OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

A imensidão da viagem

A imensidão do Brasil encanta os olhos e acelera o pensamento, faz imaginar coisas grandiosas e possibilita ver cenários fantásticos. Já viajei de carro, do Acre ao Rio Grande do Sul, por um caminho e voltei por outro. Isto foi há mais de quinze anos. Já fiz algumas vezes o trecho Goiânia/Rio Branco, uma três. E de ônibus, foram outras tantas, de Rio Branco para São Paulo, de lá para Ribeirão Preto, São Joaquim da Barra, de Belo Horizonte para o Rio, do Rio para o Ceará, de Rio Branco para locais no Nordeste, de João Pessoa para Rio Branco e outras tantas.

Mas, voltando ao automóvel, recentemente, há um mês, saí do Ceará para o Acre, usando rodovias estaduais e secundárias, até ingressar na Belém/Brasília, e depois sair dela para outras secundárias, e a partir de Jataí/GO, passar a usar BRs até chegar em Rio Branco, durante cinco dias de viagem. Além das belezas dos cenários, do vento no rosto, dos pores-de-sol, dos sotaques diferentes, dos locais diversificados, a pouca amizade com os aviões facilitou esta aventura. Desta vez, em companhia do diligente Carlos Afonso e dos meus filhos Derek e Laura, o percurso do Ceará para o Acre foi uma bela brincadeira, com alguns momentos para reflexão.

Saímos de Fortaleza, no rumo de Quixadá, vendo o acesso à serra de Guaramiranga, passando pelas imponentes pedras, pelos monólitos de Quixadá, como desenhos trabalhados num grande quadro de fundo, ao lado do caminho que nos levava para Quixeramobim, a terra de Antônio Conselheiro. Sol quente, sertão assistido pela janela do veículo com ar refrigerado, que coisa! Aqui um jegue, ali um bode, em tudo, a seca, a terra cinzenta, a vegetação rala. Terra sofrida, gente castigada.

Iguatú, Jucás, Campos Sales ... e já vamos entrando no Piauí, pousamos em Picos, procurei carne de bode, mas nos contentamos com carne de boi, saborosa, mas não como a daqui, que é incomparável. A tal picanha argentina propagandeada no Ceará não chega nem perto da picanha acreana, esta mais suculenta, mais vermelha, sangue bom, como é bom o astral do cearense, alegre e receptivo, na medida certa, sem muito enfeite, no Ceará não tem disso não. No Acre, de tão boa terra, há mais gado que gente, carne para exportar, muito lugar para plantar, mas também há gente à margem.

De mencionar que em Fortaleza estive com o Paulo, meu brother, convivi com a família dele: Fernanda, Mariana e Ricardo, todos sensacionais. Vi muitos amigos do Acre, estivemos em novos locais e em antigas paragens. Revi a cantora Késia, que conheci aqui em Rio Branco e lá me atendeu cantando Nascente. Poucos dias depois ela faleceu, quando eu já estava no Acre. Fica o registro e o reconhecimento por sua fenomenal voz. Como ela, que cantou muito em Porto Velho, um pouco aqui em Rio Branco e, por útimo, estava em Fortaleza, nossa estrada também segue adiante, com sons e silêncios.

E já estamos entrando no Maranhão, pelo sul, cortando caminho, evitando a BR-101. De tão secundárias as estradas (mas bem trafegáveis, asfalto bom e pouco trânsito), erramos a entrada para São João dos Patos, que nos levaria a Balsas, passamos alguns quilômetros. Sem problemas, fez parte do passeio, que ficou maior em assunto e em gozação. Conversa vai e já estamos na balsa, atravessando o rio Tocantins. Passamos por Carolina e chegamos a Araguaína, cidade de porte médio, com uns cem mil habitantes, bela paisagem de concreto à nossa direita, no meio da tarde, que passa pela janela fechada e invade nossos olhos. Mudou a vegetação, mudou a paisagem, jegues e bodes já não surgem do nada, agora é ter cuidado com tantos carros, grandes e pequenos, o movimento é outro, a saudade de casa é a mesma, seguindo para o meio do país. Logo após as cidades, há muita terra e pouca ocupação, penso em como poderia ser grande a produção, em como poderiam ser menores as necessidades, acelero, atravesso idéias.

Tanta terra, tantas possibilidades, é mesmo uma imensidão. Os sem-terra estão lá e cá, barracos e bandeiras delimitam nossa visão, a viagem deles é mais longa. Seguimos acelerando com o resto de sol, rumo a Gurupi, até Palmas entrou nos planos, dormir numa capital não seria mal, mas a chuva tomou o lugar do sol e preferimos dormir a noite de sábado em Aparecida do Tocantins, à beira da Belém/Brasíla, a uns 60 km de Palmas. A chuva deu sono, sonhamos com outras paisagens, lembrei que depois do Acre acaba o Brasil, assim, de repente, do outro lado do rio. A terra não muda de cor nem de forma, só de dono, de idioma, dentre outras coisas que as pessoas convencionaram aceitar e os bichos do mato nem percebem.

Vamos racionalizar. Cedinho partimos para Goiás. É sol, outro dia, o Brasil continua, para frente e para trás, é muito chão, muito assunto, muito o que fazer. Passamos Gurupi e Alvorada, saímos da Belém/Brasília, pela nossa direita, entramos para São Miguel do Araguaia, enfrentando uns dez quilômetros de barro, depois asfalto novo, até chegar na bela e simpática cidade de Goiás Velho. Apesar da velha moldura, lá usamos caixa eletrônico, vimos panelas de barro e de pedra sabão, abastecemos até a visão. Outros cenários, o solo não é tão seco, há plantações e campos. Mudamos outra vez de estrada, pegamos um trevo para Iporá e rumamos para Jataí, evitando Rio Verde e os buracos. Mudamos de estado e paramos em Rondonópolis, já uma cidade com ares de grande. O dia seguinte seria para entrar em Rondônia e ganhar sol e tempo, inclusive, no fuso-horário. Na imensidão do conjunto, alguma familiaridade surgia, nas placas, nos arredores, nos destinos, o movimento conduzia homens, interesses, possibilidades, a chuva lavou as idéias, abri a janela, cheiro de chão molhado, fumei a saudade. A certeza na frente, a fumaça nas mãos, viajando e cantando, procurando a lição.

No quarto dia, um passeio por Cuiabá e tomamos a direção de Cáceres. Havia um calado plano de viajar até Rio Branco, sem escala para dormir. De tão ousado, não foi executado. Após passar o rio Paraguai (a Bolívia é bem ali) e engolir muito chão, o automóvel parou no posto Pedro Neca, onde almoçamos de tudo: lasanha, feijão tropeiro, arroz carreteiro, porco assado, maionese e lagarto bovino, por exemplo.

Rápido. Vamos passando por Pontes e Lacerda, já querendo avistar Comodoro. Chegar em Vilhena/RO era estar quase em casa. Só faltariam mil e duzentos quilômetros. Tchau Vilhena, Pimenta Bueno, ufa, Ji-Paraná! E tome combustível, café, água, cafeína de novo, cigarro, biscoito, água na cara, celular, saudade, os cheiros de casa quase entrando ... Mas não deu. Paramos em Ariquemes, fomos para a praça central, ver o final do domingo e comer sanduíches, enquanto jovens faziam piruetas em carros e motos. Falamos da malária que ali fez morada, tomamos coca-cola quase doméstica, usamos os celulares. Amanhã é o dia! Logo deixaríamos de ver e de passar por tantos carros grandes, ônibus, caminhões de todo modelo, baú, tanque, carreta. Novo ar de férias. Ou de final de férias? Não importa, estamos voltando para casa, estamos quase na porta, já é manhã, estamos em Porto Velho e, na pressa, nem procurei as jatuaranas (não há como as de Rodônia).

Antes do Jaci-Paraná paramos num posto onde o dono criticava empregados do Acre. Logo, passamos por cearenses, já que a questão parecia ser territorial. As placas do carro não negavam, mesmo sem cabeças chatas. Terra rotulada, gente que deveria brilhar, tanto espaço, lugar para tudo, agricultura, pesca, extrativismo, pecuária. Pensar nisso agora, é outra viagem. Logo ali, de novo, a Bolívia, outro país, terra com outro mastro, o mesmo chão depois do rio, outras cores na bandeira, mesma gente necessitada, que nem o idioma disfarça, é preciso traduzir? Veio o Mutum, a vila Abunã, a balsa, vieram muitas fotos. A Vista Alegre, a Extrema (que não é mais extrema de nada, a terra mudou de referência; o povo, de naturalidade; o local, de horário), a Califórnia (promessa enganadora) e logo estamos na Tucandeira.

Agora é Acre, assim sem nada a avisar, o mesmo sol, as mesmas imagens, com fuso diferente, ganhamos uma hora, mas nossa fome não entendeu, as vacas nos campos não pareciam preocupadas, o sol não esfriou, nem nada, nadinha. Passamos por Campinas, pelo Iquiry e os meninos não deram conta. Perguntaram quantas horas ainda para chegar em casa. Respondi que uns quinze minutos, torcendo para chegar logo na aldeia, sem pensar muito em como é bom ter um destino, ter o próprio local, o chão, a identidade, a certeza do momento seguinte, mesmo do mais imediato, de de algo depois dele. Como é bom ter alguém esperando.

A casa de que eu estava falando era começar a ver a parte urbana da cidade, as imediações do posto da Corrente, a comprovação visual da chegada, poder usar o telefone. E os meninos usaram, para criar um trote, dizer que haveria atraso. Brincaram com a ansiedade. Ninguém acreditou. Fomos chegando e revendo as coisas, conferindo os lugares, abraçando as saudades. A primeira que abraçei foi a pequena Gabriela. Em próxima viagem, ela vai ajudar com os roteiros. Ela ainda não sabe o que é isso. Depois, quem sabe, poderá notar que o Acre parece o fim-da-linha, mas quando a gente vem chegando, vem entrando em casa, a grandeza dos outros lugares perde a graça, o pequenino torrão vai ficando bonito, agradável, inconfundível. Só sabe quem tomou da água do rio Acre. Nossa terrinha é o local de partida, tanto para viagens quanto para sonhos. Em breve, embarcaremos de novo, estamos ainda aprendendo e ensinando a nova lição. A emoção de viver procura uma razão e o próximo passo sempre pede chão.

 

 
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Rio Branco-AC, 20 de fevereiro de 2005
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