem é bela e melancólica. Alguns vaga-lumes alumiam a noite. Porongas são vistas pelas janelas para clarear o caminho para o dia seguinte de trabalho e natureza. As luzes mais fortes são dos barcos, que precisam continuar a viagem na escuridão de breu.

O Juruá é um rio de histórias. Muitas contadas pelos homens que nele trabalham. Em algumas localidades é possível ver resquícios dos tempos dos coronéis de barrancos. Uma dessas localidades é o antigo Seringal Monte Lídia, onde um tronco com corrente não deixa esquecer as barbaridades cometidas.

Os casos são contados com orgulho pelos descendentes dos antigos proprietários e recontadas pelos viajantes. Uma dela dá conta de que os seringueiros que tinham saldo eram incentivados a subir num pé de açaí para retirar o fruto, mas, quando chegavam ao alto, eram abatidos a tiro. Não recebiam o dinheiro. Perdiam a vida.

Outras histórias menos trágicas envolvem as comunidades indígenas, que são muitas e, pelo aspecto das suas casas, mas bem tratados pelo poder público. “Uma vez, nós paramos na comunidade de Penedo e deixamos a embarcação aberta. Quando retornamos, os caboclos tinham levado até solução de bateria pensando que era refrigerante. Os botões dos aparelhos de ares-condicionados foram levados. Na certa, eles pensavam que eram botões de rádio”, brincou o operador de rebocador Rosildo dos Santos, 33.

Santos fala dos madihá ou kulinas. Chamados de coletores pelos antropólogos, são semi-nômades. Quando chegam às comunidades e encontram as casas vazias invadem, levam utensílios e animais domésticos.

Há religiosidade no rio. Aos sábados e domingos, evangélicos sobem às comunidade levando a palavra de Deus. Agem como se tentassem buscar almas perdidas no meio do paraíso. Não é uma missão difícil. Quem mora numa região tão rica e bela certamente está bem próximo de Deus.

Odair Leal
Moradores observam passagem da expedição

Uma parada em Eirunepé

Após 50 horas de viagem ininterrupta, a expedição fez a sua primeira parada em Eirunepé, uma típica cidade amazonense de quase 30 mil habitantes à beira do Juruá e a 508 milhas/náuticas de Cruzeiro do Sul, mas que tem o mesmo fuso horário do Acre.

Semanalmente, o município recebe três vôos vindos de Manaus. O aeroporto tem capacidade para receber aeronaves de grandes portes e pode ser ampliado - os americanos querem montar uma base na localidade, sob a alegação de quer Tabatinga é muito próximo da Venezuela. Mas é pelo rio que o abastecimento chega.

Eirunepé tem ares provincianos. Ao meio dia, o comércio fecha e só volta a abrir a partir das 14 horas. Quase completamente plana, a cidade tem como meio de transporte principal a bicicleta e a motocicleta. O preço da gasolina a R$ 3,40 também leva os moradores a optar por veículos mais econômicos.

Antiga São Felipe, Eirunepé tem a sua lei de trânsito própria. É uma das poucas cidades do Brasil onde é permitido os motoqueiros dirigirem sem o capacete. Esse foi uma decisão judicial. Moradores afirmam que o juiz tomou a decisão após ser interceptado por um guarda de trânsito no instante em que viajava como garupa de um moto-taxista e não fora reconhecido.

O magistrado alegou falta de sinalização nas ruas para tomar a decisão, mas os cidadãos afirmam que a questão é pessoal.

Alheios ao perigo e às estatísticas, família inteiras – pai, mãe e filhos – andam sem capacete tranquilamente em cima das motocicletas. Apenas o Sindicato dos Moto-taxistas resolveu descumprir a decisão do juiz: todos os filiados são obrigados a utilizar capacetes, mas não há o equipamento de proteção para os passageiros.

Eirunepé é uma cidade bastante visitada pelos cruzeirenses, que buscam a cidade para passar férias e pular carnaval. É o caso do professor do professor de Ciências da rede estadual de ensino Luiz Marcos Enes Lebre, 38, que viajou 32 horas num recreio para chegar ao município. Dentro da embarcação levou a sua moto. Faz isso todos os anos. “O carnaval aqui é bom de mais”, comenta.

Amazonense, o município tem uma forte colônia acreana. A maioria dos grandes e pequenos comerciantes é do Acre. Uns estão muito bem. Outros, como Raimundo Magalhães, 60, tentam recomeçar.

Conhecido como “Tidólar” em Cruzeiro do Sul, Raimundo Magalhães está no ramo de comércio desde a década de 60. Afirma que teria condições de ser um dos maiores comerciantes da região, mas perdeu tudo jogando baralho durante 40 anos de vida. “Tenho vários filhos, mas nunca casei porque o jogo não deixou”.

“Tidólar” se confessa um viciado no carteado. Afirma que chegou a perder R$ 5 mil em apenas uma noite. Longe das mesas há um ano, tem um pequena loja onde vende confecções, miudezas e brinquedos. Diz também que é evangélico.

“Eu entrava numa rodada quinta-feira e saia apenas na segunda-feira da manhã seguinte. No jogo você nunca ganha”.

Se não contou com a sorte no jogo, “Tidólar” foi sortudo há mais de 36 anos, quando escapou de morrer no maior acidente aéreo da história do Acre. Era um dos passageiros DC-3 da Cruzeiro do Sul que caiu em Sena Madureira no dia 28 de setembro de 1972, matando 28 passageiros e quatro tripulantes. Desceu em Tarauacá porque a aeronave deu uma pane no município. Ficou sob o protesto dos companheiros de viagem, que lhe chamaram de “frouxo”.

O município tem 113 anos de existência. Nasceu no boom da borracha. O extrativismo deixou de fazer parte da base econômica há muito tempo. Hoje, a cidade sobrevive das atividades do comércio, pecuária, pesca e agricultura. Há um potencial madeireiro muito grande, mas os planos de manejos não foram elaborados dentro dos critérios técnicos exigidos pela legislação.

Em Eirunepé é possível encontrar um professor de Ciências Política da Universidade Estadual do Amazonas (UEAM) que participou ativamente do movimento Fora Collor em 1992. Ribamar Félix, 47, foi vice-presidente para a Região Norte da União Nacional dos Estudantes (UNE) e coordenador Cultural da entidade quando os jovens de cara-pintada saíram às ruas pedindo o impeachment do então presidente da República Fernando Collor de Mello. “A molecada pintava o rosto e a gente comandava. O que o mais me marcou naquele ano foi a espontaneidade da juventude, que pulou muro das escolas e enfrentou os diretores para derrubar um presidente”, comenta o hoje coordenador do pólo da UEAM e presidente do PC do B no município.

Eirunepé tem muitos problemas sociais. Um dos principais é a prostituição infantil. Meninas vendem o corpo por até R$ 10. A pobreza é muito grande.

É um município que tem como padroeiro São Francisco de Assis. Em frente da Igreja Católica há uma estátua gigante do santo. A poucos metros há um padre que não tem santidade, mas é quase gigante também.

Alemão como a maioria dos religiosos católicos da região, o padre Georg Rose, 61, nasceu na região de Colônia. Tem 1,96 metro e calça sapato número 48. Desde 1979 está na Amazônia. Passou 10 anos cuidando da paróquia de Porto Walter, no Alto Juruá. Há 19 anos está cuidando no rebanho em Eirunepé. Nesses 29 anos tirou férias, de três meses, apenas noves vezes, quando foi para sua terra natal a fim de rever parentes e amigos.

Padre Georg Rose é um homem bonito de gestos e vida simples. Um dos seus luxos sãos os livros – a maioria em alemão – e um computador, por onde acessa a internet. Até nessas horas sua religiosidade está presente: a webcam está afixada num pequeno crucifixo de madeira.

O padre está partindo de Eirunepé. Assumirá o cargo pároco da Catedral Nossa Senhora da Glória, em Cruzeiro do Sul, em maio deste ano. Nossa expedição partiu primeiro. Dentro de algumas horas passaria por Itamarati, chamada de a “Capital Mundial do Pium”. Dessa vez não houve parada.

Odair Leal
Odair Leal
Eirunepé é a primeira cidade onde o barco da expedição atraca

Odair Leal
Motoqueiros não são obrigados a usar capacete

Xeruã: reencontro após 20 anos

Logo após a partida de Eirunepé, o secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Éden Magalhães, revelou que queria estar acordado quando passasse na próxima cidade: Itamarati.

A previsão era que a embarcação passasse pela cidade considerada a “Capital Mundial do Pium” na madrugada de segunda-feira, 7, mas a previsão furou: o Igaratim-Açu cruzou o município às 6h30. Magalhães não estava acordado.

Éden Magalhães tinha razões particulares para querer madrugar. Há 20 anos, ele trabalhou na localidade depois de ter desistido de ser padre para casar. Chegou a fazer filosofia, mas parou no noviciado.

Nascido em Cruzeiro do Sul, Magalhães foi designado para trabalhar na região com os índios beni que habitavam o Rio Xeruã. Os indígenas sofriam com epidemia de malária e tuberculose nas glândulas. O Cimi, naquela época, não tinha estrutura para garantir aos missionários a realização dos seus trabalhos, mas fazia o que podia trabalhando em parceria com o Movimento de Educação de Base (MEB) da Igreja Católica. “Foi um tempo de muitas dificuldades”.

Recém-casado com a brasiliense Solange, Magalhães passou alguns meses em Tefé para que a mulher se acostumasse com os ares da Amazônia. Não foi fácil. Além dos problemas com os seringalistas que não queriam aquele trabalho de conscientização na região, havia os mosquitos.

“Quando esses supostos patrões sabiam que tinham grupos do Cimi na área, eles vinham intimidar. Muitas vezes saímos correndo”.

Nos primeiros dias na região, Magalhães e a esposa subiram o Rio Japurá. As carapanãs e mosquitos eram tantos que bateu desespero em Solange, que foi chorar na beira do rio pedindo para ir embora.

Ainda na lua-de-mel, o casal retornou para a cidade, mas os problemas ainda estavam começando. Magalhães foi tomar banho no rio e levou uma ferroada de arraia. Enquanto pulava numa perna só com tanto dor, o padre da paróquia vinha atrás dizendo: “Dedica o seu sofrimento às almas do purgatório”. As rezas não deram jeito. Depois de várias simpatias e anestesias, a dor cessou quando ele pôs os pés sobre uma casa de cupim quente.

Sua chegada também coincidiu quando a Petrobras iniciou a prospecção de petróleo em Carauari, trazendo esperança de aumento do poder aquisitivo dos moradores, mas deixou no caminho muitos problemas sociais.

“Os bares funcionavam de segunda a segunda-feira. A prostituição infantil aumento assustadoramente. A situação social ficou extremamente complicada”.

Magalhães ficou baseado em Carauari, mas o trabalho era em boa parte da região do Médio Juruá. Ele conta que Itamarati foi construída sobre sítios arqueológicos. A cidade tem poucas ruas casas e ruas estruturas numa área de mais de um milhão de hectares. Segundo ele, era uma violência quando os tratores passavam por cima destruindo tudo. “Boa parte da história foi destruída absurdamente”.

Magalhães começou a se despedir da região quando sua esposa engravidou. O casal chegou um acordo de que não seria possível criar a filha naquelas condições. Mudaram-se para o Mato Grosso, depois para Cruzeiro do Sul e hoje estão em Brasília.

Ao retornar ao município em iniciou sua trajetória no Cimi, Magalhães se emociona porque acredita que a luta iniciada há duas décadas pela libertação dos índios e a demarcação das suas áreas é uma realidade. “Naquela época, Itamarati era um atentado à integridade psíquica do ser humano. Minha mulher chegou a perder os cabelos por conta do estresse. Mesmo assim, acredito que essas pequenas cidades serão a salvação do planeta. É onde as coisas ainda estão preservadas”.

Odair Leal
Comunidade cria gado em plena beira de rio para ajudar na sobrevivência

Um lugar onde o escambo existe

Cobiçado pela maioria das pessoas que moram nas cidades, o dinheiro tem pouco valor nas comunidades mais afastadas ao longo do Juruá. A serventia é quase que zero porque não há onde os ribeirinhos comprarem os produtos de primeira necessidade, como açúcar, sal e óleo diesel. As aquisições junto aos regatões são verdadeiras explorações dos comerciantes ambulantes dos rios.

Pelos rios da Amazônia, ainda é intenso o sistema de escambo. Os ribeirinhos esperam as embarcações passarem e, nas pequenas canoas, abordam os viajantes propondo troca de diesel, café, açúcar sal ou tabaco por animais silvestres ou domésticos.

Não é raro um ribeirinho sair correndo atrás de uma galinha ou um pato no quintal para, em seguida, entrar na canoa para abordar as balsas ou barcos no meio do rio.

Em comunidades como a do Pilão, a 12 horas de Eirunepé rio abaixo, durante um mês cada uma das oito famílias fica encarregada de conseguir o óleo diesel para manter o gerador funcionando à noite. Os responsáveis têm que encontrar os mecanismos para não deixar os demais moradores no escuro. É uma regra que deve ser seguida por todos.

Lucas, 16, e Antonio, 13, são primos e remam rápido. Eles abordaram a embarcação no meio do rio. Traziam no saco beiju e sete iaças, quelônios pequenos. Queriam, em troca, óleo diesel. Foram bem-sucedidos na transação. Certos de terem feitos um grande negócio entraram novamente na canoa com um brilho de luz no olhar.

“Estamos no escuro há um bom tempo. Felizmente vocês aparecerem”, agradeceu Lucas, enquanto retornava para casa com um barril de 20 litros cheio.

Essa situação expõe as dificuldades vividas na região. É uma prova de que é possível padecer no paraíso. Em anos políticos, são feitas promessas e doadas antenas parabólicas e geradores. A manutenção fica a cargo das comunidades. Mas a maioria não tem como se manter.

As dificuldades são tantas que há pessoas que passam de semanas sem comer algo salgado por falta de sal. Os colchões para dormir são feito com palhas secas e, mesmo com roçado pronto, a farinha não é feita porque não há onde fazer. Em lagos ricos em peixe, a pescaria é feita por meio de arpões no período da noite porque não há redes para os pescadores. Mas a caça é abundante e acaba salvando vida por meio das trocas.

O escambo, principalmente de animais silvestres, traz perigo para as tripulações. A Capitania dos Portos esporadicamente faz blitze, mas os trabalhadores preferem correr o risco. Escondem a caça e os quelônios em pontos estratégicos, mas, quando são pegos, têm que responder pelo crime cometido numa região aonde os benefícios das leis dos homens ainda não chegaram.

Acostumado com as transações comerciais feitas em Rio Branco, o secretário-executivo adjunto da Assembléia Legislativa do Acre, Solônidas Maia, tentou comprar uma pirapitinga de um ribeirinho, mas ouviu a seguinte resposta: “Dinheiro em papel e em moeda não vale nada aqui. O nosso dinheiro é diesel. Estou há mais de um mês no escuro. Pode ser grande quantidade”. Ele trouxe o peixe para a embarcação.

Se há blitze esporádicas para a apreensão de animais silvestres, o mesmo não se pode dizer de ações fiscalizadoras para coibir o tráfico de drogas pelo rio. Durante toda a viagem não foi visto um único posto ou barco da Polícia Federal, da Marinha ou do Exército. O Juruá é rota livre para os traficantes.

Odair Leal

Dinheiro começa a ter valor

A sete horas de Carauari o dinheiro começa a ter valor. A mudança da moeda-diesel para o Real foi percebida quando o assessor da mesa diretora Jair Santos chegou à Comunidade Providência com 20 litros de óleo diesel num vasilhame próprio, mas levou sua carteira de dinheiro. Queria comprar peixe e galinha caipira. Conseguiu fazer parte da compra porque não havia as aves pretendidas no quintal.

Por R$ 40, Santos retornou para o barco da expedição com dois patos e um surubim grande.

Formada por sete casas, a Comunidade Providência é habitada apenas por uma família, que sobrevive basicamente da pesca, plantação de roçado e colheita de sementes de murmuru e andiroba, que são vendidas à uma grande empresa de cosméticos do centro-sul do país. A cada 45 dias, chegam a vender mil latas, a R$ 6 cada.

A comunidade é recheada de crianças, mas tem na figura do patriarca José Amaral, 83, o símbolo. É um homem pequeno, de barba branca, que se recente de não ter mais força para trabalhar. Aposentado pela Previdência Social como soldado da borracha, tem um orgulho: ter junto de si 10 dos seus 11 filhos.

Um desses filhos é José de Souza, 46, que segue o mesmo ritmo de vida do pai. Nasceu e se criou na comunidade. Tem nove filhos e afirma não ter condições levá-los à cidade para estudar. “É melhor ficar aqui, onde temos a natureza para nos dar as coisas necessárias para comer”.

Essa mesma natureza que dá o que comer aos filhos, netos e bisnetos de senhor José Amaral não estava sendo generosa com o casal Antonia Oliveira e seu companheiro Manoel Lopes. Os dois subiram o rio durante dois dias partindo do município de Juruá. Estavam há 15 dias dentro pescando, mas a pescaria não tinha dado grandes resultados. Haviam pescado pouco mais de 40 quilos.

Antonia tem 53 e oito filhos. Manoel ainda tem 30 anos. Os dois resolveram se juntar há cinco anos. Estão juntos maritalmente e na lida. Quando saem para pescar deixam as crianças com o filho mais velho dela, que tem 29 anos.

Remando, Antonia, uma mulher que carrega as marcas dos anos e das dificuldades nas mãos, no corpo e no rosto, declarou: “Precisamos de dinheiro para manter nossa família alimentada. Iremos insistir até a pesca melhorar”.

É período de defeso na Amazônia. A pesca de peixes grandes como tambaqui está proibida. Podem ser pescados apenas curimatã, a branquinha e um peixe chamado charuto. Isso preocupa o pescador Altemir Lopes, 47, que comprou um barco de pesca financiado há dois anos por R$ 20 mil. A primeira parcela de R$ 3 mil terá que ser paga em julho. Enquanto remendava sua rede de pesca com um cigarro forte na boca para espantar os mosquitos, comentou: “Vai ser difícil fazer o pagamento do jeito que as coisas estão”.

Lopes não está sozinho num barco infestado de pium e carapanã. Viaja acompanhado de um jovem e de um experiente pescador. Em comum, Jesus Alves, 26, e Raimundo Forte, 57, têm o fato de estarem na profissão desde os 10 anos e não serem casados. “Quem vive nessa vida não tem tempo para se casar. A gente passa muito tempo fora e as mulheres não gostam disso. A traição sempre vem”, comentou Forte, que se separou quatro vezes.

Carauari: a segunda parada

Quando o barco Igaratim-Açu atracou no porto de Carauari a expedição tinha viajado 123 horas e 15 minutos desde que partiu de Cruzeiro do Sul na manhã quente de quinta-feira, 4. Para chegar, a embarcação teve que sair do Juruá por cerca de uma hora ao entrar num lago que tem o mesmo nome da cidade.

Fundada no dia 27 de setembro de 1911 com o nome Xibauá, Carauari é uma típica cidade amazônica com uma população estimada de 25 mil habitantes.

Odair Leal

Logo na chegada, vários barcos e balsas estão ancorados no porto descarregando mercadorias que chegam e sendo abastecidos por mercadorias que partem. Há muitas casas flutuantes onde famílias vivem como serem anfíbios.

No porto o trabalho é intenso e não são apenas os adultos que trabalham. Menores de idade carregam botijões de gás, sacos de cimentos, tijolos e outros produtos. Não há fiscalização contra o trabalho infantil.

O porto é lugar para crianças trabalharem. É lá que o pequeno Isaac, 10, consegue levar diariamente até R$ 10 para casa. Com o dinheiro, a sua mãe compra comida para alimentar os outros quatro irmãos.

Isaac não tem pai. Sua mãe não trabalha. Com o rosto típico dos inocentes tem os dentes mal cuidados. Estuda na segunda série do ensino fundamental e espera um dia ser médico, mas a realidade da sua vida aponta que para outros caminhos.

Não é raro encontrar crianças sem pai como Isaac pela ruas de Carauari. Até um padre engravidou uma adolescente, mas foi transferido pela igreja para outra paróquia para não assumir a criança. O caso está na Justiça.

Pelas ruas do município dá para notar que há cuidado do poder público. Os logradouros são bem cuidados e limpos. Como a maioria da cidade do interior amazônico, os meios de transportes preferidos são motocicletas e bicicletas.

Os motoqueiros não usam capacete. Um dos poucos que utiliza o equipamento de proteção individual é o moto-taxista Antonio Ribeiro, 38, que justifica o motivo: “Eu sofri um acidente grave quando morri. O capacete me salvou”.

A economia de Carauari gira em torno da pesca, agricultura e o dinheiro do funcionalismo público, o que é insuficiente para maiores investimentos. Mas os moradores vivem a expectativa de retorno da Petrobras ao município.

A estatal pretende desenvolver o Pólo do Juruá, que fica no município. Essa seria a maior reserva terrestre de gás do país, com cerca de 100 bilhões de metros cúbicos.

O Pólo do Juruá foi descoberto em 1978, mas a Petrobras preferiu explorar a descoberta de Urucu, em Coari, que fica mais perto de Manaus.

Essa possibilidade anima pessoas como a funcionária estadual Eulália Pereira, 43, que já trabalhou durante quatro anos em Urucu – cerca de 600 moradores de Carauari trabalham no local em trabalhos pesados.

Quando da primeira vez que a estatal iniciou os estudos no município, os problemas sociais se agravaram, principalmente a prostituição infantil. O risco de um novo agravamento da situação não preocupa Eulália. “Naquela época, a população não estava preparada para conviver com a situação. Hoje, a coisa é bem diferente”, declarou.

Odair Leal

Trabalhos dos homens e mulheres nos barcos

Os homens que levam e trazem as balsas e navios pelo rio começam cedo suas atividades. Muitos, aos 30 anos são experientes. Mas navegar no Juruá assusta até os mais experimentados. Isso é o que revela o comandante do Igaratim-Açu, Ocemir Ferreira, 34.

Ferreira começou a ganhar a vida nos rios tirando peixe no Amazonas. Aos 14 anos era pescador. Ao longo dos anos, mudou de profissão, foi aprendendo o ofício por meio de cursos na Capitania de Manaus até chegar ao atual posto.

Mas, embora tenham andando em rios grandes como o Solimões, Purus e Amazonas, o comandante se assustou com o que viu ao navegar pela primeira vez no Juruá. “Normalmente, nós teríamos chegado a Cruzeiro do Sul em dez dias, mas o eixo propulsor do motor quebrou e nós atrasamos”, comenta.

O comandante credita o atraso à peça quebrada, mas revela que a sinuosidade do rio, aliada à estreiteza para navegação e os balseiros, dificultou a empreitada. “Tem tanta curva, que tem hora que o GPS marca que estamos subindo, quando estamos descendo e vice-versa. Se o nosso navio não fosse tão seguro, nós teríamos maiores problemas em razão da quantidade de pau que tem dentro do rio”.

Ferreira cursou até o primário – hoje ensino fundamental -, mas diz conhecer coisas que muitos “doutores” desconhecem sobre navegação. Segundo ele, muitas vezes os cientistas fazem as suas pesquisas a partir de levantamentos feitos em computadores, enquanto ele conhece do ofício aprendendo no dia-a-dia. “Se você tem estudo, mas não conhece é mesmo que nada”.

Na sua primeira viagem, ao Juruá Ocemir Ferreira contou com a ajuda de pilotos experimentados, como Francisco Mendes, 47, que há 26 anos navega pelo rio rebocando balsas. É acostumado a passar até 22 dias subindo o rio e 10 descendo longe da família. Os homens do rio são impedidos de levar familiares nas suas viagens. Para evitar problemas, até as cozinheiras estão sendo substituídas por homens ou, em alguns casos, por homossexuais.

“Essa troca é importante para garantir a tranquilidade. As cozinheiras sempre escolhem um e a confusão é inevitável”, afirma Mendes.

Esses homens largam as suas famílias por salários que variam de R$ 500 a R$ 1,5 mil. Os valores são definidos pela tabela da Capitania de Manaus, mas nem sempre os patrões pagam o valor correto.

Famílias constiuidas é coisa que poucos homens dos rios têm. As mulheres não aguentam tanto tempo sozinhas e acabam optando pela separação ou por manter uma outra relação em porto mais seguro. “É uma vida de dificuldades, mas não quero parar”.

Se Franscico Mendes não quer parar, José Parente, 67, parou, mas resolveu voltar. Ex-carpinteiro, ele começou a vida nos rios somente aos 42 anos. Se aposentou e hoje faz apenas viagens esporádicas para, segundo ele, ganhar um dinheiro extra. “Não quero uma vida dessas para os meus filhos. Ainda bem que eles optaram por outras profissões”.

Os rios não são apenas para os homens. As mulheres cumprem papel fundamental. Elas também estão nos barcos preparando a comida e organizando o dia-a-dia da navegação.

São como a morena Deisedulce Barbosa, 28, que foi, veio, foi e retornou novamente a trabalhar nos rios da Amazônia. Operadora de produção de uma multinacional de materiais eletro-eletrônico em Manaus, aproveitou o recesso na fábrica para faturar um dinheiro extra. Foi uma das responsáveis pela organização da expedição.

Paraense, solteira, morando em Manaus reclama apenas que essa atividade não tem carteira assinada, o que torna o trabalho inseguro. Para ir até Cruzeiro do Sul passou as festas de Natal e de entrada de ano navegando. Não reclamou.

Donos de 15 balsas, empresário nunca fez a viagem

Ex-motorista de táxi, Abrahão Cândido, 56, construiu fortuna transportando mercadoria de Manaus a Cruzeiro do Sul e vice-versa. Tem avião. É proprietário de estaleiro e tem 15 balsas. Recentemente, aumentou o patrimônio investindo quase R$ 2 milhões para construir duas balsas frigorificas com capacidade para 360 e 650 toneladas cada. São as duas maiores do Brasil. Também está construindo um frigorico na segunda maior cidade do Acre para estocar mil toneladas de frio. Detalhe: tudo foi feito com recursos próprios.

“Trabalhar com banco é muito complicado. É mellhor destinar um dinheiro próprio para essas empreitadas”.

O rio deu fortuna a Cândido, mas ele nunca viajou numa das suas embarcações ou em qualquer outra até Manaus ou no sentido inverso. Mesmo assim, o empresário é um entusiasta da navegação. Afirma que, mesmo com a pavimentação da BR-364, os rios continuarão sendo de fundamental importância para o desenvolvimento e o abastecimento da região.

“Para se ter uma idéia da expansão do negócio, antes chegavam vinte caixas de calabresa e salsicha em Cruzeiro do Sul. Hoje, chegam toneladas. Por isso é importante construir o frigorífico”.

A empresa de Abrahão Cândido, que é administrada em parceria com seus irmãos, tem 36 anos de existência. É a maior da região. No inverno – época das cheias dos rios – transporta até 20 toneladas, entre gêneros alimentícios e insumos para as obras do governo, tudo como muita dificuldade, segundo ele.

“Para se ter uma idéia, mandamos balsas em maio do ano passado de Manaus para cá. Ela retornaram para o ponto de origem somente no dia vinte e oito de dezembro”.

Odair LealDe geração para geração

Há 44 anos, o mateiro José Pereira dos Santos, 75, tirou um bom saldo nos seringais de Feijó e decidiu fazer uma viagem até Belém do Pará. Embarcou no navio a vapor e entrou para uma odisséia que demorou cinco meses, contando com a estadia na capital paraense.

Filho de um cearense que chegou no Acre em 1914, José Domingo, que ganhou esse apelido por ter nascido no primeiro dia da semana, queria conhecer as cidades que haviam além da floresta. Em Belém, com dinheiro no bolso, alugou quarto numa pensão e só retornou quando a necessidade de trabalhar lhe chamou.

Ao regresssar para casa, uma ano depois, José Domingo casou com a jovem Gilda Leitão. Contrariando a lógica dos seringais, fez essa opção tardiamente: tinha 32 anos. O casal teve nove filhos, mas somente seis sobreviveram às dificuldades amazônicas.

Entre os sobreviventes está o hoje deputado Juarez Leitão (PT), que também foi seringueiro e conheceu a cidade quando tinha 11 anos de idade. Foi quando calçou o seu primeiro sapato – um conga branco – e vestiu a primeira calça de tergal. Conheceu um telefone quando tinha 21 anos, quando levou uma encomenda para Rio Branco e precisava telefonar para a destinatária.

Juarez Leitão foi presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) durante três anos, mas antes havia sido vice-presidente. Na sua gestão foram criadas seis reservas extrativistas. Conhece boa parte do mundo. É um homem que completou os seus 42 anos no dia 5 de janeiro deste ano dentro do barco Igaratim-Açu, no momento em que descia para Manaus.

“Meu era um homem de visão. Ao contrário dos seus amigos aproveitou o dinheiro para conhecer novos lugares”, diz o deputado.

Há 40 anos, o pai de um outro deputado, Edvaldo Magalhães, fez a mesma viagem. Dilson Magalhães partiu de Cruzeiro do Sul. Ao contrário do pai de Juarez Leitão, não foi a passeio. Foi a negócio.

Dilson Magalhães foi seringueiro, mas preferiu romper com os seringalistas e procurar alternartivas econômicas mais sustentáveis. Com o dinheiro obtido no corte de seringa, comprou mercardorias, uma pequena canoa e passou a vender nas beiras dos rios.

O início não foi fácil. Os donos dos seringais não aceitavam a presença de regatão, mas Magalhães era habilidoso, conhecia os rios e igarapés e prosperou a ponto de se mudar para a cidade, onde alugou um espaço no Mercado Municipal de Cruzeiro do Sul perto da pedra de vender carne.

Os negócios na cidade prosperaram, mas Magalhães não estava satisfeito porque era obrigado a comprar os produtos do comerciantes cruzeirenses, o que diminuia a sua margem de lucro. Chamado de ousado para época, desceu até Manaus de batelão. Quando regressou a Cruzeiro do Sul tinha comprado um rebocador e uma alvarenga, balsa de madeira.

Com o rebocador e a alvarenga, Magalhães passou transportar não apenas as suas mercadorias, mas de outros comerciantes da região. Então jovem, Abrahão Cândido, hoje considerado um dos empresários mais fortes no ramo de navegação da região, era freteiro do pai do deputado. Proprietário de uma picape, carregava as mercadoria que chegavam no porto para os comerciantes.

Dilson Magalhães era um dos passageiros do DC-3 da Cruzeiro do Sul que caiu em Sena Madureira no dia 28 de setembro de 1971. Viajava para São Paulo, onde iria adquirir mais mercadorias, que iriam para Manaus, de onde seriam transportadas para Cruzeiro do Sul. Com a sua morte, os negócios da família também morreram.

“Tive o privilégio de fazer a viagem que o meu pai fez há tanto tempo. Entendo que o Rio Juruá é o caminho da riqueza da região e continuará sendo a principal via de abastecimento da cidades. Estou me reencontrando com a minha história”.

Chegada ao Solimões

Após 164 horas de viagem, a expedição chegou à Foz do Juruá, no ponto onde deságua no Solimões. O Igaratim-Açu fez uma parada breve para alguns passageiros mergulharem nas águas barrentas como crianças. Foi como se dessem um adeus ao rio que acabaram de deixar e um boas vindas ao que estavam entrando para outras tantas horas de viagem.

O Solimões é um rio largo. Faz o Juruá parecer um igarapé, diante do seu tamanho e volume de água. As distâncias de uma margem a outra, que eram de metros, passam a ser de quilômetros. A sinuosidade anterior é substituída por retas quase sem fim.

Não é apenas o volume d’água que aumenta. A viagem por todo Juruá foi feita numa profundidade média de 10 metros, numa velocidade de 8,5 milhas/náuticas. A partir do Solimões o rio fica mais fundo, com profundidade média de 23 metros e velocidade de 10 milhas/náuticas.

As distâncias entre as margens tiram a intimidade e a cumplicidade entre os ribeirinhos e os viajantes. Não dá para um saudar o outro com o aceno das mãos.

Também não há ribeirinhos abordando os barcos para propor a troca de animais silvestres e peixes por óleo diesel. Na maioria das comunidades a luz chegou para todos.

O Solimões é um rio que começa como um pequeno filete na Cordilheira dos Andes peruana e se agiganta na medida em que vai descendo as montanhas rumo à planície amazônica. Tem cerca de 1,7 mil quilômetro até chegar a Manaus, onde ao encontrar o Rio Negro para receber o nome de Amazonas.

O Rio Solimões traz da região Andina, no Sul do Peru, sedimentos da Cordilheira e das outras regiões por onde passa. Em território do Amazonas, ao se encontrar com o Rio Negro, forma o fenômeno conhecido como o “Encontro das Águas”, no qual as águas escuras do Negro se encontram com as águas barrentas do Solimões e não se misturam, percorrendo lado a lado cerca de seis quilômetros até se misturarem, formando o Rio Amazonas que deságua no Oceano Atlântico.

Odair Leal
Encontro das águas dos rios Solimões e Negro

Odair LealCoari, a cidade movida a gás e petróleo

Aos chegar a Coari, às 8 horas (horário do Amazonas), expedição havia completado 189 horas viajando. Ao atracar no porto, o Igaratim-Açu bateu no veiculo Volkswagen, modelo Parati, de placas JXW-3315, que estava estacionamento no ponto de embarque e desembarque.

Com uma população estimada em 80 mil habitantes, Coari é uma cidade movida pelo gás e o petróleo que sai base da Petrobras em Urucu. Os produtos movimentam a vida dos cidadãos, influenciado em todos os segmentos.

Anualmente, a prefeitura do município recebe somente de royalties mais de R$ 40 milhões por anos. A esse valor são acrescidos mais R$ 6 milhões com o recolhimento de ISS.

A Petrobras e as empresas que trabalham para a estatal são os maiores empregadores da cidade e da região. Estima-se que há mais de 10 mil trabalhadores construindo o gasoduto até Manaus. São pessoas simples, que andam orgulhosos pelas ruas da cidade com um uniforme de cor laranja.

São trabalhadores como Raimundo Mariano, 45, que trabalha no setor há vários anos, mas não está contente com o que recebe - pouco menos de dois salários mínimos. “Sonho em aumentar o meu salário, mas dificilmente o pequeno tem força para dobrar os maiores”.

A aparente pujança econômica vivida em Coari atrai comerciantes de outros Estados. O acreano Francisco Ferreira, 44, é um deles. Proprietário de uma distribuidora, está no município há dois anos e diz que não pretende sair tão cedo.

Ferreira era comerciante em Rio Branco, que tentou a sorte em Cruzeiro do Sul sem obter sucesso. Antes de se instalar em Coari visitou a cidade duas vezes para sentir o mercado. “Não me arrependo. Aqui está muito bom. Quando eu estava em Cruzeiro do Sul havia uma dificuldade para os produtos chegarem. Aquela é uma cidade onde apenas os grandes ganham”.

Essa preocupação de apenas os grandes ganharem também preocupa o padre Ney Antonio Barreto Ribeiro, 60. Ele teme que os problemas sociais se agravem ainda mais quando o gasoduto estiver concluído – a previsão é julho deste ano – e os empregados forem demitidos.

O padre critica a existência de muitas festas na cidade com o dinheiro público, quando, em sua opinião, os recursos poderiam ser investidos na melhoria de vida das comunidades. “Enquanto as festas são realizadas, nossos ribeirinhos estão sofrendo muito”.

Outro problema social grave, segundo o padre, é o crescente índice de prostituição infantil. Ele revelou que é comum menores de idade engravidarem sem ao menos conhecerem os pais das crianças. “Chegaram muitas pessoas de fora e não há os cuidados necessários para evitar certos abusos”.

Em Coari também não há um controle eficaz contra o uso e o tráfico de drogas. Esse é um dos principais problemas do município, segundo o repórter Daniel Almeida, 23. “Se a Petrobras está construindo o gasoduto, as autoridades têm que se preocupar com o ‘drogaduto’ que está acabando com a nossa juventude”.

Na entrada de Coari, logo na chegada do porto, há um outdoor com várias autoridades inaugurando uma obra. Na peça está escrita a frase: “Olhando para o futuro de Coari”. Os políticos estão de cabeças abaixadas. Espera-se que o futuro não esteja no buraco.

Exploração de petróleo na Amazônia

Em março de 1955, o primeiro poço perfurado na Amazônia produziu petróleo. Outros seis poços foram perfurados, mas não havia um campo petrolífero. Há uma história dando conta de que o presidente da República Juscelino Kubistchek visitou a região e, como não havia óleo farto, foi utilizada uma bomba para molhar a sua mão.

Mas foi somente na década de 70 que aconteceu a primeira descoberta significativa na Bacia do Solimões. Em 1978 foi descoberta uma reserva de gás no Juruá.

Após todos os estudos, em 1986 foi encontrado óleo e gás em níveis comerciais na região próxima a Urucu. A produção comercial iniciou em 1988, com uma produção inicial de 3,5 mil barris por dia.

O óleo descoberto em Urucu é considerado leve e de excelente qualidade. Possui energia para fluir espontaneamente do subsolo até o sistema de processamento na superfície.

Atualmente, a produção média de petróleo de Urucu é de 55 mil barris/dia, 9,7 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural e de 1,6 toneladas de gás de cozinha. Esse volume leva o Amazonas à segunda colocação na produção nacional em barris de óleo e de Coari o maior produtor da terrestre.

Odair Leal Odair Leal
Na chegada: a favela e a imponência da capital do Amazonas

De Manacapuru a Manaus

Manacapuru é uma cidade temida pelos políticos acreanos. Há o folclore de que os derrotados embarcam no Porto da Gameleira, em Rio Branco, e descem de balsa até o município amazonense ounvido o choro do surubim e matando carapanãs e piuns.

Os políticos que estavam na expedição não temeram Manacapuru. Fizeram até brincadeiras entre si. Líder da oposição na Assembléia Legislativa, Luiz Calixto, declarou ser um dos poucos que não fez a viagem. Edvaldo Magalhaes, que perdeu por um voto quando concorreu à primeira vez, em 1994, disse: “É melhor vir de barco do que na situação que vi”.

Não há tantos motivos para temer Manacapuru. Diante a pouco mais de uma hora de Manaus, por estrada, o município é extremamente organizado, com ruas limpas e movimentada. A impressão que fica é que os derrotados temem mais a viagem do quer outra coisa.

A partir de Manacapuru o rio passa a ter mais movimentação. Navios cargueiros e petroleiros sobem e descem levando mercadorias e gente. Falta pouco para o Solimões beijar o Rio Negro para transforrmasse no Amazonas, o maior do mundo tanto em volume d’água quanto em cumprimento. Ultrapassando os sete milhões de quilômetros quadrados.

A expedição chegou a Manaus às 17h45, após 222 horas e 20 minutos desde a partida de Cruzeirdo. No porto, Havia uma movimentação intensa de trabalhadores e homens. Mercadorias embarcadas iriam para boa parte do mundo. Outras subiriam o rio para abastecer os municípios do Acre e o Amazonas. A navegação será sempre uma estrada de mão dupla. Os deputados assumiram o compromisso de levantar o tema quando os trabalhos retornarem na Assembléia Legislativa. Será uma otima oportunidade para o conjunto da sociedade passar a conhecer como vivem milhares de brasileiros nas estradas aquáticas da Amazônia.

Odair Leal

A saga de Belarmino Mendonça

O processo histórico de incorporação do Acre ao Brasil teve dois tempos distintos. O primeiro, e mais conhecido, ocorreu no Vale do Alto Acre, que era o mais rico em produção de borracha, o mais povoado e mais percorrido pelos navios gaiolas que chegavam de Manaus e Belém abarrotados de mercadorias e de gente para trabalhar nos seringais.

Foi nesse palco do Alto Acre que ocorreu a Revolução Acreana vencida pelo exército de seringueiros brasileiros comandados pelo gaúcho José Plácido de Castro em 23 de janeiro de 1903.

A questão no Alto Acre foi resolvida primeiro pela via das armas e, em seguida, pela via diplomáticas, graças à habilidade do Barão do Rio Branco. O território, depois da assinatura do Tratado de Petrópolis, em 17 de novembro de 1903, deixou de ser boliviano para ser brasileiro.

Mas, Rio Branco teria que resolver problemas com os peruanos no Alto Purus e no Alto Juruá. O Peru reivindicava o território e até o município amazonense de Lábrea.

Para evitar novos conflitos, os governos brasileiros e peruanos assinaram um documento chamado “Modus vivendi” estabelecendo condutas para prevenir possíveis conflitos, no dia 12 de julho de 1904.

Esse mesmo documento criou duas comissões mistas brasileiro-peruana para estudar os limites territoriais do Alto Purus e do Alto Juruá para proceder ao reconhecimento geográfico nos rios. Os ânimos estavam exaltados nas duas regiões.

O engenheiro e escritor Euclides da Cunha ficou encarregado de comandar os estudos no Alto Purus. Dessa viagem saiu o livro Um paraíso perdido. Coube ao também coronel Belarmino Mendonça a responsabilidade brasileira sobre o Alto Juruá.

Mendonça e Cunha partiram do Rio de Janeiro no vapor Alagoas, do Lóide Brasileiro, no dia 13 de dezembro 1904. Chegaram a Manaus no dia 30. A partir da capital amazonense seguiram caminhos opostos.

Para cumprir a missão que lhe foi delegada por Barão do Rio Branco, Mendonça descumpriu ordem médica. Houvera contraído, três meses antes, uma tuberculose que se agravara com uma forte malária contraída quando participou na demarcação dos limites entre o Brasil e a Argentina. O médico Licinio Cardoso considerou a empreitada um suicídio.

A partida das comissões para executar o trabalho não foi imediata. Trâmites burocráticos impediram que os barcos zarpassem. Somente no dia 11 de abril de 1905 foi que a comissão de Belarmino Mendonça partiu para uma viagem cheia de percalços.

Foram tantas as dificuldades, que os membros da comissão chegaram a Cruzeiro do Sul somente no dia 2 de junho. A segunda maior cidade do Acre acabara de ser promovida à capital do Departamento do Alto Juruá. Tinha como prefeito o coronel Gregório Taumaturgo de Azevedo. Era um povoado com um sobrado coberto de telhas, o barracão da prefeitura, 18 casas, sendo quatro cobertas de palha, em meio a uma clareira.

A partir de Cruzeiro do Sul rio acima as dificuldades não diminuíram. As lanchas Iquito e Faceira encalharam e deram problemas mecânicos. A viagem passou a ser feita em canoas pequenas até a cabeceira. Também foram percorridos mais de 200 quilômetros a pé abrindo picadas. Belarmino Mendonça foi atingido por uma árvore que caiu sobre ele, contraiu beribéri, os índios preparam uma emboscada, mas todos saíram ilesos.

O trabalho da comissão era de fundamental importância para restabelecer a ordem. Os peruanos montaram um posto aduaneiro na Foz do Rio Amônia e cobravam impostos, taxas das navegações brasileiras e hastearam a bandeira do país.

Preocupado com a situação, o prefeito do Departamento do Alto Juruá, Gregório Taumaturgo de Azevedo, enviou o capitão Francisco d’Ávila e Silva com uma tropa de 10 praças para se entender com o chefe do destacamento peruano na Aduana, major Ramirez Hurtado.

Hurtado recebeu os brasileiros com festa. Falou que não havia sido notificado sobre o “Modus vivendi” assinado entre os governantes dos países. Afirmou que não iria mais cobrar os impostos e taxas.

Mas, em novembro de 1904, o vapor Contreiras foi abordado pelo exército peruano. Como não parou, foi atingido por uma saraivada de bala. Esse episódio provocou a única luta armada, em toda campanha do Acre, em que participaram forças regulares em combate por parte do Brasil. Até então, apenas seringueiros brasileiros lutara contra bolivianos e peruanos.

Ma, sob o comando de Ávila e Silva, os militares brasileiros chegaram a pé no Amônia e, num tiroteio que demorou 48 horas, obrigaram os peruanos a se render. A tropa de Ramirez Hurtado se transferiu para o Breu, mas antes assinou uma carta cheia de cordialidade.

A comissão em que Belarmino Mendonça fazia parte chegou à nascente pouco mais de um ano desse episódio, no dia 24 de novembro de 1905, alcançou a o Paxiúba, principal formador do Juruá. Era um olho d’água que surgia debaixo de uma pedra superposta de 40 a 50 metros do fundo do vale e quase no topo de uma colina de cerca de 450 metros de altura sobre o nível do mar. Tinham se passado sete meses e 10 dias de muitas dificuldades.

No seu relatório enviado aos superiores, Belarmino Mendonça constatou que quase a totalidade do Rio Juruá era povoado por brasileiros estabelecidos para produzir borracha, enquanto os peruanos andavam pelas cabeceiras atrás de caucho, numa atividade predatória.

Mendonça verificou que havia 71 grupamentos na margem direita do Baixo-Juruá, 89 seringais na margem direita do Médio Juruá e 73 na margem esquerda. Todos de brasileiros.

Em abril de 1906, Belarmino Mendonça foi promovido por merecimento a general-de-brigada. Chegou a ministro do Supremo Tribunal de Justiça, morrendo em maio de 1913.

Seu relatório foi fundamental para que Barão do Rio Branco assinasse um tratado com o governo peruano, no dia 12 de setembro de 1909 – com efeito retroativo a 8 de setembro -, estabelecendo as fronteiras entre os países e os princípios gerais sobre o comércio e as navegações na Bacia do Amazonas.

Para o escritor Leandro Tocantins, O Acre possui quatro figuras estelares, que se constituem em personalidades símbolos na constituição da história do Estado: Barão do Rio Branco, Plácido de Castro, Euclides da Cunha e Belarmino Mendonça.

 
 
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Rio Branco-AC, 20 de janeiro de 2008
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