OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

A Pré-história Acreana II
(O caso dos sítios geométricos ou pseudo-geoglífos)

Nessa semana a continuação da série de artigos sobre os “sítios arqueológicos com estruturas de terra”, que às vezes formam grandes figuras geométricas e chamam a atenção de cientistas, jornalistas e curiosos em geral. Afinal de contas, quem pesquisou seriamente estes sítios e quais as suas descobertas?

Marcos Vicentti
Sítio geométrico composto por um quadrado que tem em uma de suas faces dois trapézios e de suas laterais duas “estradas de saída” (sítio na margem da BR-364) Numa perspectiva mais ampla vemos que o quadrado da outra foto está ligado por uma “estrada” à um pequeno circulo com quadrado externo e outra “estrada de saída”

Caminhos do conhecimento

No ano passado publiquei uma série de artigos intitulada “Memória da Arqueologia Acreana” onde delineei, em linhas gerais, as referências dos viajantes que aqui estiveram a partir de meados do século XIX, a atuação dos pioneiros leigos que coletaram as primeiras peças arqueológicas que podem se encontradas nos museus acreanos e as pesquisas arqueológicas realizadas no Acre nos últimos 30 anos. Por isso não cabe mais aqui o detalhamento dessas informações.

Entretanto, olhando em perspectiva para esses acontecimentos, é possível definirmos pelo menos cinco diferentes fases da pesquisa arqueológica no Acre: 1ª Fase – Descritiva - de 1850 a 1970; 2ª Fase – Descoberta e pesquisa extensiva – de 1977 a 1985; 3ª Fase – Pesquisa intensiva – de 1992 a 2002; 4ª Fase – Sensacionalista – a partir de 2000; 5ª Fase – Novas pesquisas. Uma breve análise sobre cada uma dessas fases pode nos ajudar a entender qual a contribuição efetiva de cada uma das etapas da pesquisa arqueológica para o nosso conhecimento acerca da longa pré-história acreana.

1ª Fase – Descritiva - de 1850 a 1970;

O Acre só começou a ser sistematicamente explorado a partir da criação da Província do Amazonas, desmembrada do Grão-Pará, em 1850. Desde então o Acre recebeu diversas expedições científicas realizadas com objetivos variados, bem como diversas expedições exploratórias que visavam o conhecimento dessa imensa região para sua posterior ocupação. E foram essas expedições que nos legaram os primeiros relatos acerca dos povos indígenas que aqui habitavam. A grande maioria destes povos ainda em plena pré-história, sem nenhum contato com a sociedade “civilizada” cristã.

Assim, são os relatórios e notícias de jornais do final do século XIX e quase todo o século XX, que nos fornecem as primeiras informações sobre a ocupação indígena do Acre. Informações indispensáveis para estabelecer a ligação entre os povos que ainda hoje vivem nesta região e os povos ancestrais que construíram os sítios arqueológicos acreanos. Além, é claro, de nos fornecer um conjunto de informações sobre aspectos das culturas indígenas da região que não podem ser obtidos pela pesquisa arqueológica, tais como, línguas, artefatos de materiais perecíveis, costumes e rituais, e uma infinidade de outros dados extremamente importantes.

Portanto, esta fase é constituída tanto por exploradores brasileiros - como Manoel Urbano da Encarnação, Serafim Salgado, Silva Coutinho, Antonio Pereira Labre e outros - quanto por viajantes e cientistas estrangeiros como o geógrafo inglês William Chandless (que foi o primeiro a descrever uma aldeia com estrutura circular de terra no vale do rio Aquiri, em 1866, conforme já mencionei anteriormente), além de Ehrenreich, Nusser-Asport, Koch-Grünberg, Paul Rivet, Steere, Tastevin, entre outros.

Mas é extremamente importante chamar a atenção para o fato de que até 1903, o Acre ainda se constituía como fronteira indefinida e espaço de disputa internacional e interétnica (isso se não levarmos em consideração que a demarcação física destas fronteiras ainda se estenderia até os anos 20 do século passado). O que fez com que fosse produzida uma outra série de relatórios de explorações realizadas a partir da Bolívia e do Peru. Trabalhos desenvolvidos por Menardo Chávez, Edwin R. Heath, Agustín Palacios, Fray Nico Armentia, Nicolás Suárez, Percival Fawcett, além de muitos outros, que revelam um enorme manancial de informações ainda não devidamente consideradas por pesquisadores brasileiros.

E mesmo uma rápida revisão desta bibliografia, tão estranha aos brasileiros, chama a atenção para o fato de que a pré-história acreana não poderá nunca ser estudada tendo como foco apenas as ocorrências localizadas no Acre. Ou seja, se quisermos compreender o contexto pré-histórico do Acre teremos que ampliar nosso conceito de “Acre”, incluindo ai uma vasta região que se estende desde os Llanos Bolivianos, passando pelos Contrafortes Andinos e chegando até aos baixos rios Purus e Juruá, no Amazonas. Mas este é um assunto ao qual retornaremos posteriormente.

2ª Fase – Descoberta e pesquisa extensiva – de 1977 a 1985;

Entre 1970 e 1977, temos quase que uma pré-fase marcada pelas andanças e pesquisas do Sr. Arthur Jerosh, pioneiro da nossa arqueologia, que apesar de não ter formação acadêmica na área, desenvolveu inúmeras atividades e coletou alguns materiais muito importantes que se encontram hoje no Museu da Borracha (ver “Memória da arqueologia acreana III”).

Já o ano de 1977 marca o inicio das pesquisas sistemáticas no território acreano. Pesquisas realizadas sob os auspícios do PRONAPABA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica) e coordenadas localmente pelo arqueólogo Ondemar Dias Jr do IAB (Instituto de Arqueologia Brasileira). Sem entrar em maiores detalhes (para tanto ver “Memória da arqueologia acreana IV, V, VI e VII”), as pesquisas do IAB se estenderam por quatro anos, de 1977 a 1980, com uma pesquisa complementar em 1985. E resultaram na descoberta de 70 sítios arqueológicos, dentre os quais pelo menos nove sítios com estruturas de terra.

Complementando as pesquisas desta fase ocorreram, nos anos de 1983 e 1984, algumas missões de campo no sítio Los Angeles (um circulo com cerca de 250 metros de diâmetro) inicialmente coordenadas pelo Prof. Oldemar Blasi e depois assistematicamente efetivadas por professores e alunos da UFAC (ver “Memória da arqueologia acreana VI”).

Caracteristicamente as pesquisas desta fase tiveram um caráter extensivo. Ou seja, foram dedicadas ao conhecimento de grandes áreas, se estendendo por diversos vales acreanos, sem um maior aprofundamento (escavação de grande porte) desta ou daquela ocorrência. Ainda assim a partir da análise do material coletado o Dr. Ondemar Dias conseguiu estabelecer as grandes linhas da ocupação pré-histórica do Acre determinando duas grandes tradições ceramistas na região: a Tradição Acuriá (no vale do Juruá-Tarauacá) e a Tradição Quinari (no vale do Purus-Acre).

Faz parte desta fase, portanto, a descoberta dos sítios com estruturas de terras (também chamados de “sítios geométricos” ou mais recente e erroneamente “geoglífos”) pelo Dr. Ondemar Dias, que em publicação de 1988, definiu as primeiras e fundamentais linhas de pesquisa sobre este tipo de sítio arqueológico (ver “Memória da arqueologia acreana VII”).

Ou seja, devemos ao Dr. Ondemar a postulação de questões como: os sítios com estruturas de terras estão situados numa ampla área que cobre todo o vale do rio Acre, se estendendo por um lado até o rio Iquiri, por outro até o Abunã, chegando até o vales dos rios Purus e Iaco; estes sítios tem formas e contextos diferenciados de acordo com a região onde se situam, revelando que existe uma “tipologia” que deve nortear a classificação destas ocorrências; estes sítios foram construídos nas terras firmes, nos divisores de águas dos rios acreanos, não sendo até aqui conhecido nenhum destes sítios na área da margem dos rios; os povos que construíram estes sítios eram populações ceramistas que apresentam vinculações culturais com povos identificados em outras partes da Amazônia, especialmente com a região do Llano de Mojos, no Beni boliviano; estes sítios possuem vinculações também com sítios que não apresentam estruturas de terra e coincidem, em parte, com áreas que historicamente possuem uma vegetação aberta, como os Campos do Capatará, do Gavião, Central, da Cobra, etc. o que coloca em questão a cobertura florestal destas áreas na época da construção dos sítios; não se pode determinar ainda a função das estruturas de terra de formas variadas que caracterizam estes sítios, devendo ser consideradas varias hipóteses como função bélica, agrícola ou mágico-simbólica. Questões e hipóteses de pesquisa, estabelecidas pioneiramente por Ondemar Dias, e que serão tratadas com maior profundidade nos próximos artigos desta série.

 

 
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Rio Branco-AC, 20 de janeiro de 2008
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